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Balaio do Kotscho

A falta que faz um Sócrates: seleção de Tite amarelou e lança "manifesto"

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

07/06/2021 19h08

Acabou o suspense na seleção brasileira: vão todos entrar perfilados em campo para a estreia do Brasil na Copa América, no próximo domingo, como estava programado.

Ficou claro na decisão dos jogadores que o problema não era a crise sanitária do país, mas uma birra com o assediador Rogério Caboclo, que não os consultou, ao trazer o evento da Conmebol para o Brasil, em meio à terceira onda da pandemia.

Assim que tiraram o bode da sala, e o velho novo presidente da CBF, Coronel Nunes, garantiu a permanência de Tite como técnico, ficou o dito pelo não dito e o protesto dos atletas se limitará agora a lançar um "manifesto" após o jogo contra ao Paraguai, na noite de amanhã, em Assunção.

"Manifesto? Esquece, gente. Ou joga ou não joga. Esquece esse negócio de 'vamos jogar, mas somos contra isso'. Toma uma atitude de verdade, de homem. Isso que os jogadores vão fazer é uma covardia", reagiu o ex-jogador Casagrande, hoje comentarista da TV Globo.

Casão pensa que ainda estamos no tempo da "Democracia Corintiana", quando o seu companheiro Sócrates, mais conhecido por Magrão, liderou um movimento de jogadores, com o técnico Mário Travaglini e dirigentes do clube, para democratizar também o futebol, na época da campanha das Diretas Já, nos anos 80 do século passado.

Já não se fazem Sócrates como antigamente, um jogador que se formou em medicina e procurou arejar as relações de trabalho entre o time e a diretoria numa estrutura esclerosada, onde já imperava o "um manda e o outro obedece", como é até hoje.

Magrão queria dar voz aos jogadores para poder discutir tudo com os cartolas, dos horários às premiações, do esquema de jogo à concentração.

Deu certo, o Corinthians foi campeão, mas durou pouco, como costuma acontecer com as coisas boas em nosso país, eternamente atrelado ao passado de tantas derrotas e traições.

Até estranhei quando se começou a especular sobre um possível boicote da comissão técnica e dos jogadores à realização da Copa América no Brasil, mas como a esperança é sempre a última que morre, pensei que de uma hora para outra os jogadores tivessem adquirido consciência do seu papel na sociedade num país onde a pandemia do coronavírus não para de matar muita gente todos os dias.

Os ataques grosseiros da rede antissocial bolsonarista ao técnico Tite, apontado como o líder do motim e chamado de "comunista", serviram para unir mais ainda o grupo, mas bastou tirar da frente o bode Caboclo para tudo voltar à normalidade, ou seja, à mediocridade em que sobrevivemos hoje.

Com tanto dinheiro em jogo que seria perdido se a Copa América fosse cancelada, não sabemos quais foram os argumentos usados para convencer os jogadores mantidos em cativeiro pela CBF a entrarem em campo e pararem de frescura, como diria o capitão —não o Casemiro, o outro.

Após o jogo contra o Equador, na sexta-feira, as entrevistas de Casemiro e Tite deram a entender que eles estavam mesmo preocupados com o momento delicado vivido pelo país, sem condições de sediar uma Copa América extemporânea, com dez seleções. Há apenas dois anos, o torneio também foi disputado aqui.

Bem fez a seleção da Argentina, que, diante do fato consumado, comunicou à Conmebol que continuaria concentrada em seu país, vindo para cá só na véspera dos jogos, uma vergonha para o anfitrião.

Foi-se o tempo de Sócrates e Casagrande, Garrincha e Pelé, quando o futebol era a alegria do povo, motivo de festa dos torcedores, que vestiam as camisas da seleção e dos seus times com orgulho.

Virou um grande negócio como outro qualquer, com altos interesses políticos e econômicos, em que a bola é apenas um detalhe.

Quem manda agora são tipos como Rogério Caboclo, um zé mané que acha que pode tudo, legítimo herdeiro de Ricardo Teixeira, José Maria Marin e Marco Polo del Nero, banidos do futebol pela Fifa por corrupção.

Pelo menos, não conseguiram trocar Tite pelo Renato Gaúcho. Menos mal.

Vivemos tempos tristes.

Vida que segue.

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