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Balaio do Kotscho

No cercadinho do Alvorada, Bolsonaro blefa com o golpe para fugir da cadeia

Jair Bolsonaro conversa com devotos no cercadinho Palácio da Alvorada, em Brasília: medo das urnas e dos tribunais - Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Jair Bolsonaro conversa com devotos no cercadinho Palácio da Alvorada, em Brasília: medo das urnas e dos tribunais Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

05/08/2021 19h41

Bolsonaro sabe que não tem mais chances de ser reeleito. Por isso mesmo, está a cada dia mais furioso em sua trincheira cavada no cercadinho do Alvorada, de onde fala para os devotos e atira para todo lado, ameaçando as instituições.

"Vão mandar quem aqui? A PF ou as Forças Armadas, baseado no quê", disparou um desafio a Moraes e Barroso, os dois ministros do STF que esta semana colocaram o presidente sub judice, acusado de cometer crimes em série no exercício do cargo.

Cercado por todos os lados, no STF, no TSE e no Senado, o capitão reformado expulso do Exército desafia a Justiça, que decidiu dar um basta às suas ofensivas golpistas, como se o Brasil fosse uma terra sem lei, uma terra de ninguém.

Posso estar muito enganado, mas o desespero de Bolsonaro me dá a impressão de que ele está blefando, com essa história de "voto impresso auditável", para fugir do julgamento das urnas e dos tribunais.

Nesta quinta-feira, em entrevista à rádio 93 FM, do Rio de Janeiro, ele deu mais uma demonstração de não ter condições de continuar governando o país nos limites do regime democrático.

"A hora dele (referindo-se ao ministro Alexandre de Moraes) vai chegar. Por que está jogando fora das quatro linhas da Constituição há muito tempo. Não pretendo sair das quatro linhas para questionar estas autoridades, mas acredito que o momento está chegando".

A que momento ele se refere? Invadir o Supremo Tribunal Federal e prender o ministro, como os seus devotos estão ameaçando nas suas redes sociais, cada vez mais beligerantes _ um dos motivos dos inquéritos abertos no STF?

Quem está jogando fora das quatro linhas da Constituição, desde a sua posse, é o presidente da República, eleito com base na mentira de que iria combater a corrupção.

A máscara caiu no dia 22 de abril do ano passado, naquela fatídica reunião ministerial na qual detonou o "herói" da Lava Jato, o ex-juiz Sergio Moro, que pavimentou o caminho para a sua eleição ao prender o candidato que liderava todas as pesquisas em 2018.

"Não dá para trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é uma ameaça, uma extrapolação da minha parte. É uma verdade (...). Tem que mudar, pô. E eu quero é, realmente, governar o Brasil (...). É o mesmo barquinho, é o mesmo barco. Se alguém cavar no porão aqui, vai todo mundo pro saco aqui, vai todo mundo morrer afogado", avisou aos seus ministros. Ali ele já demonstrava seu medo de que todos poderiam sair do governo presos, se não mudassem a rota do barco.

Nos dias seguintes, livre de Moro, Bolsonaro assumiu o comando da Polícia Federal.

Foi o primeiro passo para aparelhar todos os órgãos de controle e proteger a família e os amigos, transformar o procurador-geral da República em advogado particular, fazer do Ministério da Justiça e da Abin instrumentos para perseguir adversários, comprar o Centrão e cooptar as Forças Armadas com benesses, depois de eleger os presidentes da Câmara e do Senado, e derrubar todos os seus comandantes, em março deste ano.

Assim ele imaginava estar blindado contra a ameaça do impeachment e avisar ao país que "só Deus pode me tirar daqui".

Pensando que encarnava Deus, Jair Messias Bolsonaro passou a governar o Brasil segundo as suas próprias leis, em que só ele manda e os outros obedecem cegamente, como se fôssemos todos Pazuellos.

Com a chegada da pandemia, ficou flagrante toda a sua incompetência nata e prepotência ignara, cercando-se de charlatões e picaretas negacionistas, que causaram a grande tragédia sanitária, da qual não saímos, ainda contando mais de mil mortos por dia, e já nos aproximando dos 600 mil óbitos, com mais de 20 milhões de infectados pelo coronavírus.

Depois de entregar o governo ao Centrão e aos seus generais de pijama, Bolsonaro só pensava na reeleição, mas agora está com medo das investigações nos tribunais superiores e na CPI da Pandemia, pelo conjunto da obra de destruição do país, que deixou pelo caminho esse rastro de mortos e milhões de desempregados, com famílias passando fome, jogadas nas calçadas e sob os viadutos nos becos sem saída.

"Olha, o que é a ditadura da toga. Vão me investigar. Será que vão dar uma sentença, fazer busca e apreensão no Alvorada?", pergunta o presidente aos devotos no cercadinho, sem esperar resposta.

Ele sabe o risco que está correndo. De tanto ameaçar a realização das eleições de 2022, poderá ver seu nome fora da urna, por se tornar inelegível.

Aqui se faz, aqui se paga. A justiça pode tardar, mas não falha, diz a sabedoria popular.

Não consigo imaginar Bolsonaro dando um golpe. Mais provável é que ele seja condenado.

Vida que segue.