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Balaio do Kotscho

O debate entre o presidenciável e o comediante: era para rir ou chorar?

Gregório Duvivier e Ciro Gomes debatem em live - Reprodução/YouTube
Gregório Duvivier e Ciro Gomes debatem em live Imagem: Reprodução/YouTube
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

21/05/2022 14h43

De um lado, o candidato a presidente, um profissional da política que disputa a presidência da República pela quarta vez.

De outro, o jovem comediante de muito sucesso, desafiado para um debate por ter feito um quadro humorístico sobre o candidato em seu programa de TV.

Como não tinha o que fazer na noite gelada de sexta-feira, e queria me divertir um pouco, depois de assistir à triste vassalagem do governo e do empresariado nacional ao "homem mais rico do mundo", com a Amazônia embrulhada para presente, resolvi arriscar.

Afinal, era o primeiro debate cara a cara desta bizarra campanha presidencial em que todos estão falando sozinhos até agora.

Me arrependi. Ao final do duelo, que durou intermináveis 90 minutos, com dois monólogos entrecortados, fiquei sem saber se aquilo era para rir ou chorar, quem era o presidenciável e quem era o comediante.

A registrar, apenas, a incrível paciência de Gregório Duvivier, assistindo, impávido, sem acreditar no que ouvia, a mais uma live indignada do "Cirão da Massa", como se autodenomina o candidato.

Para começar, o tempo todo, Ciro Gomes, ainda sem conseguir passar de um dígito em nenhuma pesquisa, queria convencer Gregório e a plateia virtual que, contra tudo e contra todos, vai ganhar estas eleições. Quem mais, além dele, hoje acredita nisso?

O debate, na verdade, era só um pretexto para o candidato despejar mais um caminhão de acusações contra o PT e Lula, que lidera todas as pesquisas, com mais de 40% de intenções de voto. As redes bolsonaristas adoraram, e não perderam tempo em reproduzir as falas do pedetista, que assim virou uma espécie de linha auxiliar involuntária do presidente, candidato à reeleição.

Parafraseando Cid Gomes, o irmão de Ciro, que lascou tempos atrás um "o Lula tá preso, babaca" em cima de um petista que o vaiava, Gregório reagiu: "O Lula tá na frente, babaca". Ciro entendeu a brincadeira, e engoliu em seco.

Eleitor declarado de Ciro na eleição de 2018, desta vez o comediante cometeu a heresia de declarar voto em Lula no seu programa, por ser o único capaz de derrotar Bolsonaro, o motivo que o levou a propor este debate.

Fico me perguntando o que o presidenciável pedetista, que até agora não conseguiu fazer nenhuma aliança, pensava em ganhar com esse debate. Qual seria a genial jogada de marketing, além de conseguir algum espaço na imprensa, como este aqui. Mesmo que derrotasse o comediante por nocaute, o que ganharia com isso?

Lá pelas tantas, Ciro resolveu propor a Gregório convidar Lula para o próximo debate, mas tomou outra invertida. "O Lula está namorando, não tem tempo para perder com comediante".

No lançamento da sua pré-candidatura, semanas atrás, Ciro assumiu o papel de "candidato rebelde", mas só o que ele conseguiu até agora foi acabar com duas carreiras respeitáveis _ a dele mesmo e a do marqueteiro João Santana, que era considerado o melhor do país.

O que poderia ser engraçado acabou sendo um espetáculo deprimente, com um acusando o outro de ter sido ofendido e de não discutir os reais problemas do país, que passaram ao largo do programa.

Ciro era o último sobrevivente da chamada "terceira via", que esta semana implodiu de vez, o único que poderia ameaçar os dois protagonistas da campanha, mas agora, depois desse vexame, vai fazer companhia a Moro, Doria, Simone, Janones, Bivar e tantos outros menos votados que entraram e saíram de cena neste ano eleitoral.

Em 2018, o ex-deputado, ex-prefeito, ex-governador e ex-ministro foi para Paris no segundo turno. Para onde irá agora o ex-Ciro?

Vida que segue.

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