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Balaio do Kotscho

1964-2021: de Jango a Bolsonaro, o Brasil segue capotando

Comício das Reformas de João Goulart, dia 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro - Arquivo Nacional
Comício das Reformas de João Goulart, dia 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro Imagem: Arquivo Nacional
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

06/09/2021 17h06

"Teca, vou cumprir o meu dever, mesmo que seja o último", disse o presidente João Goulart, o Jango, para sua mulher Maria Thereza, a Teca, antes de seguir para o comício na Central do Brasil (segundo relato do historiador Paulo de Mello Bastos, em "A caixa preta do Golpe de 64"). E foi mesmo o último: apenas 18 dias depois, Jango caiu.

***

Não sei quem foi que disse que a história no Brasil não dá voltas, capota. Nossa corrida pelo tempo, desde a quartelada que proclamou a República, tem sido assim, uma sucessão de capotagens, com a democracia permanentemente ameaçada pela tutela militar e pelos donos da terra.

A 24 horas do temido comício do "último recado" ao Supremo Tribunal Federal armado por Jair Bolsonaro na avenida Paulista, o Brasil volta a prender a respiração, com medo do que pode acontecer depois.

Assim como ocorreu no "Comício das Reformas" de João Goulart, em frente à estação da Central do Brasil, no Rio, na histórica noite de 13 de março de 1964, uma sexta-feira de 57 anos atrás.

Ontem, como hoje, estão no ar as ameaças de golpe militar, o perigo do comunismo, o apelo a Deus, família e liberdade.

Só que temos duas grandes diferenças a separar esses dois momentos decisivos na vida nacional que deixaram o país em suspense.

A velha elite latifundiária e o estamento militar estão hoje do lado do governo do capitão Bolsonaro; em 1964, foram decisivos para a derrubada de Jango, um fazendeiro rico, lhano no trato, amigo de sindicalistas, que queria promover as "reformas de base" para civilizar e modernizar o país, a começar pela reforma agrária, o estopim do golpe.

Os agrotrogloditas de hoje, Bolsonaro e seus generais são herdeiros do Golpe de 64, que inaugurou o longo ciclo da ditadura militar, sempre por eles negada, e são figuras centrais na grande mobilização armada para este 7 de Setembro de 2021, que promete levar 2 milhões de pessoas à avenida Paulista.

É um público 10 vezes maior do que os 200 mil que foram ouvir Jango anunciar o decreto da Supra (Superintendência da Reforma Agrária), declarando sujeitas à desapropriação propriedades subutilizadas às margens das estradas.

Verdade que, no ano do golpe militar, o Brasil tinha apenas 80 milhões de habitantes, quase três vezes menos do que a população atual, e ainda era um país essencialmente agrícola, que estava começando a se industrializar, depois dos dourados anos JK.

Pois hoje o Brasil está se desindustrializando a galope e voltou a ter a força da sua economia baseada na exportação de commodities agrícolas e minerais, com a ocupação da Amazônia por plantadores de soja e criadores de gado, que avançam sobre as áreas indígenas e reservas florestais, com o entusiasmado apoio do governo, que liberou o "estouro da boiada" de Ricardo Salles, o ex-sinistro do Meio Ambiente, também para desmatadores, madeireiros e garimpeiros.

Se Jango caiu por querer dividir a terra, Bolsonaro faz uma reforma agrária ao contrário: incentiva a concentração fundiária para se manter no poder com o apoio dessa gente atrasada (nada a ver com o agronegócio moderno) e acabar com a demarcação das terras indígenas e da floresta que ainda sobrevive à motosserra. Capotamos de novo, de volta ao início da tutela militar, sem ainda ter feito a reforma agrária.

Outra diferença fundamental é a mudança no apoio religioso. Em 1964, sem internet, era a igreja católica que organizava as "marchas da família, com Deus pela liberdade", contra Jango; agora, são as falanges evangélicas neopentecostais dos bispos da grana, muito mais organizadas, os Silas Malafaias da vida que controlam as redes sociais em apoio ao capitão insurreto.

Jango anunciou as suas "reformas de base", que ouriçaram o establishment e os quartéis. Fico curioso em saber o que Bolsonaro vai anunciar no dia 7 para melhorar a vida dos brasileiros.

A cassação dos ministros e o fechamento do Supremo Tribunal Federal?

O "voto impresso e auditável", na lei ou na marra?

A revogação da Lei Áurea para os trabalhadores escravizados?

O cancelamento das oposições?

A desapropriação da Rede Globo?

O encerramento imediato da CPI da Covid?

Novos aumentos e privilégios para os militares?

Decretar anistia geral para Roberto Jefferson, os filhos, as ex-mulheres e toda a corriola?

Declarar guerra à China, à Comunidade Europeia e à ONU? Liberar mais armas e munições para as suas milícias?

Convocar as Forças Armadas para restabelecer a ordem no furdunço institucional que ele mesmo criou?

Deve ser tudo isso que os devotos da sua seita fundamentalista estão esperando do "Mito" que o bolsonarismo desvairado cevou antes mesmo da posse.

Se ele vai atendê-los em seu discurso na avenida Paulista, é a grande dúvida sobre a "Nova Independência" anunciada para esse 7 de Setembro, que Bolsonaro sonha proclamar do alto de um carro de som como o novo imperador.

Só espero que, em lugar da espada, ele não empunhe um fuzil, como simulou nos comícios de campanha.

Sem chances de vencer nas urnas, Bolsonaro quer recuperar nas ruas e no grito o apoio político que perdeu.

Esse é o perigo.

Vida que segue.