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Balaio do Kotscho

Fracasso dos atos do MBL só serviu para enterrar a terceira via

12.set.2021 - Na avenida Paulista, manifestantes levam boneco inflável de Lula e Bolsonaro  - Juliana Arreguy/UOL
12.set.2021 - Na avenida Paulista, manifestantes levam boneco inflável de Lula e Bolsonaro Imagem: Juliana Arreguy/UOL
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

13/09/2021 14h45Atualizada em 13/09/2021 16h25

Esvaziados, divididos, sem rumo e sem sentido, os atos de protesto da direita mobilizados pelo MBL (Movimento Brasil Livre) pelo impeachment do presidente não fizeram nem cócegas em Bolsonaro e serviram de motivo de chacota para os áulicos do Palácio do Planalto, como era de se prever.

Foi um retumbante vexame que municiou as milícias bolsonaristas no fim de semana para atacar as oposições nas redes sociais.

Para entender esse fracasso, é preciso lembrar que o MBL, em parceria com o VPR (Vem Pra Rua), os dois movimentos que lideraram os protestos pelo impeachment de Dilma, inicialmente queriam promover atos sob a bandeira "Nem Lula nem Bolsonaro", como se os dois fossem farinhas do mesmo saco, para abrir espaço a alguém (quem?) da chamada terceira via.

Na antevéspera da data marcada, o MBL resolveu mudar o grito de guerra apenas para "Fora, Bolsonaro", na esperança de atrair a oposição de esquerda e unificar uma imaginária "frente democrática" para reeditar a campanha das Diretas, de 1984, vejam só!, quando seus líderes nem haviam nascido.

Era muita pretensão, e deu no que deu. Metade do país nem sabe ou não se lembra o que foi a memorável campanha das Diretas Já e a outra metade rejeitou a desrespeitosa comparação.

Basta dizer que o comandante da mobilização de 1984 foi um senhor chamado Ulysses Guimarães, que tinha a seu lado líderes do porte de Brizola, Lula, Montoro, Tancredo e FHC, nos estertores da ditadura militar, que já não tinha mais ninguém para sair às ruas em sua defesa. Hoje tem muita gente, como Bolsonaro demonstrou no 7 de Setembro.

Agora, o líder do movimento de "oposição" era esse tal de Kim Kataguiri, 25 anos, um estudante reacionário sempre em busca de um nicho de mercado, que se elegeu deputado federal pelo DEM, na onda conservadora da eleição de 2018.

Bolsonarista até 2019, o MBL rompeu com o capitão porque foi escanteado na divisão do butim do golpe da Lava Jato contra o PT, e perdeu protagonismo, sumiu de cena, não era mais nada na fila do pão. Domingo, tentou ressuscitar.

Vários pré-candidatos a ocupar a vaga da Terceira Via caíram no engodo e pegaram uma carona no palanque do conto do vigário armado por Kim Kataguiri (quem?), que sonhava arrastar multidões.

Entre eles, Ciro Gomes, que herdou a sigla de Brizola, e João Doria, o governador paulista, que fez dobradinha com Bolsonaro na eleição passada, e agora, na oposição, ainda vai disputar as prévias do PSDB com o gaúcho Eduardo Leite.

Todos somados, eles têm menos intenções de votos nas pesquisas do que Bolsonaro, que tem a metade de Lula, exatamente como em 2018, antes da facada e do tuíte do general Villas Bôas.

Na hora de encontrar responsáveis pela vergonha que passaram, claro que todos culparam o PT, que se recusou a participar dessa pantomima.

Queriam o quê? Que Lula fosse ao palanque de Kim & Cia. para ver na avenida Paulista o seu boneco de presidiário amarrado ao de Bolsonaro numa camisa de força, a foto que saiu em todos os jornais?

Alguns ainda tentaram justificar o punhadinho de gente de roupa branca que foi aos atos por terem sido os primeiros dessa geringonça nativa, sem se darem conta de que podem ter sido também os últimos. Quem sairá de casa para ir aos próximos?

Na confraria de arrependidos do bolsonarismo e de alguns esquerdistas ressentidos, não havia o que se costuma chamar de povo. Só se via gente branca bem alimentada que foi passear na Paulista e na orla de Copacabana, como em qualquer domingo.

A única mudança na paisagem foi a presença de farto policiamento nas ruas fechadas para o trânsito.

Pela amostra desse domingo de sol, por mais que as elites e setores da imprensa se debulhem para encontrar um candidato para chamar de seu, a disputa nas ruas vai ficar mesmo entre Lula e Bolsonaro, ou seja, entre o fascismo e a liberdade, a civilização e a barbárie, a extrema direita e a centro-esquerda democrática.

Não sobrou espaço para a turma do "nem-nem", que vai ter que voltar ao voto nulo ou em branco.

Se ainda havia alguma esperança de ser encontrado o candidato "nem-nem", que Ciro e Doria querem encarnar, o fracasso dos atos do MBL fantasiados de "frente democrática" ou Diretas Já (que heresia!) só serviu de réquiem para a terceira via.

Escolham seu lado, façam suas apostas, pois é isso que temos para o momento.

Os fatos são como os fatos são, não como a gente gostaria que fossem. Chega de fantasia e embromação.

É hora de dar nomes aos bois (epa!) e chamar as coisas pelas palavras certas.

Daqui a 13 meses, se não houver nenhuma intercorrência golpista, iremos todos às urnas para decidir que Brasil queremos.

Vida que segue.