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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Paris é uma festa e Brasil fica fora do mundo onde a vida voltou ao normal

Personagens da Disney recebem visitantes na reabertura da Disneyland Paris, na França - Raphael Lafargue/ABACAPRESS.COM/Reuters
Personagens da Disney recebem visitantes na reabertura da Disneyland Paris, na França Imagem: Raphael Lafargue/ABACAPRESS.COM/Reuters
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

17/06/2021 16h53

Na televisão e nas redes sociais por onde vejo a vida passar, é cada vez mais chocante e doloroso o contraste entre o que acontece aqui e lá fora.

Apresentadores de telejornais já não conseguem esconder a inveja dos seus colegas correspondentes na Europa e nos Estados Unidos, andando pelas ruas sem usar máscara para mostrar a vida voltando ao normal, com a progressiva flexibilização das restrições, depois de 15 meses de pandemia.

Paris voltou a ser uma festa, com mesas de cafés nas calçadas, shows de música e estádios de futebol lotados de gente vacinada e feliz, reencontrando-se com a vida normal.

Por aqui, repórteres cansados continuam mostrando os hospitais lotados onde faltam leitos de UTI, filas nos postos de vacinação em que faltam vacinas, cidades decretando lockdown outra vez, famílias de desempregados se abrigando do frio debaixo de pontes e viadutos - e o inverno ainda nem começou.

De um lado, as câmeras mostram enchentes no norte, com as pessoas saindo de barco de suas casas; de outro, imagens da estiagem no Sul e Sudeste com os reservatórios esturricados, que ameaçam deixar os moradores sem água e sem luz.

Não adianta ficar mudando de canal ou de portal porque os assuntos são sempre os mesmos: o placar da pandemia com os números de óbitos e novos casos nas últimas 24 horas; o governo prometendo agora comprar mais vacinas; a CPI da Covid que empacou; as ultimas bobagens do cercadinho do Alvorada, o Congresso legislando em causa própria, os jabutis subindo na MP da privatização da Eletrobras, a novela da volta às aulas e a gincana maluca para encontrar um candidato da "terceira via".

Precisava ser assim? Que mal fizemos para ficarmos andando em círculos, sem encontrar uma saída no labirinto em que nos metemos?

Por mais que você procure uma notícia boa, para ficar mais otimista e espantar a melancolia, não encontra em lugar nenhum.

Mesmo os que já fomos vacinados com a segunda dose, temos medo de sair às ruas ou entrar em algum lugar onde as pessoas andam sem máscaras, como se fossem os alegres transeuntes de Paris ou Nova York, onde já não são mais necessárias.

O vírus por aqui continua ganhando essa batalha de goleada, rindo de quem não tem medo de se contaminar nem contaminar os outros porque ainda acredita na cloroquina e na imunidade de rebanho.

Devem achar que o mundo inteiro está errado e só nós vamos nos salvar, sem fazer sacrifícios para seguir os conselhos da ciência, pulando de cabeça sem máscaras nas baladas de sábado à noite, achando que a "pandemia já está no finzinho", e agora é só alegria.

Quanto mais insistirmos em fazer tudo errado, seguindo os conselhos dos sábios do "gabinete paralelo", mais distantes ficaremos de voltarmos a ter uma vida normal.

Quem pode está indo embora daqui ou indo morar no mato, para não se contaminar, mas a maioria do rebanho continua condenada a ver pela televisão a felicidade dos habitantes de outros países, que fizeram a lição de casa, e não foram chamados de maricas ou de "idiotas do fique em casa" por seus governantes.

O que me dá mais agonia não é nem o confinamento compulsório em que muitos vivemos há tanto tempo, sem poder conviver com parentes e amigos, mas não conseguir vislumbrar no horizonte quando sairemos desse pesadelo.

Pior do que um fim horroroso é um horror sem fim, já disse alguém que eu não lembro quem foi.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL