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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Factoides, balões de ensaio, mentiras: Bolsonaro faz tudo por uma manchete

Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o senador Ciro Nogueira (PP) - Reprodução/TVBrasil
Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o senador Ciro Nogueira (PP) Imagem: Reprodução/TVBrasil
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/07/2021 15h38

Estou desconfiado de que Bolsonaro gostaria mesmo era de ser jornalista, apesar de eleger a imprensa como seu principal inimigo, junto com o STF (Supremo Tribunal Federal) e a CPI da Covid no Senado.

Do cercadinho do Alvorada, onde ele fala para o país pelos celulares de meia dúzia de devotos, ou em suas lives, o presidente dita a pauta diária do que será notícia online ou no dia seguinte —de preferência, nas manchetes.

Bolsonaro mesmo se autoentrevista. Assim não precisa de perguntas nem de contraditório. São apenas monólogos presidenciais.

Pode ser qualquer coisa: xingar os adversários, receitar remédios milagrosos, falar de uma dor de barriga ou da próxima cirurgia, esculhambar dirigentes de outros países, apelar para a escatologia, desdenhar da pandemia e das vacinas, anunciar um novo ministro do STF ou mais uma reforma ministerial, como acaba de fazer nesta quarta-feira.

Entre factoides, balões de ensaio e simples mentiras, o capitão da reserva só quer que falem dele, bem ou mal, não importa.

Se os seus anúncios vão se confirmar com fatos ou não, é outro problema. O que ele disse hoje pode não valer amanhã. E a culpa será sempre da imprensa ou de alguém que não entendeu direito o que o presidente falou e tirou do contexto, manipulou as informações.

Caso seja necessário, também não tem o menor pudor em desmentir o que ele mesmo disse e dar uma nova versão para os fatos.

Num dia da semana passada, Bolsonaro deixou o Hospital das Forças Armadas em Brasília, numa ambulância, e foi embarcado de maca, às pressas, para um hospital em São Paulo, no jato presidencial, por estar sofrendo de uma grave obstrução intestinal, para ser submetido a uma cirurgia de emergência.

Foi manchete por longas horas em tudo quanto é lugar, até no exterior. Na mesma noite, após alguns exames, o seu médico pessoal, Antônio Macedo, afastou a necessidade de cirurgia, optou por um tratamento clínico conservador e, no dia seguinte, Bolsonaro já estava circulando sem máscara pelos corredores do hospital.

No domingo, ele voltou a Brasília e ao cercadinho, são e salvo, com disposição para atacar "os três patetas" da CPI do Senado.

Para alimentar o noticiário, logo anunciaria com grande antecedência a recondução de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República e já tratou logo de lançar novo balão de ensaio, marcando para segunda-feira uma reforma ministerial, para entregar de vez o comando da articulação política ao Centrão, assunto que renderá manchetes por vários dias seguidos.

A Casa Civil, que era ocupada por generais, deve ir agora para Ciro Nogueira, presidente do PP, que disputa espaço com Arthur Lira, do mesmo partido, presidente da Câmara.

Na dança de cadeiras, precisa sobrar um lugar para o fiel amigo Onyx Lorenzoni, que sai da Secretaria-Geral para dar lugar ao general Ramos. Para isso, planeja-se a criação de um novo ministério, o do Trabalho e Previdência, antes reduto do ministro da Economia, Paulo Guedes, cada vez mais enfraquecido.

Em entrevista hoje de manhã à rádio Jovem Pan de Itapetininga (SP), o presidente garantiu que os novos ministros foram escolhidos com "critério técnico, para a gente continuar administrando o Brasil". Maravilha.

Desde que assumiu, o presidente já trocou 15 ministros e recriou o Ministério das Comunicações para nomear um genro de Silvio Santos, o deputado Fábio Faria. Na campanha, ele havia prometido enxugar a Esplanada para 15 ministérios, mas agora já serão 24.

Se tivesse consultado o Google, Bolsonaro ficaria sabendo o que Ciro Nogueira já falou sobre ele e o ex-presidente Lula, em entrevista à TV Meio Norte, do Piauí, em 2017, quando ainda era considerado uma zebra na campanha presidencial.

Sobre Bolsonaro: "Ele tem um caráter fascista. É muito fácil ir para a TV dizer que vai matar bandido".

Sobre Lula: "Foi o melhor presidente desse país, principalmente para o Piauí e para o Nordeste. Não me vejo votando contra o Lula".

Como sabemos, em 2018 Lula seria preso pela Lava Jato e Bolsonaro acabaria eleito.

Claro que as pessoas podem mudar de opinião, mas não custa nada o presidente ter algum cuidado com o apoio desinteressado de Ciro Nogueira, um dos chefões do Centrão velho de guerra, que só não rasga dinheiro nem votos.

Vida que segue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL