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Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O canto do galo ao meio dia no país de Bolsonaro virado de pernas para o ar

Ciro Gomes bate boca com bolsonaristas em Ribeirão Preto (SP): com as campanhas saindo às ruas, o que podemos esperar? - Reprodução
Ciro Gomes bate boca com bolsonaristas em Ribeirão Preto (SP): com as campanhas saindo às ruas, o que podemos esperar? Imagem: Reprodução
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

29/04/2022 16h24

Aqui onde moro, na Vila Madalena, em São Paulo, tem galo cantando ao meio dia e cachorros uivando a noite inteira, antes da chegada do caminhão do gás, que agora passa a toda hora em busca de clientes.

A feira livre das quartas virou um muro de lamentações, tanto de vendedores como de clientes, que compram cada vez menos, com a inflação fora de controle, subindo toda semana. Compra-se os produtos mais baratos e disputa-se ferozmente a xepa. A freguesia anda de um lado para outro, desconsolada, balançando a cabeça, e se perguntando: onde vamos parar?

Ainda não vi poste mijando em cachorro, nem vaca estranhando bezerro, mas nessa toada logo chegaremos lá. O absurdo não tem mais limites. Nada será como entes.

Isso me fez reparar que está tudo ficando fora de hora e de lugar no Brasil de Bolsonaro, virado de pernas para o ar em três anos e quatro meses desse desgoverno cruel, sádico, desumano, cada dia pior do que o outro.

O simples ato de comprar comida e um botijão de gás virou desafio permanente para as famílias brasileiras neste país que continua com 11,9 milhões de desempregados, a renda dos trabalhadores ocupados caindo mês a mês, praças e calçadas tomadas pelo povo sem teto, fábricas e comércios fechados para sempre, sem sinais de melhora à vista.

Diante desse cenário desolador, quem está interessado em saber o que discutem os pais da pátria nos gabinetes e palácios de Brasília, um território cada vez mais apartado do Brasil real?

Mas o presidente está feliz como pinto no lixo, sem se preocupar com nada disso, diante da tremenda repercussão nas suas redes antissociais comemorando o indulto dado ao cúmplice condenado pelo STF - tão entusiasmado estava com ele mesmo, que tropeçou nas próprias pernas ao sair de um evento em Brasília, na quinta-feira.

"Sinto-me orgulhoso e feliz", disse pouco antes, em Paragominas, no Pará, após a entrega de títulos de propriedade a pequenos produtores rurais. "Isso que eu fiz não é apenas para aquele deputado. É para todos vocês. A nossa liberdade não pode continuar sendo ameaçada".

"Ora, nós não estamos em uma selva. Liberdade de expressão não é liberdade de agressão", respondeu-lhe hoje o ministro Alexandre de Moraes, durante palestra em São Paulo, sem citar seu nome.

No momento em que o presidente da República se sente no direito de julgar o Judiciário, "para corrigir uma injustiça", e convoca as Forças Armadas para dar a última palavra no processo eleitoral, o que impera, mesmo que Moraes não queira, é a lei da selva, a lei do mais forte.

Ao arrostar a Justiça Eleitoral e o STF e colocar em dúvida todos os dias a segurança do processo eleitoral, ou Bolsonaro está mais uma vez blefando com um golpe, ou estamos diante de uma crise institucional insolúvel que se arrastará até as eleições.

Até os coniventes presidentes do Senado e da Câmara se viram esta semana na obrigação de sair em defesa do TSE e das urnas eletrônicas, porque eles sabem que podem ser as próximas vítimas da escalada autoritária do presidente para controlar os Três Poderes, e só aceitar o resultado das urnas se ele for o vencedor.

"Não é possível defender a volta de um ato institucional número cinco, o AI-5, que garantia tortura de pessoas, morte de pessoas. O fechamento do Congresso, do Poder Judiciário...", advertiu Alexandre de Moraes ao final da sua palestra, para justificar a condenação do deputado Daniel Silveira a 8 anos e 9 meses de prisão.

Pois é exatamente isso que o bolsonarismo mais radical procura, ao convocar uma manifestação, com a presença de Daniel Silveira, para o próximo domingo, dia 1º de Maio, na avenida Paulista, a menos de 3 km de onde as centrais sindicais, com a presença do ex-presidente Lula, irão comemorar o Dia do Trabalho, na praça em frente ao estádio do Pacaembu.

À medida em que as campanhas começam a ganhar as ruas, o que se procura é o confronto aberto entre esquerda e direita, para justificar a intervenção dos militares, como aconteceu nos dias agitados que antecederam o Golpe de 1964. Na quinta-feira, em Ribeirão Preto, já tivemos uma pequena amostra disso, quando militantes bolsonaristas tentaram impedir a passagem do pré-candidato Ciro Gomes, do PDT, numa feira agrícola.

E isso já é tratado com a maior naturalidade nas análises políticas do momento, como se fosse algo inevitável, diante da "polarização" da campanha, um embate que ainda não despertou o interesse da maioria do eleitorado, mais preocupado em apenas sobreviver na grande tragédia brasileira.

O canto do galo ao meio dia é somente um detalhe do estranhamento em que vivemos, mas não deixa de ser intrigante. Pode ser um aviso para o país acordar do seu imenso estupor diante dos últimos acontecimentos, com medo dos próximos.

Vida que segue.

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