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Balaio do Kotscho

Ciro Gomes puxa a faca e avisa: quer ser a nova versão de Bolsonaro em 2022

O ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato pelo PDT à presidência da República em 2022,  discursa durante protesto pedindo o impeachment do presidente Jair Bolsonaro  - Lucas Martins/Estadão Conteúdo
O ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato pelo PDT à presidência da República em 2022, discursa durante protesto pedindo o impeachment do presidente Jair Bolsonaro Imagem: Lucas Martins/Estadão Conteúdo
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

14/10/2021 15h27

Em vez de fazer arminha com dois dedos, como vimos o outro fazer em 2018, apontando para Lula e o PT, Ciro Gomes adentrou com tudo o saloon eleitoral e puxou logo a faca, decidido a abrir caminho entre Lula e Bolsonaro, para cavar uma vaga no segundo turno, coisa que nunca conseguiu em três tentativas anteriores.

Ciro pode até não perceber, mas em sua nova versão está cada vez mais parecido com o atual presidente, nos modos, no palavreado chulo e nas teorias conspiratórias, como ao lançar na quarta-feira a rocambolesca versão sobre Lula ter provocado a queda de Dilma no golpe jurídico-parlamentar de 2016. Dá para acreditar numa coisa dessas?

Só alguém fora de juízo pode dizer tamanha insanidade em entrevista ao Estadão, como se estivesse falando sério. Nem Bolsonaro chegou a tanto.

"Com o lulopetismo corrompido, minha relação está encerrada", proclamou ele, para cavar uma manchete no jornal, como costuma fazer.

Muita gente pode não entender a estratégia de atacar Lula, que cada vez mais consolida sua liderança nas pesquisas, em vez de brigar com Jair Bolsonaro, que derrete nos mesmos levantamentos.

Afinal, no cenário de agora, seria mais natural o pedetista disputar no primeiro turno a segunda vaga com o capitão enfraquecido, mas há uma certa lógica nessa loucura.

Assim como Bolsonaro, o que Ciro mais teme é Lula liquidar a fatura num turno só, como apontam as últimas pesquisas.

O alvo mais imediato dos dois, portanto, é enfraquecer o ex-presidente para que isso não aconteça e pelo menos haja haja um segundo turno em 2022.

Aconselhado por marqueteiros de antigamente, o ex-ministro de Lula resolveu radicalizar o seu antipetismo, a um ano das eleições, antes que seja tarde demais.

O que ele conseguiu até agora foi implodir, ao mesmo tempo, qualquer possibilidade de aparecer um candidato único da terceira via e a formação de uma frente ampla de esquerda.

Quem deve estar gostando disso é o atual presidente, ao ver seus adversários se digladiando no saloon, enquanto ele viaja pelo país no avião presidencial, fazendo comícios quase diários, em sua campanha pela reeleição, sozinho na estrada.

Sem definir se prefere se apresentar ao distinto eleitorado como candidato da direita limpinha ou da esquerda light, Ciro quer garimpar votos dois lados, o que não costuma dar muito certo em campanhas eleitorais. O brasileiro não costuma cravar a coluna do meio.

Na véspera das manifestações do último dia 2, Ciro tuitou uma fake news patética, tentando vincular Lula ao escândalo da Prevent Senior, que nem seus seguidores levaram a sério.

Depois, achou ruim por ter sido vaiado pela plateia majoritariamente lulista, e propôs uma "trégua de Natal" ao PT, que ele mesmo rompeu na entrevista ao Estadão, quando inventou do nada essa "conspiração suicida" de Lula com Renan Calheiros e Eunício Oliveira para derrubar Dilma.

Só falta agora Ciro dizer que Lula pediu a Sergio Moro para ser preso em Curitiba, após a queda de Dilma, para se fazer de mártir.

Assim como Bolsonaro costuma fazer com as mulheres, em seguida à entrevista, ele partiu com os dois pés para cima de Dilma, chamando-a de "incompetente e presunçosa".

"Só o @cirogomes é competente. Este é o pecado de sua enorme presunção. Esta é a sua visão quando se trata de avaliar o resto da humanidade. Mas quando se trata de mulher, sua visão é não só inadequada, é também profundamente misógina", tuitou Dilma em resposta.

O que ele ganhou com essa polêmica? Perdeu mais alguns eleitores na esquerda, sem ter garantido novos votos à direita.

Desde a sua primeira candidatura presidencial, Ciro sempre se apresentou como o "mais preparado", a bordo do seu projeto nacional desenvolvimentista.

Pode até ser, não sabemos, mas agora, em sua quarta tentativa, o principal inimigo dele continua sendo o mesmo que o derrotou nas anteriores: o seu temperamento de dono da verdade, eu mando, vocês obedecem. .

Ciro quer sempre se apresentar como o candidato da modernidade, que tem todas as soluções para o Brasil, mas na campanha afloram seus instintos coronelescos, que lembram muito os do ex-capitão que o vazio político partidário levou ao poder.

Como seu êmulo, o ex-governador do Ceará também já passou por um monte de partidos e está agora pousado no PDT de Leonel
Brizola, com quem ele tem tanta afinidade como eu com Olavo de Carvalho.

Também como Bolsonaro, Ciro se apresenta agora como o candidato anti-sistema "contra tudo e contra todos", que não faz alianças com ninguém, sem nenhuma base social definida.

Quanto mais raivoso fica, por não passar de um dígito nas pesquisas, mais se isola e vai acabar falando sozinho.

Como o Brasil é um país imprevisível _ vimos isso com Bolsonaro _ pode até ser que Ciro um dia chegue à Presidência da República, mas como seria seu governo? As pessoas ficam imaginando como seria Ciro com o poder nas mãos. É essa dúvida que afugenta os eleitores, com receio dos seus rompantes machistas e imperiais.

O Brasil pós-Bolsonaro quer um pouco de paz, não a guerra.

Vida que segue.