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Balaio do Kotscho

Elis e Pelé, Robinho e Endrick: as muitas faces da terra em transe de 2022

Elis Regina e Pelé gravaram duas músicas para o compacto "Tabelinha", em 1970 - reprodução/Tabelinha
Elis Regina e Pelé gravaram duas músicas para o compacto "Tabelinha", em 1970 Imagem: reprodução/Tabelinha
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

19/01/2022 15h18

"Fico pensando como ela seria agora. Gostaria de saber como ela estaria"

(Marisa Ramos, 69 anos, que foi criada junto com Elis Regina num conjunto habitacional de Porto Alegre, entrevistada por Fernanda Canofre, em reportagem publicada na Folha sobre os 40 anos da morte da cantora).

***

Acordei hoje com vontade de escrever sobre a maior cantora da minha época _ e, eu acrescentaria, de todos os tempos na nossa música popular.

Como repórter, acompanhei a breve carreira de Elis Regina, que morreu tão jovem, aos 36 anos, desde que ela surgiu feito um furacão no palco da antiga TV Record, na rua da Consolação, em São Paulo.

Ao lado de Nara Leão e Leila Diniz, mais que uma artista, ela foi o grande símbolo de rebeldia e emancipação da mulher brasileira numa época em que era feio mulher fumar e falar palavrão, e os militares mandavam em nós.

Baixinha e atrevida, ficava gigante, movendo os braços como hélices, quando começava a cantar nos grandes festivais da música popular brasileira organizados pela Record, hoje um dos braços do império de Edir Macedo.

"Pai, a Elis morreu!", veio correndo me contar a filha Mariana, quando eu voltava da feira na manhã daquele dia 19 de janeiro de 1982.

Foi como se alguém da família tivesse morrido. E foi mesmo. Antes que eu perguntasse o que tinha acontecido, a Folha me mandou fazer a matéria do velório, que saiu no dia seguinte com o título "Para não acabar nunca mais".

Segue um trecho:

"Como é que eu faço para isso não acabar nunca mais?", perguntou ela há alguns dias a Roberto Oliveira, que produziu alguns dos seus melhores espetáculos para a televisão. Elis referia-se àquele momento que parecia o mais feliz de sua vida _ de amor novo e tranquilo, gravadora nova, casa nova, mil planos de viajar o mundo, cantando as músicas do novo disco que estava terminando de gravar.

Os seus muitos amigos, que iam chegando no final da tarde ao velório do velho Teatro Paramount (rebatizado de Bandeirantes, a emissora de TV) repetiam sempre a mesma frase: "Nunca vi a Elis tão contente com a vida como agora..." Enquanto as lembranças invadiam o velório, o ex-marido Cesar Camargo Mariano chamava Samuel MacDowell (o novo e último namorado) para uma conversa a sós, longe dos curiosos, dos que querem encontrar razões para tudo, mesmo que isso já não importasse mais".

No velório, ainda não se sabia a causa da morte precoce da cantora. Ao ser revelada, dias depois, chocou a todos: overdose de cocaína.

Nem Glauber Rocha, em seu premiado filme "Terra em Transe" (sobre Eldorado, um país fictício da América Latina, palco de uma convulsão interna na luta em busca do poder), um clássico do cinema brasileiro, de 1967, poderia imaginar o que seria o Brasil real de 2022, no mesmo dia da morte de Elis, há 40 anos.

No Brasil, até o passado é imprevisível, dizia o ex-ministro Pedro Malan, como confirmei hoje ao ler a bela reportagem de Daniel Servidio, aqui no UOL, sobre o disco que Elis e Pelé gravaram em 1970, logo após o jogo em que o Brasil derrotou o Paraguai por 1 a 0, e se classificou para a Copa do tricampeonato no México.

Ninguém entendeu a razão de Pelé sair tão apressado do gramado do Maracanã, ao lado do compositor e produtor musical Roberto Menescal, parceiro de Ronaldo Boscoli, o primeiro marido de Elis, pai de João Marcello, que lembrou na reportagem de Fernanda Canofre:

"Num país onde as pessoas são esquecidas, fico contente de não ter acontecido com ela. Ela tem uma obra e um carisma que a gente não consegue explicar".

É verdade, nem a dela nem a de Pelé, dois personagens da nossa história que ninguém nunca vai esquecer.

Mas neste mesmo dia 19 de janeiro, no nosso país em transe permanente, ficamos sabendo que o jogador Robinho, um dos muitos sucessores de Pelé no Santos, foi condenado pela Corte de Cassação de Roma a nove anos de prisão por estuprar uma jovem albanesa numa boate quando jogava no Milan.

Pela nossa Constituição, Robinho não pode ser extraditado, mas a justiça italiana certamente irá pedir que ele cumpra a pena numa penitenciária brasileira.

Alguém acredita que isso possa acontecer, com os mil recursos que o jogador apresentará à justiça brasileira?

Robinho ainda tinha contrato com o Santos, o mesmo time que revelou Pelé para o mundo, mas o Brasil tem dessas coisas difíceis de explicar.

Ao mesmo tempo, surge no país um novo craque, chamado Endrick, de apenas 15 anos, que já marcou 165 gols em 169 partidas pelas equipes de base do Palmeiras e é a grande sensação da Copa São Paulo de 2022, que me faz lembrar Pelé no início da carreira, um moleque ousado e sem medo de encarar os zagueiros maiores do que ele.

Para o bem ou para o mal, o Brasil sempre nos surpreende, e por isso não podemos perder as esperanças.

Quem sabe Endrick já vista a camisa 10 que foi de Pelé na próxima Copa do Mundo? Por que não? Melhor do que Philippe Coutinho e Gabriel Jesus, certamente ele já é. Olho nele, Tite.

No Brasil em transe, tudo é possível. Vale lembrar que Pelé tinha apenas 17 anos quando o Brasil foi campeão mundial com ele pela primeira vez, em 1958, na Copa da Suécia.

O problema de ficar velho, já dizia o velho seu Frias, nas reuniões da Folha, é que a gente já viu tudo acontecer, e também o contrário.

Mas o que eu queria dizer mesmo é que sinto uma saudade danada da alegria da Elis cantando com a alma e o coração, animando a gente.

No final de 1981, quando o publicitário Carlito Maia criou o Troféu Pirandello para escolher os melhores do ano, um dos primeiros votos que ele recebeu, ninguém sabe por qual razão, escrito em castelhano, foi o de Elis Regina, que escolheu suas próprias categorias:

"Carlito amorzito, Mis votos, com todo respecto: Por la Justicia: d. Helder Câmara; Por la Paz, d. Pablo Evaristo; Por la Liberrtad: d. Ricardo Kotscho. Carlito Queiridito: Mi cariño, mi admiración. Que mis candidatos sean bien-venidos. Bellos dias em 1982. Si, por acaso, no sean nuevos, los dias, por lo menos que lo sean agradables, Carlitito. Um beso! Cariño imenso. Elis".

Como vou poder esquecer de Elis Regina? Para responder à sua amiga Marisa Ramos, me arrisco a dizer que Elis seria exatamente igual, a mesma que sempre foi: uma mulher batalhadora, de um talento inigualável.

Vida que segue.

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