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Balaio do Kotscho

Herdeiros do malufismo, quem diria, chegam enfim ao poder com Bolsonaro

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

23/07/2021 18h53

Bolsonaro bagunçou de tal forma o cenário político-partidário nacional que poucos se deram conta da chegada dos herdeiros do malufismo ao poder com o seu Partido Progressista (PP), os grandes ganhadores desta reencarnação do governo.

Provável destino do presidente ainda sem partido para disputar a reeleição, o PP de Paulo Maluf, sucedâneo de várias siglas criadas após a extinção da velha Arena, que já tinha o presidente da Câmara, Arthur Lira, e o líder do governo, Ricardo Barros, ganhou o ministério mais importante, a Casa Civil, ultimamente ocupada por generais, os maiores derrotados nestas mudanças.

Com as verbas, os cargos e a articulação política em suas mãos, o partido passou a ser a maior força do Centrão, que ocupou o governo de ponta a ponta e tem sob a sua guarda os mais de 100 pedidos de processos de impeachment.

Foi no partido de Maluf que Jair Bolsonaro passou a maior parte da sua carreira parlamentar. Ontem mesmo ele lembrou que "nasceu do Centrão", onde ocupava as últimas cadeiras do baixo clero, antes de se candidatar a presidente.

Por isso, é bom lembrar quem é o patrono desse partido. Aos 89 anos, ainda em prisão domiciliar, lutando com graves problemas de saúde, Paulo Maluf tentou duas vezes chegar à presidência da República, seu grande sonho, depois de ser prefeito e governador biônico de São Paulo durante o regime militar.

Perdeu, primeiro, para Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, em 1985, e depois disputou a primeira eleição direta para presidente da República, em 1989, vencida por Fernando Collor de Mello. Teve apenas 8,60% dos votos e ficou em quinto lugar.

Em 1992, venceu em eleição direta a disputa pela prefeitura de São Paulo e, dali para a frente, só se elegeu para deputado federal. Denunciado um sem numero de vezes por casos corrupção em obras, a ponto de se criar o verbo "malufar", Maluf só seria condenado por lavagem de dinheiro pelo Supremo Tribunal Federal já no ocaso da sua vida política, em 2017, a mais de sete anos de prisão, mas passou só uma breve temporada na Papuda. No ano seguinte, receberia outra pena de 2 anos e 9 meses por falsidade ideológica com fins eleitorais e foi beneficiado com prisão domiciliar.

Com dificuldades para se locomover e problemas de memória, Maluf passa os dias na mansão onde sempre morou no Jardim América e não tem mais nenhuma atividade política ou empresarial. Os três filhos também enfrentam problemas na Justiça.

Nem ele poderia imaginar que um dia seus herdeiros políticos do Partido Progressista, uma contradição em termos, já que são todos profundamente conservadores, assumiriam o comando do país.

Nas voltas que a vida dá, o empresário Paulo Maluf teve seu primeiro cargo público quando foi nomeado pelos militares para a Caixa Econômica Federal e depois para a prefeitura da sua cidade. Foi uma cria civil da ditadura militar, que defendeu no Colégio Eleitoral, na disputa com Tancredo Neves. Agora, seu partido assume com Ciro Nogueira, senador do Piauí, o lugar dos generais no Palácio do Planalto e comanda, com Arthur Lira, a Câmara dos Deputados.

Legitimo representante da velha elite endinheirada paulistana, que prefere carros de grife a motocicletas, nunca teve projeção política nacional. Engenheiro formado pela Escola Politécnica da USP, ficou conhecido como tocador de grandes e caras obras urbanas, como o túnel Ayrton Senna e o Minhocão.

Como ele não dá mais entrevistas, ficamos sem saber o que pensa de tudo isso e do governo de Jair Bolsonaro, seu ex e talvez futuro correligionário.

Vida que segue.