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Balaio do Kotscho

Futuro da imprensa: por que o bolsonarismo ataca tanto os jornalistas?

Governo Bolsonaro coleciona ataques à imprensa: foram 331 no primeiro semestre de 2021 - Alan Santos/PR
Governo Bolsonaro coleciona ataques à imprensa: foram 331 no primeiro semestre de 2021 Imagem: Alan Santos/PR
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

28/07/2021 17h32

Havia tempos não participava de um debate com estudantes de jornalismo, algo que sempre me dá prazer, porque faz pensar no futuro da nossa profissão, que já foi dada como extinta muitas vezes, mas ainda resiste.

Certa vez, muito tempo atrás, participei com o velho amigo José Hamilton Ribeiro de um debate na PUC do Rio em que se perguntava: "A reportagem morreu?"

Uns 30 anos depois, já em pleno período democrático, voltamos à mesma faculdade, e o tema era o mesmo.

"A reportagem, não sei, mas nós dois continuamos vivos, e trabalhando...", respondi a quem me perguntou se o nosso ofício estava morrendo.

Por um bom tempo, jornalismo já foi a profissão da moda e, até hoje, é um dos cursos mais procurados nos vestibulares.

Como se explica isso, se esse é um ofício em geral mal remunerado e mal visto pelos donos do poder, que exige dedicação quase exclusiva e embute um monte de riscos para o seu pleno exercício?

Sempre foi assim, mas de uns tempos para cá ficou bem pior, a ponto de preocupar jovens estudantes que temem pelo seu futuro, como reparei na conversa da manhã desta quarta-feira com uma turma do segundo período de jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais.

Sobre o tema "A reportagem na prática: desafios e perspectivas", durante hora e meia falamos de tudo, da vida e do trabalho de repórter no Brasil de hoje.

Eles estão lendo meu livro "A Prática da Reportagem" (Editora Ática, 1985) e queriam saber se ainda é possível escrever matérias como eu fazia naquele tempo, em que não me limitava a relatar fatos, mas procurava levar o leitor para dentro da história, dando voz aos personagens do povo que não costumavam sair na mídia.

Sim, tudo é possível, depende apenas da disposição do repórter de brigar por boas pautas, por espaço e tempo para fazer a apuração. É uma briga diária que dá trabalho, mas vale a pena. Não dá para fazer reportagem só pela internet ou por telefone. Tem que ir pra rua, ver de perto, ouvir muita gente, sentir o clima.

Como não se trata de uma ciência exata e não há receitas prontas, cada profissional, com o tempo, vai encontrando seu próprio caminho para descobrir fatos, e a forma de contá-los para despertar o interesse do leitor/telespectador/ouvinte/internauta.

Quando eu comecei, em 1964, tínhamos acabado de entrar na longa noite da ditadura militar, o mercado de trabalho era muito mais restrito, mas sempre se dava um jeito de arrumar estágio em alguma redação, para contar o que estava acontecendo, como se não existisse censura. A gente escrevia, e eles cortavam, cada um na sua praia. Sobrevivemos, nós e a profissão, embora muitos contemporâneos tenham ficado pelo caminho.

Hoje, com a fantástica revolução da internet nas comunicações humanas, as oportunidades de trabalho se multiplicaram e todo mundo pode ser ao mesmo tempo emissor e receptor de informações e opiniões, mas o jornalismo profissional nunca foi tão valorizado como prestador de um serviço de utilidade pública com credibilidade para combater a indústria de fake news das milícias digitais, em meio à pandemia que já fez mais de 550 mil vítimas.

Vem daí o ódio de camadas da população, radicalizadas pelo bolsonarismo em marcha, que brigam com os fatos para vender suas versões, que muitos ainda compram.

Para responder à pergunta do título, é importante lembrar que os ataques de Bolsonaro aos jornalistas são anteriores à sua posse no governo. Costumo dizer que o bolsonarismo já existia antes dele. O capitão somente deu voz a um pedaço do Brasil de gente triste e frustrada, que não deu certo na vida, e esperava apenas o momento de se vingar. Este é um governo de vingança _ contra a democracia, a Justiça, os jornalistas, a ciência, a cultura, a educação, o meio ambiente, a civilização.

No dia mesmo da posse, jornalistas que faziam a cobertura foram confinados em chiqueirinhos de onde só podiam sair acompanhados de seguranças, sem ter acesso a informações, comida e água. Era o sinal do que vinha pela frente.

Dirão os seguidores mais devotos do presidente que os jornalistas são atacados porque só sabem criticar o governo, mas não conseguem apresentar argumentos racionais para mostrar o "outro lado". Limitam-se a xingar as janelas e os mensageiros quando a paisagem não lhes agrada.

Bolsonaro um dia vai passar, mas temo que esse ranço bolsonarista, tosco e reacionário, veio para ficar, tornando mais difícil a vida dos jornalistas.

Ainda hoje, aqui no UOL, meu colega Jamil Chade, correspondente na Europa, relata que no primeiro semestre de 2021 os ataques de Bolsonaro à imprensa cresceram 74%, em comparação ao seu próprio comportamento, no segundo semestre de 2020.

Os dados fazem parte de um levantamento publicado pela entidade Repórteres sem Fronteira (RSF), que destaca humilhações contra jornalistas, ataques contra mulheres e fabricação de desinformação.

Diante desse cenário, só resta à nova geração de jornalistas fazer como nós fizemos neste último meio século: resistir, abrir brechas, não abaixar a cabeça, não desanimar diante das dificuldades.

Ser jornalista, mais do que uma opção profissional, é uma opção de vida. Não é para quem quer moleza.

Vida que segue.