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Balaio do Kotscho

Agora, todos querem dar palpite na campanha de Lula, que se finge de morto

Se Alckmin será ou não o vice, essa é uma decisão que dependerá somente de Lula - Foto: Ricardo Stuckert
Se Alckmin será ou não o vice, essa é uma decisão que dependerá somente de Lula Imagem: Foto: Ricardo Stuckert
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

20/01/2022 16h05

À medida em que se amplia a vantagem de Lula sobre os demais candidatos em todas as pesquisas, sinalizando para uma vitória já no primeiro turno, aumenta o número de assessores voluntários que querem dar palpites no rumo da sua campanha, apontando o que ele deve ou não fazer.

Cientistas políticos tucanos, colunistas lavajatistas, economistas da Faria Lima, da Bolsa de Valores, da PUC, da USP e da Unicamp, dirigentes sem expressão e sem votos do PT, pregadores da praça da Sé, motoristas de táxi, ex-BBB, comentaristas da GloboNews e até ilustres membros do Centrão e da Academia Brasileira de Letras, parece que todos, aliados e adversários, querem contribuir de alguma forma, sem pedir nada em troca, é claro, para eleger o ex-presidente.

Até um ano atrás, muitos desses mesmos personagens davam Lula como carta fora do baralho, página virada, fósforo queimado, sem chances de disputar e ganhar a Presidência pela terceira vez. Agora fazem uma ginástica danada para explicar o "fenômeno" da ressurreição do maior líder político da América Latina

Bastou a Mônica Bergamo revelar em sua coluna as conversas em torno de uma possível chapa Lula-Alckmin, para detonar um verdadeiro Fla-Flu de torcidas contra e a favor da ideia, dando aulas de política, tática e estratégia a Lula, como se ele fosse um noviço, um deputado qualquer do baixo clero que disputava pela primeira vez uma eleição presidencial.

Este foi até agora o mais inesperado e debatido fato político novo desta campanha eleitoral, capaz de mobilizar adormecidos ódios e paixões reprimidas para ensinar ao candidato o que é melhor para ele, sem pedir a sua opinião. São todos uns pândegos em busca de uma boa onda para surfar na expectativa de poder.

Fico impressionado como tem gente querendo indicar não só o vice de Lula, mas também nomes de possíveis ministros da Economia, sob o pretexto de que o país precisa saber em quem está votando para não repetir o voto no escuro de 2018, que deu no que deu.

Todo dia aparece mais um cobrando de Lula detalhado programa econômico para "acalmar o mercado", coisa que o atual presidente não fez até hoje. Macaco velho, Lula a tudo assiste de longe, sem sair do lugar, fingindo-se de morto, com mil "interlocutores do PT" falando em nome dele coisas absolutamente diferentes para cavar um espaço na mídia.

Lembro-me como ele reagia, quando algum assessor mais prestativo vinha-lhe falar, empolgado: "Chefe, tive uma boa ideia". E ele desconversava: "Se a ideia é muito boa, guarda para você. Eu não preciso de ideias. Eu preciso de votos".

Nas campanhas, assim como nos seus dois governos, Lula brincava que o pior conselheiro é o burro com iniciativa, que tem solução para tudo. Nessas horas, ele tinha vontade de perguntar: "Você, que sabe tudo sobre política, quantos votos teve na última eleição?".

No fundo, ele se diverte com todo esse movimento em torno dele, desde que surgiu como uma nova liderança nacional no movimento sindical do ABC, lá já se vão quase 50 anos. .

Espantoso é que depois de todo esse tempo, alguém ainda acredite que Lula vá mudar de ideia por conta de um abaixo-assinado ou de notinhas plantadas na imprensa para inviabilizar a indicação de Geraldo Alckmin como vice na chapa do PT.

São os mesmos que faziam campanha contra o empresário José Alencar na campanha de 2002, que se tornaria o mais fiel e leal parceiro de Lula no governo, sem abrir mão das suas convicções, batendo de frente com a equipe econômica na questão dos juros, por exemplo.

Essa questão do vice para ele já está resolvida, como deixou claro na entrevista coletiva que concedeu ontem a sites e portais da imprensa alternativa. Lula está mais preocupado neste momento em coordenar as equipes que formulam seu programa de governo, definindo as prioridades, como o combate à fome e ao desemprego, e em suas próximas viagens internacionais para restabelecer as relações do país com o mundo civilizado.

Melhor do que ninguém, Lula sabe o tamanho da expectativa que se está criando em torno de um possível novo governo dele, para reconstruir o país a partir dos escombros deixados pelo bolsonarismo em marcha, que insiste em destruir o país em todas as latitudes da vida nacional.

Por isso, desde já, ele está construindo uma aliança, a mais ampla possível, com todos os setores democráticos da sociedade, não só para vencer as eleições, mas para poder governar e recolocar o Brasil no lugar que já ocupou nos grandes fóruns mundiais.

Ao contrário do que parece, Lula está mais vivo e disposto do que nunca, no início de mais uma disputa eleitoral, mas ele não tem pressa para botar a campanha na rua. Precisa primeiro cuidar da retaguarda. Sabe que o jogo será pesado, não pela força dos adversários, mas pelas armas que eles poderão usar para não largar o osso.

Com tanta gente dando palpite, não será fácil.

Vida que recomeça.