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Balaio do Kotscho

Em 1993, Lula e Jereissati discutiram chapa PT-PSDB com apoio de Ciro Gomes

Lula volta a falar da possibilidade de uma aliança com Alckmin para 2022: ataques à esquerda e à direita - Montagem G1
Lula volta a falar da possibilidade de uma aliança com Alckmin para 2022: ataques à esquerda e à direita Imagem: Montagem G1
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

01/12/2021 16h54

"É difícil viver no meio de idiotas".

(desabafo de João Moreira Salles, no Globo, sobre a diáspora de cientistas deixando o país).

***

A discussão em torno de uma possível chapa Lula-Alckmin está agitando a arena política e a mídia nestes tempos nebulosos de formação de alianças para a campanha de 2022.

Poucos levam em consideração que esta não será mais uma eleição qualquer. Vivemos tempos de guerra, em que o povo está passando fome, com o desmonte das estruturas de governo e das políticas públicas em todas as áreas, que colocam em risco o futuro do país.

Desde que se começou a falar dessa possibilidade, revelada pela coluna da Mônica Bergamo, ataques vieram de todos os lados, à esquerda e à direita, como se isso fosse uma aliança inédita, um frankenstein político.

Não entendo a razão de tanta estranheza. Pois seria bom lembrar que, há quase três décadas, por pouco não foi lançada uma chapa PT-PSDB para disputar as eleições de 1994.

Eu estava no almoço, na Cantina do Mário, no bairro do Ipiranga, pouco antes do Natal de 1993, em que se reuniram Lula, Tasso Jereissati e Ciro Gomes para a formação de uma chapa com os dois partidos.

Lula era o favorito nas pesquisas para o ano seguinte. Tasso e Ciro eram políticos em ascensão no PSDB, com muito prestígio no Nordeste.

Ao ficar sabendo de uma possível chapa Lula-Tasso, Fernando Henrique Cardoso correu por fora, aliou-se ao PFL de ACM, com as bênçãos de Roberto Marinho, e começou a preparar sua candidatura, tendo Marco Maciel como vice.

Eleito e reeleito presidente no primeiro turno, surfando no Plano Real do governo Itamar Franco, FHC tornou-se o primeiro e último tucano a vencer uma eleição presidencial.

Hoje, Lula é novamente candidato, depois de conquistar dois mandatos e eleger a sucessora. FHC está fora de combate. Alckmin perdeu duas eleições presidenciais e está de saída do PSDB, ainda sem saber para onde vai. Tasso comandou a campanha derrotada de Eduardo Leite nas prévias do PSDB. E Ciro, depois de passar por vários partidos, é candidato pela quarta vez, agora pelo PDT.

Em tempos de guerra contra o bolsonarismo, com ou sem Bolsonaro, não basta vencer as eleições.

O vencedor terá de criar condições políticas para reconstruir o país devastado. É pensando nisso que Lula vê numa possível aliança com Alckmin o sinal que pretende dar à sociedade para montar um governo multipartidário capaz de fazer o Brasil se reconciliar consigo mesmo.

"Quero construir uma chapa para ganhar as eleições", disse Lula esta semana à rádio Gaúcha, frase que foi destacada no noticiário e nas análises do dia seguinte, mas que omitiram a segunda parte da resposta sobre a aliança, a mais importante:

"E quero construir uma chapa para mudar outra vez a história desse país".

Isso não é honesto porque deixaria a impressão de que se trata de uma aliança puramente eleitoral.

Besteira. Com ou sem Alckmin, que nunca foi um campeão de votos, Lula é o favorito hoje para ganhar as eleições no primeiro turno. Poderia até formar uma chapa puro-sangue de esquerda, como quer a ala mais radical do PT, mas como iria governar depois?

O objetivo principal dessa ideia é recuperar um mínimo de civilidade no debate político, discutir propostas e programas de governo com quem pensa diferente, trazer para o debate os setores organizados da sociedade, dos sindicatos aos empresários, baixar a bola da intolerância reinante.

Em 2022, como em 2018, a disputa se dará, mais uma vez, pelo que estão indicando todas as pesquisas, entre a civilização e a barbárie, entre quem defende a democracia e o Estado de Direito e os que querem implantar um regime autocrático, seja militaresco ou justiceiro.

Com a terceira via se afunilando para a candidatura de Moro, embalada pela Faria Lima e a mídia lavajatista, que ainda não fez a autocrítica que cobra do PT, a tendência de Lula é caminhar para o centro, o que seria facilitado por uma composição com Alckmin pelo simbolismo da chapa.

Isso me faz lembrar da escolha do vice, em 2002, quando Lula bancou o empresário mineiro José Alencar, contra a vontade dos petistas mais radicais, que chegaram a chorar na convenção do partido que formalizou a chapa, e depois saíram para criar o PSOL.

Ninguém foi mais fiel a Lula nos dois mandatos do que Alencar, e é um perfil moderado semelhante ao dele que o ex-presidente quer outra vez como seu companheiro de chapa. Alguém em quem possa confiar e que pode vir a ser seu sucessor, um projeto que pode estar nos planos de Alckmin, que é bem mais jovem.

Certa vez, num jantar com o patriarca do Itaú, Olavo Setubal, o empresário mineiro foi mais duro do que o metalúrgico do ABC, invertendo os papéis com Lula, que procurava apaziguar os ânimos. A política tem dessas coisas. O adversário de ontem pode ser o aliado de hoje e vice-versa, já ensinava Getúlio Vargas.

Mais importante do que o projeto político de cada um, está o Brasil dilacerado na era bolsonarista, que rompeu a hegemonia PT-PSDB no poder, um longo período que foi de paz, não de guerra, com o país crescendo e sendo respeitado no mundo todo.

Lula-Alckmin é uma continuação da aliança que se tentou com a chapa Lula-Tasso, no longínquo ano de 1993. Talvez o país não tivesse passado por tantas crises. Fora da política e dos partidos, não há salvação, como já provaram os salvadores da pátria Jânio, Collor e Bolsonaro, agora de volta ao Centrão, de onde só fingiu sair na campanha de 2018.

Vida que recomeça.