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Balaio do Kotscho

Chove, com o vento forte uma árvore cai sobre os fios, e fez-se o apagão

Chuvas inundaram ruas e derrubaram árvores na capital paulista - TV Band/reprodução
Chuvas inundaram ruas e derrubaram árvores na capital paulista Imagem: TV Band/reprodução
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

18/10/2021 17h56

Sei que hoje está todo mundo falando da guerra de egos dos senadores, que pode melar a CPI da Covid na reta final, e dos depoimentos comoventes de parentes das vítimas da pandemia, mas a vida continua e meu assunto é outro.

De ontem para hoje, tive uma pequena amostra do que pode acontecer com todo mundo, se não chover muito nas próximas semanas, para minorar a crise hídrica e nos livrar do perigo de um apagão energético.

O dilema que vivemos é esse: sem chuva para encher os reservatórios e mover as turbinas das hidroelétricas, corremos o risco de ficar sem luz; se vier um temporal, árvores são derrubadas pelos ventos sobre a fiação elétrica, e também ficamos sem energia.

Sem governo, sem nenhum planejamento para as emergências dessa época do ano, ficamos nas mãos de São Pedro, que já foi invocado outro dia pelo presidente, ao dizer, singelamente: "eu não posso fazer milagre".

Só quando a energia elétrica falta, nos damos conta de como hoje somos dependentes dela para tudo na nossa rotina diária, ainda mais agora, nestes tempos de home office.

Nem dormir eu consegui porque o primeiro a apagar foi o aparelho chamado Cepap, santo remédio para quem sofre de apneia.

Fui escovar os dentes e me lembrei que o aparelho é elétrico, assim como o filtro de água.

Tomar um café, nem pensar. A cafeteira também é elétrica.

O fogão é elétrico, o micro-ondas idem.

Sem computador para participar por vídeo da reunião de pauta das 9, descobri que o celular também estava fora de combate porque, sem energia, a bateria não carregou.

Tentei ligar para a portaria para saber se havia previsão para a falta da luz, mas o interfone, que é elétrico, também não estava funcionando.

Fui até o elevador, mas me lembrei que ele também não podia funcionar sem energia. A opção de ir pelas escadas para mim não serve porque, com minhas -comobordidades todas, essa é uma operação de alto risco.

Voltei para a mesa do café e me senti literalmente fora do mundo, sem sequer poder ligar para pedir ajuda a alguém.

Depois de ler e reler até os anúncios do jornal, apareceu o faxineiro com a boa notícia: "Eles já estão terminando o serviço, a luz vai voltar logo".

Passaram-se ainda algumas horas até que isso acontecesse, com a fome apertando, e eu sem poder fazer nem pedir comida.

Parecia um náufrago numa ilha deserta, sem nenhum barco à vista, em plena região central da maior cidade do país.

Ainda por cima, o dia estava escuro ao meio dia, começou a me dar um sono danado logo nas primeiras páginas de um livro que eu tentava ler.

Quinze horas depois de faltar, a luz finalmente voltou, e cá me encontro novamente diante do computador para escrever minha coluna, sem saber o que aconteceu durante o dia. Então resolvi contar o que aconteceu comigo.

Também, se eu soubesse, não mudaria nada, porque todos os dias são as mesmas notícias enguiçadas, os mesmos comentários repetitivos, os mesmos personagens do apocalipse, a mesma falta de novidades que possam inspirar um velho colunista do cotidiano neste outono de 2021.

Me lembrei dos tempos em que não havia luz elétrica nem água encanada no nosso sitio e as crianças se divertiam felizes, correndo atrás dos patos e das galinhas, e a gente não sentia falta de nada, tudo estava bom e bonito.

Ainda é assim nos lugares mais ermos do país e as pessoas sobrevivem sem grandes frustrações, comendo o que a terra dá, matando uma galinha nos dias de festa.

Nós é que estamos mal acostumados, já nascemos com água na torneira e luz para todos. Nem faz tanto tempo, não havia internet nem celular, o fogão do sítio era a lenha, lá não havia geladeira nem televisão, o rádio ainda reinava na sala, banheiro não havia, banho era só no rio.

Com o tempo, tudo isso foi chegando, agora tem até wi-fi no sítio, imagina! Mas, se faltar luz, a modernidade não serve para nada.

Viramos todos escravos dos fios aos quais estamos ligados o dia inteiro, até na hora de dormir.

Nós vimos outro dia o que aconteceu quando o zap-zap e todas as tranqueiras e conquistas tecnológicas saíram do ar por algumas horas. Entrou todo mundo em parafuso, achando que o mundo ia acabar...

E se vier um apagão geral, que dure dias e não apenas horas, um risco real neste trem desgovernado, a quem vamos recorrer?

Já pensou não poder nem carregar a bateria do celular como aconteceu comigo?

Vida que segue.

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