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Primeira prisão de Lula completa 40 anos

Fotografia oficial e prontuário preenchido por Lula quando preso no Dops de São Paulo, em abril de 1980 - DEOPS-SP/Reprodução
Fotografia oficial e prontuário preenchido por Lula quando preso no Dops de São Paulo, em abril de 1980 Imagem: DEOPS-SP/Reprodução
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

16/04/2020 01h32

Na manhã de 19 de abril de 1980, duas veraneios C14 com oito agentes armados estacionaram em frente à casa de Luiz Inácio da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, na Grande São Paulo. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional por promover greve e incitar publicamente à "subversão da ordem político-social" (conforme os artigos 32 e 33 do decreto-lei 314 de 1967), Lula permaneceu 31 dias detido no Dops de São Paulo com outros dirigentes sindicais.

Nesse período, perdeu a mãe, Dona Lindu, fez greve de fome a contragosto e comeu lula a dorê servida pelo delegado Romeu Tuma. Dona Marisa liderou uma grande caminhada de mulheres pelo centro de São Bernardo, Dom Paulo Evaristo Arns celebrou missa na Sé em apoio aos presos e Chico Buarque gravou um compacto com a música "Linha de Montagem" e doou os direitos autorais de autor e intérprete para o fundo de greve. Os detalhes daquelas semanas de abril e maio estão narrados em um dos capítulos do livro "Marisa Letícia Lula da Silva", que lancei em fevereiro pela Alameda Casa Editorial. Confira um trecho a seguir.

**

Faltavam alguns minutos para as seis horas da manhã do dia 19 de abril de 1980, um sábado, quando bateram palma.

— Senhor Luiz Inácio da Silva! Senhor Luiz Inácio da Silva!

A voz vinha da calçada, colada à janela do quarto. Marisa despertou assustada após uma noite em que mal pregara o olho.

— Senhor Luiz Inácio da Silva, Lei de Segurança Nacional!

Chacoalhou o marido.

— Lula, Lula, estão atrás de você!

O marido resmungou qualquer coisa e virou para o outro lado. Marisa alcançou algo que pudesse vestir e foi até a sala, onde o deputado estadual Geraldo Siqueira dormia no sofá́.

— Tem alguém aí - ela o acordou. — Chamaram o nome do Lula.

Frei Betto abriu a porta do segundo quarto, foi até a entrada e se apresentou.

— Um instante, vou chamar o Lula.

Fechou a porta e foi ajudar Marisa a acordá-lo. Orientou Geraldinho:

— Vai lá fora e pede pra ver o mandado de prisão.

Frei Betto e Geraldinho haviam se mudado para a casa de Marisa e Lula no dia 15, logo após o tribunal decretar a ilegalidade da greve. A hipótese de prisão era cada vez mais real, e a presença de um parlamentar e um religioso poderia trazer alguma segurança a Lula e sua família num momento em que arbitrariedade e truculência eram marcas da repressão. Como os dois não eram casados nem tinham filhos, abraçaram a missão proposta pelo frade sem que a mudança lhes causasse desconforto. Frei Betto ficou no quarto onde dormiam as três crianças, enviadas às pressas para uma temporada nas casas das tias. Geraldinho se instalou no sofá da sala.

Ficou acertado que, quando a prisão acontecesse, os dois correriam para o telefone e acionariam suas redes a fim de denunciar imediatamente a detenção de Lula: Igreja, Legislativo, organizações de Direitos Humanos, advogados, jornalistas. A divulgação em todos os jornais era a única arma capaz de garantir a integridade física do preso e obrigar a Secretaria de Segurança Pública a oficializar seu paradeiro. Se Lula desaparecesse ao entrar na veraneio do Dops, o pior poderia lhe acontecer.

Frei Betto entrou no quarto do casal e sacudiu os ombros do Lula:

— Lula, levanta. Vieram te buscar. Você tem que ir.

Enquanto isso, Geraldinho conversava no portão: ele do lado de dentro, os agentes do Dops do lado de fora. O terno amarrotado de quem havia dormido de roupa e a cabeleira emaranhada à moda de Bob Dylan não eram os melhores cartões de visita para o jovem deputado de vinte e nove anos, veterano do movimento estudantil. Geraldinho se apresentou, mostrou a carteirinha de identificação da Assembleia Legislativa e tomou coragem para cumprir a ordem recebida:

— Escuta, vocês têm mandado?

— Temos, é claro - respondeu o líder do grupo, abrindo e fechando o paletó como se mostrasse um papel no bolso, ilegível àquela distância e em tão pouco tempo. Imediatamente, outro agente se aproximou com uma metralhadora nos braços, como quem diz: "o mandado é este aqui".

Ao todo, eram oito agentes, dois deles com metralhadoras. Ocupavam duas veraneios C14, da GM, sem caracterização.

— Lula está se vestindo e já vai sair.

— Fala para ele vir rápido!

Os policiais olhavam ao redor. Temiam que os vizinhos percebessem a movimentação e criassem qualquer empecilho. Conheciam a popularidade de Lula e temiam que os trabalhadores ousassem enfrentá-los para defender seu líder. Lula vestiu uma calça, não gostou, vestiu outra.

Marisa apressava o marido:

— Você não vai?

— Vou tomar um café. - Olhava para a mulher como se buscasse mostrar que tinha o controle da situação. — Vou tomar um café.

Eles tinham dormido tarde naquela noite, por volta das duas da madrugada. Às nove da noite, Lula e Geraldinho tinham se somado ao deputado federal Airton Soares - também do MDB e com transferência já anunciada para o PT - numa visita ao Hospital Assunção, onde foram internados às pressas dois metalúrgicos feridos numa explosão de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela repressão contra os grevistas. Um deles perdera a mão. Mais tarde, ficaram jogando buraco até tarde. Frei Betto formou dupla com Geraldinho para desafiar o já imbatível time de Lula e Marisa. Levaram uma surra.

O carteado ajudava a aliviar a tensão. Horas antes, o motorista do deputado havia saído com a orientação de ir a São Paulo buscar uns panfletos a favor da greve para serem distribuídos na assembleia do dia seguinte. Não voltou mais. Ninguém telefonava para dar notícias, e a incerteza só crescia. Geraldinho aguardava algum contato, preocupado. Soube-se apenas depois que o carro, um Opala oficial da Assembleia Legislativa de São Paulo, tinha sido interceptado pela polícia - e que o motorista, flagrado com material subversivo, fora sequestrado pelos policiais.

Entre uma canastra e outra, os quatro jogavam conversa fora e buscavam motivos para festejar o sucesso da paralisação. Mas bastava ficar em silêncio por alguns instantes para que o ambiente voltasse a pesar.

Marisa lembrou que o casal havia ganhado três garrafas de vinho e que elas estavam na prateleira, à espera de sabe-se lá o quê. Eram três garrafas azuis, com um vinho branco e suave, produzido na Alemanha e importado a preços competitivos pela recém-fundada Expand, sob o pomposo nome de Liebfraumilch. Partira de Otávio Piva de Albuquerque, o dono da importadora, a ideia de engarrafar aquele riesling adocicado em garrafas azuis para que se destacassem nas prateleiras. A estratégia deu certo e, no final da década de 1980, o "vinho da garrafa azul" representava 60% dos vinhos importados pelo Brasil.

— Bora abrir esses vinhos - ela ordenou.

Beberam as três garrafas. A jogatina continuou até Geraldinho desabar no sofá e Frei Betto sugerir que todos se recolhessem. Quatro horas depois, estavam todos de pé.

Marisa colocou algumas roupas de Lula numa bolsa. Por um momento, pensou em convencê-lo a fugir. O marido sairia pelos fundos, pularia o muro... Depois recuperou a consciência. Não adiantaria nada. Semanas antes, um deputado a havia procurado com a sugestão de que ela e o marido fugissem do Brasil. Ele arrumaria os passaportes. Marisa declinou.

— Olha, se o senhor arranjar uma viagem numa época de férias, para que as crianças possam ir também, aí eu topo - brincou, reforçando a ligação com os filhos.

Enquanto o marido entrava na Veraneio, Marisa tentou ligar o Fiat 147 branco que Lula havia comprado em meados do ano anterior, logo depois da intervenção no sindicato. Junto com o cargo de presidente, Lula perdera também o direito a usar o carro da entidade, o que o obrigou a financiar um carro particular. Marisa estava decidida a seguir as duas veraneios para ver aonde estavam levando seu marido. Foi em vão. Era cedo demais, fazia frio, e seu carro era a álcool. Até o motor esquentar, as veraneios já haviam desaparecido.

— Vai tranquilo que eu cuido da tua casa - Frei Betto prometeu ao amigo.

Ele e Geraldinho arregaçaram as mangas e soltaram o alerta geral, como combinado. Geraldinho ligou para Beá Tibiriçá, sua assessora na Alesp. A ordem, a partir de então, era que cada pessoa comunicada avisa- ria outras cinco, começando pelas bancadas federal e estadual do PT e do MDB. Betto, por sua vez, ligou para Dom Cláudio Hummes, bispo de Santo André, e para o arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Ninguém no Brasil de 1980 dedicava-se tanto quanto Dom Paulo a denunciar as violações de direitos humanos e as arbitrariedades do regime. Isso desde o início dos anos 1970, quando o franciscano virou arcebispo, criou a Comissão Justiça e Paz de São Paulo para oferecer proteção aos presos políticos e denunciar a tortura, comandou uma missa na Sé em memória de Alexandre Vannucchi Leme (estudante da USP morto sob tortura) e vendeu o palácio episcopal por 5 milhões de dólares para comprar uma centena de casas e terrenos em bairros periféricos e montar a Operação Periferia: uma rede voltada à ação social capilarizada em comunidades eclesiais de base, pastorais sociais, centros de juventude e clubes de mães.

Lula estava a caminho do Dops, debaixo de uma baita cerração e sem muita certeza sobre qual seria seu destino, quando ouviu a prisão noticiada no rádio. O cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, comentava ao vivo a prisão de Lula. Equivocada, ele dizia. Ilegal e criminosa. Além de Lula, outros dirigentes sindicais foram detidos no mesmo dia, quase todos ao mesmo tempo, em diversos pontos do ABC. Djalma, Rubão, Manoel Anísio, Devanir, Wagner, Expedito e Severino em São Bernardo. José Cicote, Zé Maria e Timóteo em Santo André. Em quase todas as casas, os telefones foram cortados. As esposas, assustadas, tentavam se comunicar umas com as outras e não conseguiam. Marisa tentou ter notícias da Zeneide, da Carmela, mas os telefones das amigas estavam mudos.

Quando Lula chegou ao Dops, deu de cara com os advogados Dalmo Dallari e José Carlos Dias, membros da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Ficou feliz ao vê-los.

— Porra, vocês chegaram antes de mim! - Lula se exaltou. — Será uma honra ser defendido por vocês.

— Não, Lula. Nós também fomos detidos para prestar depoimento - Dallari explicou.

As denúncias feitas pela Comissão Justiça e Paz e o apoio dos setores progressistas da Igreja católica aos metalúrgicos incomodavam os militares. Polícia e governo preocupavam-se com a proximidade da visita do Papa João Paulo II, agendada para junho. Era a primeira vez que um Papa viria ao Brasil e a turma de Dom Paulo articulava um encontro entre o sumo pontífice e um metalúrgico. Em sua juventude na Polônia, Karol Wojtyla havia sido operário. No Brasil, caberia a Waldemar Rossi, metalúrgico de São Paulo e membro da Pastoral Operária, fazer uma saudação em nome dos trabalhadores. Diante de 200 mil pessoas, Rossi leria uma breve mensagem e entregaria ao Papa uma carta com denúncias sobre as más condições de trabalho e também sobre a prática sistemática de tortura e extermínio pela ditadura.

Nos dias que se seguiram, as prisões continuaram. Gilson Menezes e Juraci Batista Magalhães estavam no carro do deputado federal Freitas Nobre quando o veículo foi perseguido e interceptado. Enilson Simões de Moura, o Alemão, conseguiu driblar a polícia por uma semana, mas foi cercado no Paço Municipal de São Bernardo em 26 de abril. O senador Teotônio Vilela impediu que ele fosse preso ali e o levou até o gabinete do prefeito Tito Costa, mas não teve jeito: o dirigente saiu de lá algemado.

Osmar Mendonça, o Osmarzinho, foi preso duas semanas depois, na sacristia da Igreja Matriz, após discursar na assembleia de 11 de maio que poria fim à greve. A maioria dos quatorze indiciados, no entanto, ficou presa por 31 dias, de 19 de abril a 20 de maio de 1980, na mesma cela.

*

A prisão de Lula e dos outros sindicalistas era favas contadas. Já no dia 14 de abril, enquanto o Tribunal Regional do Trabalho votava a ilegalidade da greve, uma dezena de diretores do Sindicato foi intimada ao Dops para prestar depoimento. A polícia resolvera implicar com a Associação Beneficente dos Metalúrgicos de São Bernardo, entidade fundada no ano anterior para administrar o fundo de greve. O advogado Luiz Eduardo Greenhalgh correu para o prédio no Largo General Osório, no centro de São Paulo.

Membro da Comissão de Anistia e conhecido defensor de presos políticos nos anos 1970, Greenhalgh fora apresentado a Lula por Frei Betto em janeiro.

— O Lula quer que você vá falar com ele lá em São Bernardo.

— Mas por quê?

— Ele diz que desta vez os metalúrgicos vão radicalizar. Acha que vai ser preso, processado pela Lei de Segurança Nacional, por isso quer deixar tudo arrumado.

Greenhalgh buscou o amigo no convento na Rua Atibaia, em São Paulo, e foi com ele até o Sindicato. Conversou com Lula sobre a Lei de Segurança Nacional, em especial sobre o artigo 36, que previa até doze anos de reclusão para quem fosse condenado por incitar a desobediência civil, modalidade em que se enquadravam as greves. No dia seguinte, o advogado voltou à Rua João Basso com dois blocos de procurações e outros tantos cartões para reconhecimento de firma. Um a um, mais de 100 metalúrgicos constituíram Greenhalgh como seu advogado, incluindo Lula, os membros da diretoria, os suplentes e os integrantes das comissões de fábrica.

Agora havia chegado a hora de agir. Greenhalgh passou a tarde no Dops, entre uma audiência e outra. Geraldo Siqueira foi para lá assim que pôde. Ficaram no local até o último sindicalista depor. A certa altura, um jornalista perguntou a Geraldinho:

— Acabaram de me ligar da redação para avisar que foi decretada a ilegalidade da greve. O que o nobre deputado tem a dizer sobre isso?

Geraldinho deu entrevista e avisou Greenhalgh. A decisão do TRT mudava tudo. Era preciso avisar os sindicalistas. Junto com a ilegalidade da greve viriam a cassação dos mandatos e os pedidos de prisão preventiva. Quando todos foram embora, devidamente avisados, um investigador se aproximou do advogado e do deputado, que fumavam na calçada.

— Façam o favor de entrar novamente. O delegado quer falar com vocês.

O delegado era Romeu Tuma, chefe do Dops desde 1977. O agente conduziu a dupla por um corredor lateral até o elevador. Subiram até o terceiro andar e foram levados até um quartinho minúsculo, embaixo da escada, onde havia pilhas de Diário Oficial. O agente pediu que aguardassem e trancou a porta.

— Será que deram outro golpe e estão prendendo em massa de novo? - Geraldinho comentou - Estamos presos, é isso?

Cada um sentou numa pilha de jornal. Minutos depois, Romeu Tuma entrou no cubículo, fechou a porta e acomodou-se também numa pilha.

— Olha, vou direto ao assunto - disse. — A comunidade de segurança se reuniu e ficou decidido que Lula vai ser preso. Fui voto vencido. Argumentei que, se for preso, Lula vai sair da prisão nos braços do povo, como herói, e isso é contraproducente.

A dupla tentava entender a razão daquela audiência.

- Sei que vocês são amigos dele - Tuma continuou. — Estou avisando porque ele tem criança pequena e pode ser salutar evitar o trauma de uma prisão na frente delas.

Geraldo Siqueira saiu intrigado. Greenhalgh também. Uma das hipóteses era a de que, em tempos de abertura lenta e gradual, Tuma reivindicasse para si o avatar da legalidade, numa tentativa de se mostrar democrático e expor a diferença de atitude em relação a Sérgio Paranhos Fleury, delegado morto no ano anterior e que fora diretor do Dops na fase mais violenta da repressão, até 1977.

Outra hipótese era a de que Tuma, que viria muitos anos depois a ser eleito senador por São Paulo, tivesse consciência da liderança exercida por Lula e do papel que ele desempenharia no período que se iniciava, preferindo lidar com aquela prisão de forma republicana. Uma terceira possibilidade, talvez a mais provável, era que Tuma fizera aquilo para que Lula desse um jeito de fugir. Uma fuga desmoralizaria o movimento sindical e o próprio Lula. Colocaria a pá de cal na greve e esvaziaria a possibilidade de novas paralisações no ano seguinte.

Geraldinho e Greenhalgh correram para a casa de Lula e Marisa. Era preciso contar o que tinha acontecido e decidir o que fazer.

*

Marisa não contou para os meninos imediatamente. Leoa, preferiu preservar as crianças e preparar o terreno para explicar com calma. Uma bobagem, porque a notícia da prisão estava em todos os jornais. Quando contou, Marcos já tinha visto pela TV na casa da tia Inês.

Aos nove anos, foi Marcos quem mais sofreu com a prisão. Na escola, alguns amigos perguntavam a ele por que seu pai tinha sido preso. E concluíam que, se estava na cadeia, era porque tinha cometido algum crime.

— Seu pai é bandido - diziam.

Marcos começou a evitar a escola. Pedia para não ir. Chegava a chorar. A mãe, sem saber o que se passava no pátio e na sala de aula, mantinha-se intransigente. Dizia que não podia faltar, que ir para a escola era obrigação.

Um dia, sem saber que havia um filho do Lula na sala, uma professora fez comentários negativos sobre o movimento grevista e a prisão dos diretores. Acusou os sindicalistas de arruaceiros e vagabundos, e disse que Lula era ladrão, por isso tinha sido preso. Outra professora passava pelo corredor e escutou. Deu meia volta e chamou a atenção da colega. Em seguida, pediu à diretora que chamasse os dois, Marcos e a tal professora, para uma conversa. Na reunião, contou que Marcos era filho do Lula e fez um discurso. Explicou que não havia nenhuma acusação de roubo contra os sindicalistas, que eles tinham sido presos por defender os direitos dos trabalhadores e que não fazia sentido dizer aquilo para os alunos.

Quando Marisa tomou pé da situação, tirou o menino da escola. Não havia clima para enfrentar o desrespeito e as versões distorcidas de colegas e professores. E a mãe, àquela altura, não tinha condições de se preocupar com isso. A cada dia, um compromisso diferente: assembleia, reunião, entrevista, missa, caminhada, visita ao Dops. Marcos ficou maio e junho sem ir às aulas. Voltou no segundo semestre, mas acabou repetindo a terceira série.

Marisa visitou o Dops pela primeira vez seis dias depois da prisão. Foi com outras esposas de sindicalistas, mas sem os filhos. Não sabia se as crianças seriam autorizadas a entrar. Na visita seguinte, levou os meninos, não sem antes explicar aonde iam e o que iriam fazer.

— Seu pai está preso, tem policiais junto com ele, mas ele está bem, vocês não precisam ter medo.

Quando chegaram, Tuma achou prudente conduzi-los até a sala de reunião anexa a seu gabinete, no quarto andar.

— Dona Marisa, é melhor a senhora entrar na minha sala e esperar aqui - orientou. — Vou buscar o Lula.

Fábio olhou em volta, desconfiado. Viu a mesa de trabalho, o sofá de couro cor de vinho, uma mesa de centro, quadros na parede. Quando Lula apareceu, não teve dúvidas:

— Papai, você não está na cadeia, você está num hotel!

O Hotel do Tuma parecia um lugar divertido para as crianças. Marcos, mais introspectivo, olhava ao redor, curioso. Fábio corria pela sala, pulava no sofá, brincava de esconder. Em seguida, virou um super-herói de gibi, com sua capa e seus super-poderes emitindo pows, zas e bangs. De repente, sem que ninguém pudesse contê-lo, desferiu um soco nos países baixos do delegado. Os pais, constrangidos, pediram desculpas a Tuma e deram uma bronca no garoto ali mesmo. Na hora de ir embora, Sandro expressou a tensão que vivia: fez birra, chorou, vomitou. Não queria deixar o pai ali. Nos dias que se seguiram, Marisa preferiu deixar as crianças em casa.

Desde o primeiro dia, ficou evidente o tratamento respeitoso dispensado a Lula e sua família. Tuma permitia que o preso mais famoso do Brasil passasse quase o dia todo em sua sala. Podia ler os jornais, conversava com Tuma, contava a ele episódios prosaicos da vida sindical e chegava a abrir, sem muita preocupação, detalhes dos bastidores da greve, como as datas das próximas reuniões e traços de personalidade de outros dirigentes. Nenhum segredo, nenhuma informação inédita ou confidencial, mas o bastante para Tuma estabelecer com Lula uma espécie de relação de troca. Era o suficiente para despertar a desconfiança dos colegas de cela, em especial da turma de Santo André, que não viam com bons olhos a aparente intimidade entre ele e o chefe do Dops.

No quarto andar, Lula também recebia visitas importantes, como as do senador alagoano Teotônio Vilela e de Almir Pazzianotto, advogado do Sindicato, para longas conversas. Numa madrugada, já depois de meia-noite, entraram dois emissários do General Golbery, ministro da Casa Civil, com a missão de negociar o fim da greve. Greenhalgh foi convocado por telefone por volta da uma hora da manhã para ir até o Dops intermediar a conversa. Quando chegou, os dois forasteiros já haviam partido.

Tuma também permitiu que Lula saísse escondido para visitar a mãe na casa de sua irmã Maria. Dona Lindu estava com câncer no útero, em estágio avançado, com chances remotas de recuperação, e nem desconfiava que o filho tinha sido preso. Lula saiu numa Veraneio do Dops depois das onze horas da noite, deitado no banco traseiro para que ninguém o visse. Os dois agentes que o escoltavam, um policial e um escrivão, vestiram-se como operários para não levantar suspeitas. Uma semana depois, no dia 12 de maio, Tuma permitiria nova saída a Lula, dessa vez para que pudesse acompanhar o enterro de Dona Lindu. Na ocasião, o carro em que ele chegou ao cemitério da Vila Pauliceia, ao lado de Marisa e de dois policiais à paisana, foi cercado por manifestantes, que exigiam sua libertação. Jogavam pedras, tentavam levantar o automóvel no muque, mas Lula, tranquilo e sem algemas, os demoveu da imprudência de tentar alguma besteira.

Na maior parte do tempo, ficaram treze metalúrgicos na chamada "cela zero", a primeira no corredor da carceragem. Dormiam em "treliches" de alvenaria e dividiam um único vaso sanitário e um único chuveiro de água fria. A igreja mandava comida, livrando os detentos da árdua tarefa de encarar o picadão servido na carceragem. Diferentemente dos presos políticos levados para o Dops dos anos 1970, Lula e seus companheiros não foram torturados. Mas, no dia 7 de maio, iriam repetir uma estratégia testada pelos presos nos anos de chumbo: anunciariam uma greve de fome. Neste momento, os metalúrgicos de São Caetano já tinham voltado ao trabalho no dia 3 sem ter nenhuma reivindicação atendida. Os trabalhadores de Santo André fariam o mesmo no dia 6. Sobraram os operários de São Bernardo. Somente um fato político de grande envergadura seria capaz de colocar mais lenha na fogueira e chacoalhar o ânimo dos trabalhadores.

— Porra, Betto, greve de fome? - reclamaria Lula.

— Sim, greve de fome - insistiu Frei Betto, pai da ideia. — Eu e o Greenhalgh vamos escrever um manifesto em nome dos presos justificando a opção pela privação alimentar. Ele será disparado para a imprensa logo cedo.

— Não dá, porra. Peão gosta de comer. Não tem vocação pra Gandhi.

— Greve de fome, Lula. Água e sal. Você vai ver como o jogo vira.

*

Fora das grades, a greve continuava, agora na ilegalidade. Um show em solidariedade aos metalúrgicos estava marcado para o domingo 20 de abril, às três da tarde, no estádio da Vila Euclides. Chico Buarque, Gonzaguinha, MPB-4, João Nogueira e outros grandes nomes da MPB haviam confirmado presença e se prontificado a doar integralmente o valor dos ingressos para o fundo de greve. O objetivo era repetir a experiência do ano anterior, quando artistas como Elis Regina e João Bosco, entre outros, fizeram a mesma coisa: encheram o estádio da Vila Euclides e doaram seus cachês para o fundo de greve. Na véspera do show de 1980, no entanto, chegaram ordens para que a apresentação fosse cancelada. Cerca de 100 mil ingressos tinham sido vendidos. Chico Buarque havia feito uma música especialmente para a ocasião, em homenagem aos metalúrgicos, mas não pôde apresentá-la. Encontrou outra maneira de ajudar: incluiu a canção "Linha de montagem" num compacto e colocou à venda o mais depressa que pôde. O fundo de greve ficaria com a renda referente aos direitos autorais de autor e intérprete:

As cabeças levantadas
Máquinas paradas
Dia de pescar
Pois quem toca o trem pra frente
Também de repente
Pode o trem parar

No dia 21, uma segunda-feira, 5 mil pessoas aglomeraram-se na Sé, em São Paulo, para participar de um ato litúrgico celebrado por Dom Paulo Evaristo Arns, também em solidariedade aos metalúrgicos em greve e aos sindicalistas presos. Marisa subiu ao altar representando o marido.

Em casa, Marisa era a cada dia mais assediada. De um lado, jornalistas queriam ouvi-la o tempo todo. De outro, políticos e militantes cobravam engajamento. Apenas as mulheres dos detidos tinham autorização para visitá-los, de modo que Marisa desempenhou papel fundamental na comunicação entre os de dentro e os de fora. A cada visita, voltava com bilhetes e recados rabiscados pelo Lula, sempre no sentido de tranquilizar os trabalhadores e estimular a greve.

Frei Betto e Geraldo Siqueira permaneciam em vigília e ajudavam a orientar Marisa. Matérias de jornais diziam que Frei Betto era "o intelectual por trás de Lula" ou que ele "fazia a cabeça" do presidente do Sindicato, coisa que o religioso sempre negou. Além de preconceituosa, por inferir que um operário não seria capaz de pensar por conta própria, a frase era irreal. O frade não exercia essa ascendência sobre o sindicalista. Talvez o influenciasse nos temas do Evangelho ou na condução do fogão. Filho de uma renomada cozinheira de Belo Horizonte, Frei Betto sempre gostou de cozinhar e, já em 1980, ensinou as primeiras receitas a Lula, que até então não ousava tocar nas panelas. Mas, nos temas relacionados ao sindicalismo e à política, Betto era somente um interlocutor.

Sobre a formação política de Marisa e outras esposas de metalúrgicos, no entanto, o dominicano exerceu influência significativa, principalmente naquele período. A aproximação começara dois meses antes da prisão. Assessor da pastoral operária de São Bernardo desde o ano anterior, Frei Betto foi incumbido por Dom Cláudio Hummes, bispo do ABC, a estar sempre disponível para os metalúrgicos. A greve seria intensa, o governo tendia a radicalizar, e a atividade pastoral exigiria muita solidariedade para os grevistas.

Frei Betto conhecera Lula em janeiro de 1980, na cidade mineira de João Monlevade, por ocasião da posse de João Paulo Pires de Vasconcelos na presidência do sindicato dos metalúrgicos da Belgo-Mineira. Lula quis saber por que Frei Betto nunca tinha ido visitá-lo no Sindicato de São Bernardo. Encontraram-se semanas depois e Lula o convidou para ir almoçar em sua casa. Marisa levou um susto quando atendeu à porta e deu de cara com um sujeito jovem, de trinta e poucos anos, vestindo calça jeans. Ela esperava um frade com pelo menos o dobro da idade, bata e sandálias de couro. Riu para si mesma.

— Trouxe uma massa para o almoço - o frade se adiantou.

— Você pensa que nesta casa não tem comida? - Marisa respondeu, num misto de brincadeira e leve indignação.

— Imagina - o visitante tentou consertar. — É um hábito. Sempre levo alguma coisa nas visitas que faço em nome da pastoral.

Papo vai, papo vem, o dominicano de calça jeans passou a frequentar a casa. Logo sugeriu organizar um grupo de estudos voltado para as mulheres. A ideia, num primeiro momento, era apresentar um panorama da conjuntura econômica e discutir os fundamentos da greve. Funcionava como um curso livre de introdução à política brasileira, adaptado à realidade daquelas mulheres e ao ambiente operário com o qual as famílias estavam habituadas. Com Paulo Freire servindo de farol, Frei Betto explicava a guerra fria, a ditadura militar, o milagre econômico, a dívida externa ou a inflação e apresentava temas como reforma agrária, oligopólio, direitos humanos e direitos das mulheres. O movimento sindical surgia como um tema transversal, permeando quase todas as aulas e palestras.

As reuniões eram realizadas uma vez por semana, à noite, no salão paroquial da Igreja Matriz. Janjão levava a mulher, Emília, e dava carona para Zeneide, mulher do Devanir. Eram vizinhas na região da Vila Alpina, na Zona Leste de São Paulo. Eliete, mulher do Expedito, também ia. Outra Eliete, mulher do Gilson, completava o grupo junto com Marisa. Idalina, mulher do Djalma, foi poucas vezes. Um dia, Frei Betto levou um advogado para o curso. Era o Greenhalgh, que falou sobre a Lei de Segurança Nacional, explicou a ilegalidade da greve e contou o que poderia acontecer com os maridos. Umas voltaram pra casa ainda mais preocupadas. Outras não levaram a sério. "Ser preso por fazer uma greve?", pensavam. "Imagina, esse tempo já passou".

Agora, com todos os diretores presos, Frei Betto seguia orientando o grupo de mulheres, o que continuou fazendo por todo o semestre. Trazia notícias, buscava tranquilizá-las e, principalmente, desempenhava o papel de fustigar a militância, sobretudo de Marisa. Também ajudava a mobilizar a igreja progressista. Seu primeiro gesto após a prisão, no sábado, foi articular a missa celebrada por Dom Paulo na segunda-feira, dia 21, na Sé. Em seguida, haveria a grande manifestação de 1º de Maio, Dia do Trabalho, na Vila Euclides, e Marisa tinha de comparecer.

Greenhalgh, responsável pela defesa dos sindicalistas de São Bernardo, acabou se aproximando de Marisa tanto quanto Frei Betto naqueles dias. Assim que assumiu o caso, passou a frequentar assembleias e a acompanhar os dirigentes em panfletagens nas portas das fábricas durante a troca do primeiro turno, por volta das seis da manhã. Após a atividade, ia com Lula para casa e só então tomava o café, preparado por Marisa. Depois da prisão, Greenhalgh criou o hábito de visitar Marisa e, todas as vezes, levar uma lata de leite em pó. A lata chamou atenção das crianças. Sandro apontava para a vaquinha desenhada na embalagem. Fábio queria saber o que estava escrito.

— Mococa - Greenhalgh explicou. — É o nome do leite e também o nome da cidade em que esse leite é produzido.

Antes não tivesse contado.

— Chegou o Mococa! - Sandro passou a gritar, toda vez que o advogado batia palmas junto ao portão.

As visitas ao Dops também se tornaram frequentes. Numa das visitas, Lula se queixou da falta do que fazer.

— Eu ainda tô numa situação privilegiada - disse. — Tuma me deixa subir, ler os jornais... Mas e os outros? Eles não aguentam mais jogar baralho!

Greenhalgh voltou com uma bola de futebol e treze pares de kichute, um tênis preto com cravos grandes de borracha, bastante popular naqueles anos. Agora os grevistas podiam bater uma bola no pátio quando fosse hora de banho de sol.

*

No dia 1º de maio, São Bernardo do Campo amanheceu cercada. Havia barreiras nas principais vias de acesso, incluindo a Rodovia Anchieta e a Rodovia dos Imigrantes. Em algumas ruas, ficou estabelecido que apenas moradores entrariam, desde que exibissem comprovante de residência. Na véspera, o governo do Estado havia proibido qualquer comemoração do Dia do Trabalho no ABC. Desde seis da manhã, a tropa de choque ocupava o Paço Municipal, a Praça da Matriz e o entorno do estádio da Vila Euclides com um contingente estimado em 5 mil policiais. Mesmo assim, a orientação vinda da cela zero prevaleceu e a multidão se dirigiu a São Bernardo. Primeiro, se reuniu na Matriz, onde a polícia autorizou a realização de uma missa em homenagem aos trabalhadores, celebrada pelo bispo Dom Cláudio Hummes. De lá, mais de 100 mil pessoas se prontificaram a seguir em passeata até o campo de futebol. Por volta das onze horas, o governador Paulo Maluf não teve alternativa a não ser recuar e ordenar que a polícia liberasse a entrada no estádio. A multidão estendia faixas e bandeiras. Numa delas lia-se: "Se não soltarem o Lula, ninguém volta ao trabalho". Marisa representava o marido.

A terceira e última parada dos metalúrgicos, muitos deles acompanhados das esposas e dos filhos, foi o Paço Municipal, também ocupado pela massa. No total, as celebrações se estenderam das nove às duas da tarde. Por algumas horas, os operários sentiram-se vitoriosos e gritaram a plenos pulmões. Mas as negociações não avançavam nem um milímetro.

No dia seguinte, Lula teve um habeas corpus negado, o que significava que ele continuaria preso. No dia 3, os metalúrgicos de São Caetano encerraram a greve. Os de Santo André fizeram o mesmo no dia 6. A greve completara um mês e nenhuma reivindicação parecia caminhar. As ameaças de demissão e o corte nos pagamentos tinham mais força do que a capacidade de lutar. Como manter o emprego? Como alimentar os filhos?

No dia 7, quando apenas os trabalhadores do Sindicato de São Bernardo continuavam em greve, os sindicalistas presos deram início à greve de fome, proposta por Frei Betto, e as esposas resolveram organizar mais um ato de rua, a ser deflagrado no dia seguinte. Em 8 de maio, as mulheres caminhariam pelo centro de São Bernardo. A greve de fome iniciada na véspera fazia aumentar a preocupação. Algumas choravam. Queriam seus maridos de volta, não queriam mártires.

Marisa puxou a marcha das mulheres. As regras da caminhada foram definidas em reunião. Apenas as mulheres marchariam no meio da rua, e era obrigação de todas convidar as vizinhas, as primas, as colegas de trabalho. As crianças poderiam ir com as mães. Os maridos que quisessem acompanhar teriam de andar nas calçadas. Cada mulher levaria uma rosa e uma bandeirinha do Brasil. Qualquer problema que acontecesse, sobretudo em caso de repressão, sentariam no chão e cantariam o Hino da Independência. Para os líderes do movimento sindical, o Hino Nacional era muito identificado com os militares e com a repressão. Já o Hino da Independência falava em liberdade, o que tinha tudo a ver com os sindicalistas presos.

Em vinte dias, a esposa do Lula havia completado uma metamorfose. De mulher de metalúrgico, transformara-se em liderança. Combinaram de se encontrar na Igreja Matriz, onde aconteceria uma assembleia de trabalhadores. A marcha sairia no início da tarde. Quando tudo parecia pronto, chegou a notícia de que a passeata fora proibida. A deputada estadual pelo MDB Irma Passoni, que aguardava a formalização do PT para ingressar no partido, foi negociar com as autoridades. Quase uma hora de discussão e a marcha foi, enfim, autorizada. Marisa, ansiosa, passou mal e chegou a desmaiar na sacristia. As outras mulheres esperaram ela melhorar para saírem todas juntas.

Por volta das três da tarde, mais de mil mulheres tomaram a Praça da Matriz, desceram a Rua Marechal Deodoro, passaram pela Praça Lauro Gomes e seguiram até a Rua Américo Brasiliense. Havia polícia feminina por todo canto. Bombas de gás, cavalaria. Nas fotos, Marisa aparece na primeira fila, de mãos dadas com as companheiras, junto a uma faixa na qual se lia: "Caminhada das mulheres pela reabertura das negociações". "Libertem nossos presos", dizia outra faixa. Os filhos de Marisa seguiram o cortejo um pouco mais atrás, junto com as tias. Em determinado momento, entoaram em coro uma paródia da música "Peixe vivo": Como pode / um operário / viver com esse salário...

Por volta das cinco, estavam novamente na Matriz. Havia chegado o momento de dizer algumas palavras ao microfone. O vigário, Padre Adelino de Carli, solidário desde o primeiro momento à causa dos trabalhadores, passou a palavra para Nelson Campanholo, único membro da diretoria eleita que não tinha sido preso, que logo assumiu o papel de mestre de cerimônia e convidou cinco mulheres a falar em nome de todas as outras. A primeira foi Zeneide, mulher do Devanir. Em sua fala e também nas demais, as mulheres se manifestaram contra a prisão e contra a intervenção no Sindicato. Uma delas sugeriu que todas procurassem emprego, a fim de contribuir com o orçamento doméstico naqueles dias de incertezas. Quem também falou ao microfone foi Ana Maria do Carmo, viúva do metalúrgico Santo Dias da Silva, morto pela polícia durante uma greve no ano anterior, em São Paulo. Marisa foi a última a falar. Momentos antes, um jornalista a interpelou com um comentário a queima-roupa:

— Seu marido foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

Marisa estremeceu. Pensou que tinha sido uma resposta das autoridades à marcha de mulheres. Querendo ajudar, acabara atrapalhando a luta do marido. Quando pegou o microfone, as pernas tremiam.

— Estou aqui como mulher de metalúrgico e quero pedir o apoio de todas vocês para ajudar os maridos nessa greve - foi tudo o que ela conseguiu dizer.

O ato foi encerrado pontualmente às seis da tarde com os presentes agitando a bandeira do Brasil e cantando:

Brava gente brasileira
Longe vá, temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil

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Os presos já estavam subindo pelas paredes no terceiro dia de greve de fome. Era sábado, 10 de maio. No domingo haveria Dia das Mães e eles ali, presos, de boca fechada, sem poder desfrutar da macarronada em família. Nada de frango com polenta, nem churrasco, nem rabada ou dobradinha. Xingavam-se uns aos outros e procuravam um culpado. Quem teria sido o imbecil que teve a brilhante ideia de fazer greve de fome? Àquela altura, já tinha metalúrgico escondendo balinhas no travesseiro, camuflando alguma bolacha trazida às escondidas no último dia de visita.

Romeu Tuma também se irritou. Uma greve de fome àquela altura poderia colocar em risco sua reputação. A Justiça Militar tentaria interferir, entidades de direitos humanos fariam protestos...

— Ô, Mococa - bastou Greenhalgh contar o episódio da lata de leite para que Lula prontamente adotasse o apelido inventado pelo filho -, greve de fome é coisa pra estudante, pra comunista revolucionário. Peão de fábrica quer comer, não quer fazer revolução. Dá um jeito de acabar com essa merda!

O recado foi transmitido a Frei Betto. Juntos, frade e advogado quebraram a cabeça em busca de uma saída honrosa. Até que chegaram a uma solução.

— Precisa caracterizar como um apelo externo.

— Como assim?

— O bispo. A gente combina com o bispo para ele pedir publicamente o fim da greve de fome. Aí fica como se os metalúrgicos, embora dispostos a continuar, tivessem acatado o apelo de uma autoridade religiosa, um representante de Deus.

Consultaram Dom Cláudio Hummes e explicaram a ideia. O bispo do ABC aceitou. Redigiu uma carta clamando para que cessassem a greve de fome e a entregou aos amigos. No dia seguinte, o advogado levou a carta e a leu para os presos. A greve de fome terminou imediatamente. Tuma mandou buscar porções generosas de lula à dorê no Acrópoles, um restaurante no Bom Retiro, e serviu para o grupo na carceragem afirmando que o menu especial era uma homenagem ao dirigente. Tudo o que o chefe do Dops menos queria em seu currículo era a morte de um sindicalista por privação alimentar logo ali, em seu "hotel".

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Lula voltou para casa no dia 20 de maio, uma terça-feira, nove dias após o término da greve e 31 dias após sua prisão. Com a situação normalizada nas fábricas, a Justiça deferiu liminar concedendo aos presos o direito de responder em liberdade. Pesou a favor dos réus a volta dos operários ao trabalho. Sem greve para comandar, e afastados legalmente da atividade sindical, a liberdade dos sindicalistas já não representava risco.

O medo de voltar para o xadrez ainda assustaria os metalúrgicos por mais um ano e meio. Nesse período, dezesseis sindicalistas responderam processo por insuflar a população, numa época em que toda manifestação civil era considerada um atentado contra a segurança nacional. O Sindicato permaneceria sob a tutela de um interventor e a diretoria cassada jamais voltaria a comandá-lo, uma vez que a absolvição dos líderes só ocorreria em 1981, depois da posse da nova diretoria eleita.

No dia 20 de maio, rumores de que o alvará de soltura seria emitido naquela terça-feira começaram a circular por volta da hora do almoço. Greenhalgh convocou uma reunião de emergência com as esposas dos réus, em seu escritório, às cinco da tarde. Foram todas. O advogado não chegava nunca. Ele passou a tarde na 2a Auditoria Militar, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo, e só conseguiu que lhe entregassem o documento depois das seis. Ligou de lá mesmo e deu o recado por telefone. Foram todas para o Dops. Tuma recebeu Marisa, chamou Lula para que os dois pudessem conversar, depois chamou as demais mulheres. Finalmente, pediu a elas que fossem até a calçada, onde já se formara uma pequena aglomeração, e comunicasse que Lula sairia um pouco mais tarde, mas que era proibido ter ato público na porta do Dops. Ou seja: era preciso dispersar a galera.

Enquanto isso, Greenhalgh correu da 2ª Auditoria Militar para o Largo General Osório. Ele não aceitaria nada que não fosse a imediata liberdade de seus clientes.

— Só amanhã - um sentinela informou.

— Como assim, amanhã?

— Acabou o expediente no Dops. Os presos só podem sair até as seis.

— Não, senhor. Os presos podem e devem ser soltos imediatamente após a expedição do alvará de soltura. Prendê-los por um minuto a mais é uma ilegalidade.

— Sinto muito, doutor.

— Sinto muito, uma ova! Os juízes atrasaram de propósito para obrigar os sindicalistas a passar mais uma noite na cela. Isso é uma truculência.

Os repórteres que, naquele momento, faziam plantão em frente ao Dops registraram o momento em que o advogado, impassível diante da impertinência do agente, foi até o portão de ferro e o ergueu com as próprias mãos.

— Vim para soltar os presos e vou tirá-los daqui na marra.

Romeu Tuma escutou a algazarra e veio correndo ao pátio tomar satisfação. Explicação dada, assentiu em liberá-los àquela hora e ordenou que os carros fossem providenciados. Cada preso foi entregue em sua casa numa Veraneio C14.

Conforme a notícia era divulgada nas rádios, dezenas de pessoas dirigiam-se para a casa de Lula e Marisa. Às nove da noite, o motorista do Dops estacionou a 200 metros do número 273 da Rua Maria Azevedo Florence.

— Daqui em diante vocês vão a pé - disse. — Questão de segurança. Não posso prever o que essa multidão exaltada pode fazer.

Lula desceu do carro, acendeu um cigarro e pôs-se a caminhar com uma bolsa de roupas numa das mãos e o cigarro na outra. Greenhalgh caminhava a seu lado. Seguiram assim por dois quarteirões. No final do per- curso, Lula segredou ao advogado:

— Mococa, o negócio é o seguinte. É uma honra ser recebido desse jeito na minha casa, mas você precisa dar um jeito de acabar com essa festa logo. Quero dar um trato na Marisa, tomar um banho e descansar.

Muita gente tinha ido abraçar o líder. Gente do Sindicato, vizinhos, amigos, as atrizes Lélia Abramo e Bete Mendes. Mino Carta conversava com Marisa à mesa. "Viva a volta do Lula", dizia um cartaz. Abraços, vivas, copos de cerveja, rojões. Alunos do curso noturno do ginásio João Firmino, do outro lado da rua, notaram a presença ilustre e pularam o muro da escola para se somar à festa, deixando os bedéis desesperados. "Lula é o maior", berravam.

Por volta da meia-noite, Lula foi cobrar o que havia combinado com Greenhalgh. Marisa ajudou a botar todo mundo pra fora.

— Vambora que amanhã é dia de acordar cedo.

Na casa, havia alguns passarinhos em gaiolas. Canário, pássaro preto... Antes de deitar, Lula abriu as gaiolas e soltou os passarinhos.

Camilo Vannuchi