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Balaio do Kotscho

Golpe que não houve acaba com Fux na guitarra cantando rock

O ministro do STF Luiz Fux - Marcelo Camargo/Agência Brasil
O ministro do STF Luiz Fux Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

10/09/2021 20h44

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Os donos do poder, como sabemos desde o Império, sempre acabam se entendendo.

Basta uma carta mal escrita por um advogado para deixar o dito pelo não dito, e tudo voltar a ser como era antes, e como sempre foi.

A semana começou com o país prendendo a respiração, à beira de um golpe, caminhoneiros ameaçando invadir o Supremo Tribunal Federal e paralisar as estradas, trocas de telefonemas nervosos entre as mais altas autoridades, no meio da madrugada de 7 de Setembro, multidões verde e amarelas nas ruas, prontas para a guerra, só esperando as ordens para atacar.

E tudo terminou nesta sexta-feira numa alegre confraternização do ministro Luiz Fux em almoço com empresários bolsonaristas, no bairro dos Jardins, em São Paulo.

O ambiente estava tão descontraído que, ao final, o presidente do STF, um grande fã de rock, empunhou uma guitarra e animou-se a cantar alguns números para a distinta plateia.

Só quem não conhece os usos e costumes da elite brasileira poderia estranhar a cena, inimaginável apenas 48 horas antes, quando Luiz Fux fez o seu mais duro discurso em resposta ao presidente Jair Bolsonaro, que na véspera dera um "ultimato" ao STF, ameaçando não respeitar mais decisões do tribunal e ainda chamou um de seus ministros de "canalha".

Afinal, os ilustres convidados da confraria de Washington Cinel, do grupo Gocil, um império da área de segurança privada, eram fervorosos apoiadores e bancadores do capitão presidente.

Qual foi o milagre?

Entre um discurso inflamado e outro, na peleja verbal entre os Poderes da República, apareceu em Brasília na quinta-feira um advogado bastante experiente, o ex-presidente Michel Temer, que entregou uma carta de armistício para Bolsonaro assinar e assim selou as pazes entre as partes, após um breve telefonema ao ministro Alexandre de Moraes, seu velho amigo.

Temer não estava no almoço, mas deveria ter ido, pois foi o personagem mais comentado no encontro, lembrado como o grande pacificador dos donos do poder.

Segundo a coluna Painel, da Folha, lá estavam, entre outros, José Roberto Auriemo (Plaza Iguatemi), Sebastião Bonfim (Centauro), Alberto Saraiva (Habib's), Edgard Corona (Smart Fit), Paulo Saad (Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão), Andre Kissajikian (AK Realty), Beto Sadalla (representante no Brasil de cassinos na América Latina e EUA) e Miled Khoury, conhecido como o "rei do jeans".

Apesar de reconhecer que críticas entre os Poderes "sempre provocam desgaste institucional", Fux justificou seu discurso em resposta aos ataques de Bolsonaro com poucas palavras: "Chega um momento em que ou você se cala, ou se posiciona".

O autogolpe bolsonariano flopou desta vez, mas nada garante que o capitão não prepare uma nova investida, quem sabe no próximo dia 7 de Setembro, se o quadro lhe for mais favorável.

Por enquanto, as instituições resistem, e a Bolsonaro só resta começar a governar, 32 meses após a posse.

Vida que segue.