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Balaio do Kotscho

Basta! Dois militares colocam limites nos delírios e agressões de Bolsonaro

Diretor-Presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, pede retratação de Bolsonaro - Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados
Diretor-Presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, pede retratação de Bolsonaro Imagem: Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

09/01/2022 13h42

De volta ao serviço esta semana, sem ter muito o que fazer, o capitão-presidente Jair Bolsonaro conseguiu arrumar uma encrenca de bom tamanho com dois oficiais- generais, que não cederam às suas ofensivas autoritárias e irresponsáveis, e o enquadraram como nenhuma autoridade civil já havia feito.

O motivo é o mesmo de sempre: a campanha alucinada do governo contra a vacinação dos brasileiros, civis e militares, e agora também das nossas crianças.

Bolsonaro queria humilhar o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, e o contra-almirante Antônio Barra Torres, presidente da Anvisa. E tomou um contravapor pela proa que o fez recuar e silenciar.

Primeiro, negou que tivesse exigido uma "nota de esclarecimento" sobre as diretrizes estabelecidas pelo Exército para orientar o retorno dos militares ao trabalho presencial, o que tinha levado o ministro da Defesa, general Braga Netto, a convocar uma reunião de emergência com os comandantes das três Forças para evitar uma nova crise militar.

"Não tem exigência nenhuma. Não tem mudança. Pode esclarecer. Hoje tomei café com o comandante do Exército. Se ele quiser esclarecer, tudo bem, se ele não quiser, tá resolvido, não tenho que dar satisfação para ninguém de um ato como isso daí. É uma questão de interpretação", desconversou o presidente no sábado.

Na diretriz de número 23 das 52 estabelecidas por Oliveira, o texto do comandante do Exército orientou o retorno às atividades presenciais dos militares e dos servidores, "desde que respeitado o período de 15 dias após imunização contra Covid-19".

Como é contra a vacinação em geral, Bolsonaro mandou Braga Netto reclamar com o comandante do Exército e se criou um mal-estar entre os militares. Mas, desta vez, Oliveira não recuou, como tinha acontecido com a grave infração disciplinar do general da ativa Eduardo Pazuello, naquele episódio em que subiu no palanque do presidente após uma motociata no Rio de Janeiro

No caso da Anvisa, o embate foi bem mais grave: na noite de sábado, o contra-almirante Barra Torres exigiu uma retratação do presidente da República sobre as declarações que fez na sua live semanal e em entrevistas à imprensa, colocando sob suspeita a decisão dos técnicos da instituição de autorizar o início da imunização infantil com a vacina da Pfizer.

"Se o senhor dispõe de informações que levantem oi menor indício de corrupção sobre esse brasileiro, não perca tempo nem prevarique, senhor presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa (...) Agora, se o senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate".

Num duro texto de 300 palavras, o presidente da Anvisa reagiu aos ataques que o presidente tinha feito contra os técnicos da instituição ao perguntar: "Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse daquelas pessoas taradas por vacina?". Em entrevista à rádio Nordeste, de Pernambuco, Bolsonaro duvidou que alguma criança tenha morrido de Covid, mas dados do próprio Ministério da Saúde mostram que foram registradas 301 mortes de crianças entre 5 e 11 anos, desde o início da pandemia.

"Vou morrer sem conhecer riqueza, senhor presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso à frente da Anvisa", escreveu Barra Torres na carta.

Até o meio-dia deste domingo, o presidente Bolsonaro não havia respondido à carta, muito menos feito qualquer retratação.

Quem se manifestou em defesa da nota de Barra Torres foi o governador do Maranhão, Flávio Dino (PSB), que publicou no Twitter: " Esse documento integra a história do Brasil por dois motivos: trata-se de um oficial general reagindo às múltiplas agressões daquele que deveria honrar as Forças Armadas, e não o faz. E é o registro de um tempo em que a coação e a mentira são métodos de governo".

Em tempo: o mandato de Barra Torres na Anvisa vai até 2024, e ele é indemissível.

Vida que recomeça.