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Leonor Carrato, a desaparecida que reapareceu, se despede aos 100 anos

Leonor Carrato, a Nô, morre aos 100 anos duas semanas após ter reencontrado a família depois de viver meio século na clandestinidade no Tocantins - Arquivo de família
Leonor Carrato, a Nô, morre aos 100 anos duas semanas após ter reencontrado a família depois de viver meio século na clandestinidade no Tocantins Imagem: Arquivo de família
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

14/05/2020 13h52

Foi como se ela tivesse chegado somente para poder partir. Como se esperasse apenas reencontrar a família após meio século na clandestinidade para, enfim, descansar.

Na quinta-feira passada (7), publiquei neste espaço a incrível história de Leonor Carrato, a Nô, uma mulher que, em 1967, trocou São Paulo pela militância política no Norte de Goiás, hoje Tocantins, e, desde então, permanecera na clandestinidade, com o nome falso de Maria Lídia Martino, sem contato com nenhum familiar. Terminei o texto afirmando que me empenharia para seguir o rastro deixado por Leonor e voltaria ao assunto numa coluna futura. Meu principal desejo, na ocasião, era decifrar a ligação de Leonor com os movimentos de resistência à ditadura. A que organização ela pertenceu? Por que partiu para Goiás? Se nunca pegou em armas, como dissera à agente da Polícia Civil que a resgatou em situação de abandono em Colinas do Tocantins, onde morava, como revelou a primeira reportagem publicada por Lailton Costa no Jornal do Tocantins, quem ou o que a atraíra para a região três anos antes do início da Guerrilha do Araguaia?

Consegui o telefone de Luciene Anacleto, a sobrinha de Nô que a buscou no Tocantins em abril e a levou de mudança para Andradas (MG) e telefonei para ela às 19h de segunda-feira (11) na expectativa de conversar com a "reaparecida política".

— Estou na porta da funerária - Luciene me contou ao telefone. — Minha tia morreu agora há pouco, por volta das 17h.

A história, que já era incrível, tornou-se especialmente intrigante. Apenas duas semanas depois de emergir da clandestinidade, reencontrar a família que a dera por desaparecida já em 1967 e se mudar para Andradas, Nô encerrou sua trajetória, vítima de uma parada respiratória. Desde a sexta-feira anterior, tomava remédios para vencer uma pneumonia. Os médicos não trabalharam com a hipótese de Covid-19. Até o momento, não houve casos da doença nem em Andradas nem em Colinas do Tocantins. Seu atestado de óbito também indicou insuficiência renal.

Segundo a sobrinha Luciene, Nô se alimentava com dificuldade e se queixava de dores desde a semana passada. Diagnosticou uma pneumonia, tomou soro, devolveu o pouco que conseguira ingerir no sábado, mas parecia melhor desde domingo. Na segunda-feira, pediu um ovo quente de manhã e, no almoço, quis arroz, feijão e tomate. No meio da tarde, amparada pela cuidadora que a assistia desde a chegada a Andradas, tomou banho, trocou de roupa e tomou meio copo de mingau. "Aí ela pediu para ficar sozinha no quarto, com a luz apagada, porque queria descansar", contou Luciene. A cuidadora deixou o quarto por cinco minutos para levar o copo à cozinha e contar às sobrinhas como ela estava e, ao voltar, encontrou Nô inerte. "Gente, a Nô foi embora", avisou. As sobrinhas custaram a entender. "Parece que ela só estava esperando reencontrar a família para poder partir", diz Luciene.

Leonor morreu aos 100 anos sem responder às indagações de veteranos da resistência à ditadura, como José Genoino e Flávio Tavares, todos exultantes com a história da militante localizada após tanto tempo. Em entrevista para esta coluna, Genoino anotou que Leonor não esteve na mesma guerrilha que ele. Tampouco há registro dela na formação do PCdoB, como se suspeitava após os primeiros relatos. Em um vídeo gravado pela policial Maria Bethânia Valadão em Colinas do Tocantins, Nô diz que não tinha relação com o PCdoB, responsável pela Guerrilha do Araguaia, mas com o PCB, o que torna ainda mais nebulosa a tentativa de reconstituir sua trajetória. Nô também afirma que não pegou em armas, embora mencione relações com a Ação Libertadora Nacional (ALN) e com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), ambas organizações armadas. Nem Hamilton Pereira, que integrou a ALN, nem Franklin Martins, que foi do MR-8, reconhecem Leonor ou têm pistas de como e por que ela foi parar no Tocantins. Segundo Genoino, outros grupos percorreram a região nos anos 1960, organizando focos guerrilheiros ou prospectando áreas que pudessem receber experiências como a deflagrada no Araguaia em 1970. "Pode ter sido apoio do Flávio Tavares e do grupo político liderado pelo Brizola que também se estabeleceu por ali em meados dos anos 1960 à procura de um local para dar início a um foco guerrilheiro", cogitou Genoino.

Procuramos Flávio Tavares para verificar essa hipótese. Aos 86 anos de idade e morando em Porto Alegre, o autor de "Memórias do Esquecimento" me respondeu por e-mail. "O reencontro dessa centenária 'clandestina' é maravilhoso ponto de partida para conhecer algumas verdades escondidas da nossa História dos anos da ditadura", comentou. "É possível que ela tenha sido um dos 'mascates' que ajudavam a abastecer nossas tentativas de guerrilha. Mas apenas possível. Ou viável", disse Flávio Tavares, insistindo na impossibilidade de afirmar qualquer coisa neste sentido. Num depoimento recente, Nô contou que trabalhava como mascate na região, vendendo roupas que eram compradas na Rua 25 de Março, em São Paulo. Pulava de cidade em cidade como comerciante de roupas. Esta seria, segundo a reaparecida, sua atividade de fachada.

Flávio Tavares conta que, a partir de 1965, o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) tentou estabelecer um foco de guerrilhas no norte de Goiás. "Muita gente da região colaborou, inclusive mulheres, mas os nomes verdadeiros não conheci jamais, pois usávamos sempre nomes de guerra", diz ele.

"O que poderia identificar esta senhora hoje centenária como colaboradora da tentativa de guerrilha é o fato de ter sido 'mascate', costume que usávamos na época e que permitia viagens sem serem percebidos os fins verdadeiros. Tínhamos duas caminhonetes Rural Willys que circulavam pela Belém-Brasília para abastecer a tentativa de guerrilha. Boa parte dos integrantes do foco era constituída por ex-marinheiros e ex-fuzileiros navais expulsos após o golpe de 1964. O comandante militar (houve três no período) era, sempre, alguém com treinamento em Cuba. O comandante político era o (Leonel) Brizola, então exilado no Uruguai. Eu, de Brasília, era o responsável político pelo foco, um dos três (focos) tentados na época. Um no Mato Grosso, outro no que é hoje o Tocantins, e um terceiro em Minas Gerais, no fiasco de Caparaó. Mesmo com minha prisão em 1967, a tentativa de foco guerrilheiro nunca apareceu nos prontuários policiais-militares" (Flávio Tavares).

Infelizmente, não houve tempo de conversar com Nô sobre as informações prestadas por Flávio Tavares nem perguntar a ela sobre MNR, Rural Willys ou Brizola.

Leonor Carraro falava francês, espanhol, italiano, um pouco de alemão e de uma das línguas eslavas que afirma ter aprendido quando esteve na antiga Tchecoslováquia e que as sobrinhas não souberam identificar. Afirmava ter estado também na Argentina e no Paraguai. Quando desapareceu, em 1967, contou para a mãe que iria trabalhar com venda de consórcios em Goiânia e deu o endereço de um hotel. Corresponderam-se por um mês. A quarta carta enviada pela mãe voltou. A quinta também. Leonor já não estava mais hospedada ali. Mergulhara na clandestinidade de onde emergiria somente em 2020. O que aconteceu depois continuará sendo um intrigante mistério.

Camilo Vannuchi