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Balaio do Kotscho

Meus amigos estão morrendo de tristeza do Brasil

O ator Sérgio Mamberti em foto de 2019: Mais um amigo que se vai, sem poder dizer adeus - Karime Xavier/Folhapress
O ator Sérgio Mamberti em foto de 2019: Mais um amigo que se vai, sem poder dizer adeus Imagem: Karime Xavier/Folhapress
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

03/09/2021 16h58

Esta semana perdi três grandes amigos, um atrás do outro.

Não, eles não morreram de covid. Foi de tristeza mesmo — tristeza do Brasil, desses dias cada vez mais escuros e sem luz à vista.

Cada um morreu de uma doença diferente, mas a causa foi a mesma: a falta de esperança, o medo do amanhã, algo que eles, batalhadores incansáveis, nunca tinham sentido na vida, um vazio enorme, a perda de chão.

Pela ordem, saíram de cena o produtor musical Pelão (João Carlos Botezelli), o repórter Dermi Azevedo e o ator Sergio Mamberti, amigos com quem convivi em diferentes fases na minha vida profissional e pessoal.

Pelão era um moleque grande que conheci nas férias em Caraguatatuba, no final dos anos 60.

Por ser o mais velho, virou o chefe de uma turma que vivia aprontando pelas ruas da então cidadezinha do litoral norte de São Paulo, hoje um formigueiro de prédios. Para ganhar uns trocados, trabalhamos um tempo juntos num trenzinho para turistas — ele era o motorista, e eu, o cobrador.

A vida era boa, e a gente sabia, até que um belo dia Pelão teve a brilhante ideia de jogar sabão em pó na água da fonte luminosa. A pracinha ficou coberta de espuma e nós tivemos que sumir por um tempo porque o prefeito era muito bravo e ficou furioso com a brincadeira.

Nas horas vagas, roubávamos também algumas galinhas dos quintais dos vizinhos, mais por farra do que por necessidade. Na volta para São Paulo, cada um tomou seu rumo. Virei jornalista e Pelão foi trabalhar como produtor musical de festivais estudantis.

Nos reencontramos em movimentos contra a ditadura, onde conheci Sergio Mamberti, onipresente em todos os atos pela anistia, um cidadão inconformado com a perseguição a artistas, jornalistas, sonhadores e vagabundos em geral que lutavam pela liberdade.

Pelão pensou em entrar na política, mas logo desistiu ao descobrir que a música era a sua melhor vocação para mudar o mundo, enquanto Mamberti se tornava uma estrela do teatro de resistência, antes de ser descoberto pela televisão, onde brilhou até outro dia.

O potiguar Dermi Azevedo, depois de ser preso e torturado, junto da mulher e do filho de dois anos, também virou jornalista e destacou-se como repórter na cobertura da área de direitos humanos e religião, nos anos 70, junto com Ricardo Carvalho, o Ricardão, outro grande amigo de décadas, que também morreu outro dia, de repente.

Tínhamos um amigo em comum, o inesquecível corintiano dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal dos pobres, que faria 100 anos por estes dias, a quem todos recorríamos nos momentos de aperto antes da ditadura acabar.

Também Paulo Freire, o professor dos professores, faria 100 anos agora. Eles não deixaram sucessores à altura, mas ainda bem que temos na lida um Rogério Cerqueira Leite, que esta semana escreveu um corajoso artigo na Folha, perguntando quem tem medo de Lula.

Trabalhei com o baixinho Dermi nos áureos tempos da Folha, nos anos 80, sempre sério e compenetrado, quando a gente sonhava com a democracia na campanha das Diretas Já, que agora também vai morrendo aos poucos.

As melhores lembranças que tenho do Pelão são de uma viagem a Cuba, quando ainda era proibido viajar para lá, numa grande comitiva de brasileiros que tinha Frei Betto, Fernando Morais e o

imortal físico Mário Schoemberg, que já era bem velhinho, e tinha dificuldades de locomoção, como eu tenho hoje.

Personagens de histórias de vida tão diferentes, era Pelão quem cuidava de Mário, e eles se tornaram grandes amigos de infância. Com Frei Betto, ousei ir a uma missa de domingo em Havana, o que nos valeu o apelido de "papa-hóstias". Lá, pelo menos, a gente não era chamado de comunista...

Cada vez que morre um amigo, me lembro dos outros que se foram e dos que ainda estão entre nós, mas sinto que vamos perdendo as referências de um Brasil altivo, solidário, fraterno, que enfrentou e derrotou a ditadura militar, para agora tudo acabar no governo Bolsonaro. É isso que mata a gente.

Nunca vou esquecer do Sergio Mamberti, já bem veterano, na sala de espera do aeroporto de Congonhas, esperando sua vez de embarcar às segundas-feiras para Brasília, sempre com uma malinha de mão, onde carregava seus planos para o Ministério da Cultura, então comandado por Gilberto Gil, hoje entregue ao tal de Mário Frias, um completo boçal que não sabe quem é Lina Bo Bardi.

Não sei se terei tempo de ver o Brasil renascer das cinzas, depois desse 7 de Setembro, que se prenuncia tenebroso, com fuzis em lugar de feijão.

A cada dia vou-me sentindo mais sozinho, mas dizem que a esperança é a última que morre.

Não pode tudo ter sido em vão, caros amigos que se foram, sem direito de dizer adeus.

Vida que segue.