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Balaio do Kotscho

Acusado de crimes em série contra o próprio povo, a gargalhada de Bolsonaro

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

20/10/2021 15h56

20 de outubro de 2021: um dia de horror e vergonha que não iremos esquecer tão cedo.

De todas as barbaridades e atrocidades do presidente da República durante a pandemia, denunciadas no relatório final da CPI da Covid, a mais revoltante do dia aconteceu pouco antes de começar a leitura pelo relator Renan Calheiros, quando perguntaram ao senador Flávio Bolsonaro qual seria a reação do pai dele.

"Eu acho que ele recebeu da seguinte forma: você conhece aquela gargalhada dele? Hahahahaha! Que não tem o que fazer de diferente disso".

Essa seria a cena final de um filme sobre os seis meses da CPI que revelou ao Brasil e ao mundo o conjunto da obra sinistra de um governo, que praticou crimes em série contra o seu povo e a humanidade, como está no relatório, com mais de mil páginas de provas testemunhais e documentais.

Primeiro, negando a gravidade da pandemia; depois, gargalhando ao imitar pessoas que morriam asfixiadas com falta de ar em Manaus, por falta de oxigênio; debochando dos "maricas" que usavam máscaras e mantinham o isolamento social; espalhando fake news contra as vacinas, com a ajuda dos filhos; e desfilando em motociatas, palanques, churrascos e jet skis, enquanto o povo morria nos hospitais superlotados, deixando um rastro de mais de 600 mil vítimas pelo caminho. .

Ainda nesta quarta-feira, ao mesmo tempo em que era lido o relatório no Senado, como se não tivesse mais o que fazer, Bolsonaro prosseguiu em sua campanha reeleitoral para fazer um discurso em Russas, no interior do Ceará, onde teve a coragem de dizer o seguinte sobre a CPI:

"Nada produziram, a não ser o ódio e o rancor entre alguns de nós. Mas sabemos que não temos culpa de absolutamente nada, fizemos a coisa certa desde o primeiro momento".

Se e quando Bolsonaro for levado aos tribunais, para ser julgado pelos 10 crimes de que é acusado, entre os quais, infração de medida sanitária preventiva, charlatanismo, incitação ao crime, falsificação de documento particular e emprego irregular de verbas públicas, não sei se Bolsonaro dará a famosa gargalhada, imitada com orgulho pelo filho mais velho, Flávio, também indiciado, junto com os irmãos Carlos e Eduardo, como integrantes do "núcleo de comando" da produção e disseminação de fake news durante a pandemia.

Segundo levantamento feito pelo UOL, o presidente poderá pegar até 40 anos de cadeia se for condenado por todos esses crimes.

O relatório final não trouxe nenhuma novidade em relação a tudo que já sabemos desde a primeira sessão da CPI, em abril, com transmissão pela TV, mas ouvir durante mais de duas horas o relator encadeando os fatos que levaram a essa grande tragédia humanitária, foi devastador e me deu uma tristeza profunda.

Como foi possível tudo isso acontecer no nosso país, durante quase 20 meses, sem que as instituições e a sociedade civil fossem capazes de conter a tempo esse morticínio planejado no Palácio do Planalto pelos "jagunços da catedral da morte", nas palavras de Renan Calheiros.

Como é que temos ainda 2 em cada 10 brasileiros apoiando este governo demente e desumano, e indo às ruas para defendê-lo?

Bolsonaro conseguiu, ao mesmo tempo, multiplicar as mortes na pandemia, ao combater as medidas de isolamento social, as vacinas e o uso de máscaras, e arrebentar a economia, com a ajuda do aloprado Posto Ipiranga, que está mais preocupado com o mercado e as off shores do que com a fome que grassa no país.

Nunca tinha visto em minha já longeva vida pessoas correndo atrás dos caminhões de lixo para pegar restos de comida e fazer filas nos açougues em busca de ossos de boi e carcaças de frango.

Só se via isso em países que estão em guerra, como aconteceu com minha mãe, nos anos 30 e 40 do século passado, quando ela recolhia cascas de batata e outras iguarias nos lixões para fazer sopa nos bunkers da Alemanha nazista, em luta contra o resto do mundo.

Aqui, vivemos uma insólita guerra de um desgoverno contra o seu próprio país, como a CPI mostrou, com abundância de provas e fatos reais jogados na nossa cara.

A gargalhada de Flávio Bolsonaro, imitando o pai, foi um tapa na minha cara e, imagino, de todos nós. Não vai dar para esquecer.

Com a palavra, a Justiça!

Vida que segue.

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