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Balaio do Kotscho

Quem vai fiscalizar a quarentena de Bolsonaro? Ele ri de quem?

Bolsonaro ri durante entrevista à Rádio Jovem Pan Maringá (PR) - Reprodução/Faceboo/Jair Messias Bolsonaro
Bolsonaro ri durante entrevista à Rádio Jovem Pan Maringá (PR) Imagem: Reprodução/Faceboo/Jair Messias Bolsonaro
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

08/12/2021 20h04Atualizada em 08/12/2021 20h04

Diante do absurdo de Jair Bolsonaro (PL) exigir, em lugar do passaporte de vacina, uma quarentena de cinco dias para quem chega ao Brasil sem estar imunizado, o governador paulista João Doria (PSDB) deu um ultimato ao presidente pelo Twitter:

"Caso não seja implantada pelo governo rfederal a obrigatoriedade do passaporte vacinal para entrada de viajantes no Brasil até 15 de dezembro, São Paulo a adotará para todo o estado".

Para começo de conversa, quem poderia fiscalizar milhares de passageiros estrangeiros que entram todos os dias no país para saber se estão ou não cumprindo a quarentena? Quantos agentes de saúde seriam necessários? Ou seriam convocados batalhões do Exército para cumprir a inglória missão?

Assim está instalado mais um confronto federativo no país, tão ao gosto do presidente, para fugir dos problemas reais, como acontece, desde o início da pandemia, que já deixou mais de 615 mil mortos.

Esse conflito entre presidente e governador não é novo. Quando Bolsonaro & Pazuello adiaram até onde puderam a compra de vacinas e o início da imunização, Doria o desafiou pela primeira vez ao marcar para o dia 25 de janeiro a vacinação em São Paulo, obrigando o governo federal a correr atrás do prejuízo.

"De novo, porra? De novo vai começar esse negócio?", reagiu um irado presidente diante das recomendações da Anvisa sobre a exigência do passaporte de vacina para evitar o avanço da variante ômicron.

Sim, diante da nova ameaça à saúde pública, o governo de São Paulo assumiu uma atitude correta, já que o capacho do Ministério da Saúde só faz o que o seu chefe manda.

Sem nada de positivo para oferecer ao país, mais uma vez o capitão joga na confusão e na desinformação para ganhar as manchetes e agradar aos seus devotos.

Na contramão do mundo, Bolsonaro sempre acha que só ele está certo, como os napoleões de hospício, colocando em risco a saúde dos brasileiros, por mera picuinha, para mostrar que quem manda é ele.

Não se dá conta de que ele mesmo terá que cumprir quarentena, quando voltar de uma viagem ao exterior, porque se recusa a tomar vacina para provar que é macho.

Ainda cai um Boeing por dia de vítimas de covid no Brasil, mas o presidente só está preocupado com as negociações dos palanques para a sua reeleição.

"O Brasil não pode ser o paraíso do negacionismo. Aqui, turismo de negacionismo só na mente desse ministro da Saúde e do presidente", disse Doria, ao anunciar nesta quarta-feira que, em São Paulo, será exigido o passaporte de vacina a partir do dia 15, no que ele está certíssimo.

Se o atual ministro da Saúde, o doutor Marcelo Queiroga, uma contrafação civil do general Pazzuello, prefere "morrer do que perder a minha liberdade", o que o Conselho Federal de Medicina está esperando para cassar o diploma dele? A principal missão do médico não é salvar vidas? De que vale a liberdade para quem já morreu?

Queiroga, como Bolsonaro, só está interessado nas próximas eleições, para se candidatar a qualquer coisa na sua Paraíba natal, de onde nunca deveria ter saído, com todo respeito à Paraíba, terra que eu adoro e onde gostaria de viver.

No momento em que o país se preparava para sair do sufoco de quase dois anos de restrições impostas pela pandemia, mais uma vez o governo federal mostra a sua total insensibilidade, sem se dar conta de que com isso só aumenta a sua rejeição.

Por vezes, penso que Bolsonaro só pode ser masoquista para fazer tudo ao contrário do que recomenda o bom senso. Em seu mundinho particular, onde só vê conspirações por toda parte, procurando "comunistas", como seu ex-ministro Sergio Moro, escondidos debaixo da cama, vai tornando cada vez mais difícil para milhões de brasileiros o desafio de colocarem um prato de comida sobre a mesa.

Só um grande mentecapto insiste no erro, desafia a ciência, as pesquisas e a razão, debocha do sofrimento alheio, tripudia sobre as nossas esperanças de voltar a ter uma vida normal e acha engraçadas todas as besteiras que diz para os áulicos que o aplaudem.

Quando a gente acha que já chegou no fundo do poço, Bolsonaro dá mais um empurrãozinho para ninguém poder respirar.

Que mal fez o Brasil para merecer tanta desgraça? São quase três anos de destruição, sofrimento e dor, de vidas, empresas e empregos destroçados, sonhos e projetos cancelados.

E ele ri... Ri de quê? Só pode ser de nós.