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Balaio do Kotscho

De tão repetidas, ameaças golpistas de Bolsonaro já não assustam ninguém

Jair Bolsonaro se reúne com apoiadores para um passeio de moto em Presidente Prudente (SP) - Reprodução/Redes sociais
Jair Bolsonaro se reúne com apoiadores para um passeio de moto em Presidente Prudente (SP) Imagem: Reprodução/Redes sociais
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

02/08/2021 19h06

"Para Jair Bolsonaro, só há duas opções: a ditadura, que ele está anunciando, ou a Papuda, porque ele será preso por seus crimes" (Professor e historiador João Cezar de Castro Rocha, em entrevista à TV 247).

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Quanto mais acuado pelos fatos, mais Bolsonaro mente e radicaliza no tiroteio das palavras.

"Sem eleições limpas e democráticas, não haverá eleição", disparou mais uma vez no domingo, para os devotos concentrados diante do Congresso Nacional.

Cada vez mais convencido de que não tem chances de ganhar as eleições nas urnas, o capitão desesperado está só à procura de um pretexto para cancelá-las e continuar no governo com plenos poderes.

Bolsonaro só aceita a eleição se for para ele ganhar e, por duas vezes, até já ameaçou abandonar a candidatura à reeleição.

"Nós mais que exigimos, podem ter certeza, juntos porque vocês são de fato meu Exército _ o nosso Exército _ que a vontade popular seja expressada na contagem pública de votos", disse ao celular, diretamente da trincheira solitária montada numa sala do Alvorada.

Pelo jeito, nem Bolsonaro acredita mais que o Exército de Caxias bote seus tanques na rua para defendê-lo. Por isso, o apelo aos seguidores que o chamam de "Mito" e repetem religiosamente nas ruas as suas palavras de ordem.

A cena lembra aqueles pastores pregadores da praça da Sé gritando para os transeuntes, repetindo sempre a mesma ladainha contra satanás, encarnado em Luís Roberto Barroso, presidente do TSE, e no adversário Lula, os inimigos a serem abatidos.

Quem ainda acredita nas ameaças do presidente, além da turma do cercadinho, cada vez menor?

De tão repetidas, já não assustam ninguém. Só servem para alimentar os robôs perfilados nos perfis falsos do Twitter, a tropa de choque que lhe continua mais fiel.

A melhor resposta aos discursos golpistas de Bolsonaro partiu dos ministros Luís Roberto Barroso, atual presidente do TSE, do vice Edson Fachin, e do próximo, Alexandre de Moraes, junto com todos os ex-presidentes do Tribunal Superior Eleitoral desde 1988, que divulgaram uma nota nesta segunda-feira em defesa do atual modelo de eleições no país.

"A Justiça Eleitoral, por seus representantes de ontem, de hoje e do futuro, garante à sociedade brasileira a segurança, a transparência e a auditabilidade do sistema. Todos os ministros, juízes e servidores que a compõe continuam comprometidos com a democracia brasileira, com integridade, dedicação e responsabilidade".

Como o pretexto do "voto impresso auditável" dificilmente passará pela Câmara, Bolsonaro terminou o dia tirando outro coelho da cartola: o aumento do Bolsa Família para R$ 400, sem explicar de onde vai tirar o dinheiro.

Mas não é só para conquistar o voto dos mais pobres. Trata-se também de garantir a fidelidade dos deputados do Centrão que serão candidatos no ano que vem.

Com a popularidade do presidente despencando nas pesquisas _ apenas 24% do eleitorado ainda aprova o governo, segundo o último Datafolha _ eles podem pular do barco se a própria reeleição estiver ameaçada.

Segundo outra pesquisa do Atlas Político, divulgada hoje jornal valor Econômico, para 54,3% dos brasileiros Bolsonaro está envolvido em práticas de corrupção relacionadas à importação de vacinas contra a covid-19, lembrando que a CPI da Pandemia agora ainda tem mais 90 dias pela frente.

Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come. A turma do andar de cima está de olho: se estourar o teto de gastos, para agradar o andar de baixo, Bolsonaro & Guedes podem perder o apoio do mercado que bancou a candidatura em 2018.

E ainda não se sabe o que os militares estão achando desse novo cenário, depois que o Centrão assumiu o comando do Palácio do Planalto.

Bolsonaro tem bons motivos para sofrer de insônia. Na selva do poder, virou um leão sem dentes.

Vida que segue.

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