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Balaio do Kotscho

O que vai ser do Brasil depois da guerra armada por Bolsonaro?

Jânio Quadros na ponte que liga Uruguaiana (RS) a Libres, na Argentina, em 21 de abril de 1961 - Erno Schneider/Divulgação
Jânio Quadros na ponte que liga Uruguaiana (RS) a Libres, na Argentina, em 21 de abril de 1961 Imagem: Erno Schneider/Divulgação
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

02/09/2021 19h04

Na falta de um inimigo externo, em combate permanente desde a posse, o capitão insurgente resolveu declarar guerra contra o próprio país.

Contra quem, exatamente, ainda não se sabe, nem ele.

Bem que poderia ser uma guerra contra a pandemia, o desemprego, a inflação, a fome, a crise hídrica, o apagão iminente — e todas as outras desgraças que afligem o povo brasileiro.

Mas, não, Bolsonaro nem toca nesses assuntos desagradáveis. Os alvos dele são todos aqueles que se opõem ao seu governo de destruição, porrada e morte, ou seja, a ampla maioria do povo brasileiro, segundo todas as pesquisas.

Montado num cavalo e empunhando a bandeira nacional, na terça-feira, em Uberlândia, o tenente ejetado do Exército como capitão, aos 33 anos, resolveu posar de imperador, um Dom Pedro redivivo da "nova independência" anunciada pelas suas milícias digitais.

No dia seguinte, em mais um evento militar no Rio para distribuir medalhas, começou seu discurso assim:

"Com flores não se ganha a guerra. Se você quer paz, prepare-se para a guerra".

Os brasileiros que não fazem parte das suas falanges querem a paz, mas o presidente da República só fala em guerra.

Outro dia, no final de agosto, pediu aos seus devotos do "cercadinho" do Alvorada para comprarem fuzis em vez de feijão, e ainda chamou de idiotas os que só pensam num prato de comida neste país onde ainda se morre de fome.

Em que país Bolsonaro pensa que vive?

Cada vez mais isolado da realidade e, portanto, mais perigoso, ele quer fazer do 7 de Setembro um "divisor de águas" para dar o "último recado" aos tribunais superiores e a todas as instituições republicanas.

E o que vai ser do Brasil depois da guerra armada para o Dia da Independência?

Aconteça o que acontecer, Bolsonaro vai se declarar vitorioso, essa é a única certeza. Se depender da sua vontade, o país nunca mais será o mesmo.

Por isso, já tem gente pensando até em deixar o país ou pedir asilo numa embaixada porque o capitão poderá se sentir ainda mais forte para levar a cabo seu projeto golpista, o único deste governo suicida que quer promover uma guerra civil.

A mobilização da sua seita nas redes sociais para ocupar as ruas no dia 7 é gigantesca, como se o país estivesse prestes a ser invadido pelos malvados comunistas de uma potência estrangeira, aliada ao STF e ao PT, os seus fantasmas.

O mais incrível é que as palavras de ordem dos atos em defesa de Bolsonaro e do seu governo agora são "liberdade" e "democracia", exatamente as nossas duas conquistas civilizatórias mais ameaçadas por seus atos e discursos bélicos.

Ainda que leve multidões enfurecidas às ruas gritando "Mito!", os nossos problemas, no dia seguinte, continuarão do mesmo tamanho, sem solução à vista.

Por mais que provoque, Bolsonaro não conseguirá o que mais persegue para mobilizar as Forças Armadas em sua defesa, colocando as tropas na rua.

Por falta de inimigos reais, será difícil provocar um grande confronto nas ruas porque só um dos lados estará armado.

A não ser que milicianos bolsonaristas, uma redundância, comecem a atirar uns nos outros, não haverá o sonhado derramamento de sangue porque só ele quer a guerra.

Nós só queremos viver em paz, poder trabalhar e estudar, pagar as nossas contas, educar filhos e netos, fazer um churrasquinho de vez em quando, tomar uma cerveja com os amigos. Não é pedir muito.

Essa história de autogolpe não costuma dar muito certo no Brasil. O último que tentou, em 1961, deixou solitariamente o país num navio cargueiro rumo a Londres, e passou o resto da vida tentando explicar as "forças terríveis" que o levaram à renúncia. Jamais conseguiu.

Jânio Quadros pelo menos teve a fineza de renunciar. Era um doido manso, não levou ninguém à morte.

Vida que segue.