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Balaio do Kotscho

Ouvir Gilberto Gil é lembrar do que fomos e pensar no que ainda podemos ser

O cantor e ex-ministro Gilberto Gil toca o clássico "Toda Menina Baiana" com o então secretário-geral da ONU Kofi Annan em Nova York - Reprodução
O cantor e ex-ministro Gilberto Gil toca o clássico "Toda Menina Baiana" com o então secretário-geral da ONU Kofi Annan em Nova York Imagem: Reprodução
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

24/05/2022 12h39

Ver e ouvir Gilberto Gil no centro do Roda Viva, diante de uma magnifica bancada de entrevistadores, na noite de segunda-feira, me fez sentir saudades de um Brasil fraterno e bonito que já foi, mas ao mesmo tempo renovou minhas esperanças num Brasil que ainda poderá ser, um país feliz consigo mesmo e orgulhoso do seu povo.

A cabeça de Gil gira numa rotação que não consigo acompanhar, pulando da música para a ciência, da inteligência artificial à vida em família, do passado direto para o futuro, fazendo escala entre o sonho e a realidade, tudo naquela voz mansa de baiano, falando de coisas sérias com um sorriso no rosto e nos fazendo pensar em coisas que nunca pensamos antes.

Gil já esteve várias vezes antes no Roda Viva, a última delas faz 23 anos, mas ouvi-lo pensar em voz alta dá a impressão de ser sempre uma novidade.

Às vésperas de completar 80 anos, no próximo mês, já fez de tudo na vida, depois de se formar em administração de empresas (quem diria...), rodou o Brasil e o mundo, tocando, compondo e cantando, mas sempre voltou para Salvador, seu berço e sua inspiração.

Numa dessas viagens, quando era ministro da Cultura no primeiro governo Lula, cantou na Assembleia Geral da ONU, acompanhado pelo secretário-geral Koffi Annan, no bongô.

Essa trajetória única está registrada em 16 milhões e 800 mil citações no Google, até o meio-dia de hoje, o que daria para editar uma enciclopédia inteira só sobre a sua vida e obra.

Agora que virou imortal da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira 20, o nosso genial artista está cheio de planos, animado como um menino que ganhou a primeira bicicleta.

Acompanhado da família toda, que virou uma grande orquestra, com a participação de filhos e netos, prepara uma turnê pela Europa para comemorar a data, depois de gravar a série documental "Em casa com os Gil", produzida pela Prime Vídeo durante a pandemia, que será lançada no dia 24 de junho.

"A vida tem propiciado meu envelhecimento, apesar disso e daquilo. Acho que é isso, o ensinamento é isso... Tive muitos filhos, tenho muitos netos, tenho uma família grande. Isso vai se esparramar pelo mundo", diz, ao responder a uma pergunta sobre a chegada da velhice, gravada pela filha Bela Gil.

Gilberto Gil só deixa o sorriso de lado quando fala do que foi feito com a cultura brasileira nestes anos de furiosa destruição pelo bolsonarismo:

"Ficamos muito consternados. Não imaginávamos que essa fúria fosse prevalecer no caso das artes, do campo cultural (...) Foram instituições fortalecidas em governos anteriores. Processos e projetos de fomento foram totalmente abandonados. Ficamos consternados, mas é o suficiente? É preciso batalhar, lutar e insistir no fortalecimento dos mecanismos democráticos. É a sociedade brasileira tomando em suas mãos as suas responsabilidades".

Sem se deixar abater, Gil bota fé nas próximas eleições para mudar este cenário pelo voto: "A vida deu a chance deles chegarem ao poder com suas milícias. Tomara que estejamos aptos a nos livrar deles. Boa parte do Brasil hoje reivindica a substituição dos que estão aí".

Em outra pergunta gravada, o também compositor Jorge Mautner quis saber a quem Gil se referia na música "Pessoa Nefasta", composta profeticamente em 1984, o ano da campanha das Diretas Já, que apressou o fim da ditadura militar. "Não foi dirigido a ninguém", respondeu, sobre os versos que falam de uma pessoa com "cara de cão" cercada por cobiça e malícia. Qualquer semelhança...

Se você não assistiu ao programa, não deixe de ver a gravação que está na integra no site da TV Cultura de São Paulo.

Antes de terminar esta coluna, é preciso agradecer à excelente bancada de entrevistadores comandada por Vera Magalhães, que nos proporcionou estes belos momentos em companhia de Gilberto Gil: João Marcelo Bôscoli, produtor musical, filho mais velho de Elis Regina; Evandro Fioti, artista e CEO da Lab Fantasma; a diretora artística Amora Mautner; a comunicadora Sarah Oliveira e a escritora Djamila Ribeiro, colunista da Folha.

Vida que segue.