PUBLICIDADE
Topo

Balaio do Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Triste fim do PSDB: tucano-lavajatismo só sobrevive em setores da imprensa

João Doria tira selfie com Sergio Moro durante encontro em Brasília: tucano-lavatismo fora de combate em 2022 - Renato Costa/Framephoto/Estadão Conteúdo
João Doria tira selfie com Sergio Moro durante encontro em Brasília: tucano-lavatismo fora de combate em 2022 Imagem: Renato Costa/Framephoto/Estadão Conteúdo
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

10/05/2022 13h07

Só o fato do nome do tucano João Doria ser cogitado hoje na imprensa para ser vice de Simone Tebet, do MDB, dá uma ideia da decadência daquele que já foi o grande partido da social-democracia brasileira, disputando a hegemonia nacional com o PT, nos tempos de Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso.

Esse processo começou em 2014, quando, no embalo da Lava Jato, após perder as eleições para Dilma Rousseff, Aécio Neves pediu recontagem de votos e depois se aliou a Eduardo Cunha para derrubar o governo do PT no golpe de 2016, que abriu caminho para a chegada de Jair Bolsonaro ao poder.

Na eleição seguinte, em 2018, o PSDB nem chegou ao segundo turno e foi perdendo a sua cara, a sua história e sua identidade, com votações cadentes, até chegar à condição de nanico na atual disputa presidencial, disputando a rabeira nas pesquisas com André Janones.

Estranho no ninho do alto tucanato de antigamente, João Doria venceu as prévias no final do ano passado, derrotando Eduardo Leite por estreita margem, mas jamais conseguiu unir o partido em torno da sua candidatura.

Isolado e contestado, ameaçou até deixar a campanha a presidente e ficar no Palácio dos Bandeirantes até o final do mandato, o que inviabilizaria a candidatura de Rodrigo Garcia ao governo do estado controlado pelos tucanos há mais de três décadas.

Voltou atrás, mas continua perambulando pelo país sem eira nem beira, sem discurso e sem apoiadores de peso em nenhum estado, como um fantasma do que um dia foi o PSDB, que elegeu FHC presidente duas vezes no primeiro turno, mas isso já faz muito tempo. Depois disso, só amargou quatro derrotas para o PT.

Este ano, só continuou no noticiário ao se aliar à falecida terceira via, que foi sem nunca ter sido, como uma Viúva Porcina da política, hoje reduzida a alguns colunistas na imprensa, que no desespero já estão até lançando a ideia de classificar três candidatos para o segundo turno, como fez Merval Pereira, do Globo, neste final de semana. Hoje, ele insistiu de novo na extravagante ideia.

Sem ter um candidato tucano competitivo, estes confrades lavajatistas jogaram todas suas fichas no ex-juiz Sergio Moro, hoje fora de combate, depois de patrocinar vexames em série na sua moribunda campanha eleitoral. Como diria o velho Adhemar de Barros, mostrou que "não é do ramo".

O golpe definitivo nas ilusões perdidas dos "formadores de opinião" foi a entrada do ex-tucano Geraldo Alckmin na chapa de Lula, uma desfeita que os deixou inconformados e sem rumo, sentindo-se traídos, escrevendo bobagens.

Assim como o ocaso do PSDB, esta campanha eleitoral também pode significar o fim de linha para um tipo de jornalismo disfarçado de isento e apartidário, que não consegue ver a diferença entre Bolsonaro e Lula, o eterno inimigo a ser abatido a qualquer preço, ainda que isso coloque em risco a própria democracia.

Com as redes sociais, temos agora milhões de emissores de opinião, o que não deixaria de ser democrático, não fosse a indústria de fake news e o exército de robôs que assolam a internet e já foram decisivos na última eleição presidencial.

Na coluna anterior, perguntei o que se pode esperar de um terceiro governo Lula, cuja pré-candidatura foi lançada neste fim de semana, ao lado de Alckmin.

Refaço a pergunta aos meus colegas inconformados com o cenário das pesquisas: o que se pode esperar de mais quatro anos de governo Bolsonaro?, o candidato que se tornou a única opção para impedir que Lula volte.

Fora isso, só restaram os votos nulos ou em branco, já que o tucano-lavajatismo só sobrevive ainda em setores da imprensa. Esqueçam a terceira via.

Ou alguém pode imaginar que o garboso João Doria aceitaria ser vice de Simone Tebet? Pelo que conheço dele, acho impossível. E quais seriam as chances dessa hipotética chapa?

Como diriam os jovens eleitores: game over. Ou, como prefere o Elio Gaspari: jogo jogado.

Vida que segue.