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Balaio do Kotscho

Cristiana Lôbo respirava notícias 24 horas por dia, e era feliz com isso

Jornalista Cristiana Lôbo: repórter e comentarista da GloboNews que morreu hoje, aos 64 anos - TV Globo/Zé Paulo Cardeal
Jornalista Cristiana Lôbo: repórter e comentarista da GloboNews que morreu hoje, aos 64 anos Imagem: TV Globo/Zé Paulo Cardeal
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

11/11/2021 18h11

Poucos dias atrás, na reunião de pauta matinal do UOL, perguntei por onde andava minha amiga Cristiana Lôbo, da GloboNews, que tinha sumido da tela, sem aviso prévio. E sugeri fazer uma entrevista com ela.

Impossível, responderam-me os colegas, que já tinham pensado na mesma pauta, porque ela estava doente, tratando um câncer complicado, e se recusava a falar sobre isso.

Na manhã desta quinta-feira, eu estava no hospital em mais uma etapa do meu tratamento contra o câncer de bexiga, quando minha filha Mariana, também jornalista, me deu a notícia: "Pai, a Cristiana Lôbo morreu, você precisa escrever sobre ela". E cá estou.

Meus sentimentos se misturaram porque, logo depois, o mago Dr. Gustavo Ebaid me informava, após uma cirurgia de controle, que minha bexiga estava limpa, sem sinais de tumores. Não sabia se ria ou se chorava.

Cristiana era bem mais jovem, tinha 64 anos e um entusiasmo de principiante, sempre correndo atrás de um furo (matéria exclusiva).

Respirava notícias 24 horas por dia e era muito feliz no que fazia. Trabalhava se divertindo, brincando com todo mundo, fontes e colegas, como seu inseparável amigo Jorge Bastos Moreno, do Globo, também recentemente falecido. Um vivia sacaneando o outro, mas se davam muito bem.

Pareciam uma dupla sertaneja, um marcando o outro por pressão em busca da bola boa. E eram: Cristiana, de Goiânia, o ninho dos sertanejos, e Moreno, do Mato Grosso, dois forasteiros em Brasília.

Seríssima no trabalho, Cristiana não se levava tanto a sério, como muitos de seus colegas menos bem-sucedidos que se julgam mais importantes do que a notícia.

Com ela, não tinha nhenhenhen, a expressão criada por Fernando Henrique Cardoso e popularizada por Moreno, para falar de quem só ficava tergiversando, fugindo dos assuntos, tanto políticos como jornalistas.

Com ela, era papo reto: Cristiana não enrolava e não se deixava enrolar por ninguém. Tratava a todos do mesmo modo cortês, mas firme, do presidente da República ao amigo do cafezinho.

Já a conhecia da cobertura de campanhas e posses presidenciais, e das crises cíclicas em Brasília, mas, em 2003, passamos a conviver todos os dias, depois que fui trabalhar como secretário de Imprensa e Divulgação do primeiro governo Lula.

Como toda relação entre pessoas do governo e da grande imprensa, nossa convivência nem sempre foi tranquila, porque trabalhávamos de lados opostos do balcão, com horários e finalidades diferentes. Eu não fabricava notícias, apenas as divulgava, mas Cristiana custou a aceitar isso.

Certo dia, Lula me chamou ao gabinete dele logo cedo para preparar uma nota à imprensa sobre a troca do ministro da Defesa.

Para evitar uma crise militar, o presidente substituiu o embaixador José Viegas pelo vice-presidente, José Alencar, a pessoa em quem ele depositava maior confiança no governo, o velho empresário que parecia mais assustado com a novidade do que eu.

Quando voltei à minha sala para redigir a nota, Cristiana já estava lá na minha mesa querendo saber o que aconteceu. Pedi que esperasse um pouco porque logo ela saberia, oficialmente.

A amiga não quis saber, e logo colocou a notícia no ar, ao vivo, na GloboNews. Mas ela cometeu um erro, ao dizer que Alencar assumiria interinamente. Não sei de onde ela tirou isso, mas sei que o novo ministro da Defesa ficou irado comigo.

Logo a repórter corrigiu o mal-entendido, também ao vivo, e continuamos todos bons amigos. Não houve crise militar.

Perdi a conta de quantas vezes ela entrou no meu gabinete ofegante, quase chorando, implorando notícia, alguma novidade, qualquer que fosse, porque em poucos minutos entraria no ar para mais um boletim ao vivo. "Arruma um pouco de milho para essa pobre repórter", apelava, fazendo graça.

Eram os primeiros tempos da primeira emissora de notícias 24 horas ao vivo no ar e todos ainda estavam se adaptando a essa novidade que acirrou a competição entre os repórteres, às vezes até entre profissionais da mesma empresa.

Tempos depois, quando eu já não estava mais em Brasília, e nós perdemos o contato, Cristiana tornou-se uma das principais comentaristas e mais respeitadas da GloboNews, um trabalho que ela fazia com engenho e bom humor, porque já tinha sido repórter, ofício que nunca deixou de exercer, sempre farejando um furo.

Jornalismo, para ela, sempre foi contar uma novidade _ o resto é assessório e passageiro. A espevitada goiana, de cabelos sempre bem arrumados e roupas alinhadas, recusava-se a usar o piloto automático da burocracia das redações, e exigia sempre mais dela mesma.

Morreu fazendo o que gostava, até o último dia em que esteve no ar.

Apesar de altamente competitiva, não sacaneava os colegas, ficava sempre na dela. Ao contrário, sempre ajudava gente nova que chegava às redações.

Não tem mais milho para dar a Cristiana, que agora, finalmente, vai descansar.

Vai em paz, minha boa amiga.

Vida que segue.

Em tempo: você encontrará mais notícias sobre a carreira de Cristiana Lôbo aqui mesmo no UOL