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Balaio do Kotscho

Crônica da janela: devagar, a vida vai voltando ao velho normal sem máscara

Município do Rio é o primeiro a flexibilizar o uso de máscaras - Tânia Rego/Agência Brasil
Município do Rio é o primeiro a flexibilizar o uso de máscaras Imagem: Tânia Rego/Agência Brasil
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

27/10/2021 19h20

Os amigos voltaram a viajar para o estrangeiro, os netos estão indo outra vez ao colégio, São Paulo virou um canteiro de obras de novos prédios pipocando por todo lado, o trânsito já está de novo ficando infernal, funcionários de escritórios retornaram ao trabalho presencial, bares, restaurantes e shoppings, os que não fecharam, já comemoram um movimento quase normal, e até a chuva voltou.

Entre segunda e terça feira, ainda morreram 409 brasileiros de covid, a população inteira de um Boeing daqueles grandões, mas parece que a pandemia acabou e ninguém mais tem medo do vírus.

No Rio, agora é oficial: ninguém mais é obrigado a usar máscaras e, em poucos dias, a novidade chegará a São Paulo e às outras capitais.

Depois de um ano e meio daquela quarentena que deveria durar 14 dias, os velhos já voltaram a passear pelas ruas e crianças brincam nos parques, tudo como era no começo de 2020, o ano que não existiu, nem deixou saudades. É bom nem lembrar.

Para quem deixou de ver televisão e ler notícias, o que não é o meu caso, por dever de ofício, nem há muitas novidades. É a volta do velho normal, após a tragédia sanitária que deixou 606.293 mortos e 21.748.302 contaminados, até o momento, muitos deles com sequelas para o resto da vida.

Daqui a pouco, teremos mais uma Black Friday, depois o Natal e o verão nas praias, o Carnaval liberado sem restrições, logo chega a Semana Santa, daí vêm as férias de julho, em outubro teremos eleições e, quem sabe, esse nosso pesadelo terá um fim, na passagem do ano de 2022 para 2023.

E assim a vida voltará a seguir seu curso normal, como o rio que corre para o mar _ de preferência, sem tantos sobressaltos.

No futuro, que não verei, vão se lembrar destes tempos sombrios apenas como um acidente de percurso em que fomos todos atropelados por uma jamanta sem freios no nosso próprio quintal.

Aprendi desde cedo que fazer cara feia e reclamar da vida não bota comida na mesa e não resolve os problemas de ninguém.

O importante agora é chegar vivo ao final da travessia até 2023. É levantar a cabeça e fixar um ponto no horizonte, acompanhar o voo dos pássaros que também voltaram, sem máscaras. E depois? Depois, é fechar os olhos, tampar os ouvidos e sonhar com dias melhores.

A quem perguntar o que deu em mim, assim de repente, respondo que ninguém aguenta nem merece ouvir e comentar tanta notícia ruim, por tanto tempo, sem guardar alguma esperança no peito, seguir em frente, sem olhar para trás. Na falta de esperança, a gente inventa uma.

Verdade que, na terça-feira, criei coragem para sair de casa e fui ao dentista colocar dentes novos. Na volta, tomei a terceira dose da vacina, como se fosse a mais fina cachaça e, hoje, depois de muito tempo, fui almoçar com dois bons amigos num restaurante.

Sim, a gente vai aprendendo a ficar feliz com pouca coisa, fazendo planos só para daqui a pouco, um dia de cada vez.

Se outro motivo não houvesse, só o de continuar vivo e respirando, depois destes mais de mil dias de horror e fúria, já é um alívio.

Da minha janela, inseparável companheira, fico contente de ver o movimento voltando ao velho normal, os casais andando outra vez de mãos dadas, se despedindo novamente com um abraço, como antigamente.

Vida que segue.