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Camilo Vannuchi

Tirem as crianças da sala

YouTuber infantil participa da live semanal do presidente Jair Bolsonaro  - Reprodução
YouTuber infantil participa da live semanal do presidente Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

11/09/2020 03h03

Como pode? O sujeito tá lá, sendo cobrado na ONU por desmontar os instrumentos de combate à tortura e fazer apologia à ditadura, assistindo de janelinha ao número de mortos por Covid-19 bater nos 130 mil e sem explicar até agora por que sua esposa recebeu R$ 89 mil do Queiroz - por quê, homem, por quê? -, e o que ele faz? Leva uma menina de 10 anos de idade para participar da live. A live semanal de quinta, sabe? Em todos os sentidos da palavra quinta.

O preço do arroz disparado e disparatado, Maria Antonieta mandando comer macarrão, e ele? Dando aula de como ser escroto ao lado de uma menina de 10 anos.

Aglomerações, vacina atrasada, discurso negacionista no 7 de setembro, e ele? Reproduzindo piadas de cunho sexual, homofóbico, gordofóbico e racista em mensagem oficial divulgada na internet.

Como pode?

A tragédia é imensa. Quem pensava que os eleitores brasileiros haviam escolhido o "tiozão do pavê", o típico brasileiro médio, como gostam de repetir os institutos de pesquisa, aquele cara branco, de meia idade e um tanto babaca que faz piadas antiquadas enquanto assiste ao jogo de futebol com o barrigão de fora e acha normal mandar a mulher trazer a cerveja, agora sobram evidências de que elegemos não somente um embuste, um parvo, mas sobretudo um criminoso, um perverso. Nesta semana, com um alvo claro: uma criança. Só falta tirar da cartola o kit gay.

Três dias antes, no feriado pátrio, Jair Bolsonaro já havia aprontado uma de suas diabruras em Brasília. Lotou o Rolls Royce com oito crianças e saiu pelas ruas sem máscara. As crianças também estavam sem.

Desta vez, foi uma tragédia em sete atos. Entre uma gargalhada e outra, recurso adotado por nove entre dez maus comediantes, o presidente discorreu sobre gordos — "o Tércio deve pesar umas 7 arrobas, né, Tércio? Se um urso for comer o Tércio, ele tem muita gordura, o urso vai passar mal" —, sobre nordestinos — "cabra da peste é quem é do Nordeste" e "(está cheio de cabra da peste aqui, então) o Nordeste vai tomar o Brasil assim" —, sobre racismo — "o meu sogro é uma mistura de tudo o que você possa imaginar, é negro, índio, cafuzo, mameluco, ele é tudo, então ele é meio negão, o apelido dele é Paulo Negão; lógico que eu detesto meu sogro, eu gosto é da filha dele" —, sobre misoginia — "na primeira vez que gritaram 'misógino' pra mim, eu estava com um assessor do lado e disse pra ele 'pega aí na internet rapidinho o que é misógino, para eu saber se estou sendo xingado ou elogiado'" —, e sobre homofobia — "se misógino é quem não gosta de mulher, então é quem gosta de homem".

Por fim, fez uma piada de cunho sexual e, em seguida, uma declaração de apologia ao trabalho infantil. Ao lado da menina de 10 anos, após ela comentar que tinha "começado cedo", uma referência ao fato de trabalhar desde os 6 anos, Jair deu outra gargalhada. "Começou cedo?", ele repetiu. "Eu e meus pais", a menina insistiu, inocentemente, pondo-se a explicar o que havia tentado dizer: "Eu comecei a minha carreira de repórter com 6 anos, e os meus pais com 13 anos começaram a trabalhar".

Finalmente, contou a história hipotética de alguém do Ministério Público do Trabalho que teria notificado uma relojoaria dizendo que o relojoeiro estava fazendo apologia ao trabalho. "Deixa o moleque trabalhar, pô. Eu trabalhei. Outro dia contei que aprendi a dirigir com doze anos de idade".

Interpelados, o presidente e seus apoiadores vão dizer que nada disso é grave, que ele tem direito de exercer sua liberdade de expressão e, o mais aterrador, que os pais da menina estavam lá durante a live, autorizaram e até riram daquelas excrescências. Nada disso diminui a inescrupulosa falta de caráter do humorista-chefe não somente durante o programa, mas sobretudo no dia a dia.

A pergunta que fica é: ainda existe Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil? Ou, para ser mais direto: alguma instituição ainda funciona minimamente neste país ou foram todas cooptadas pela babaquice perversa e histriônica da hiena que ocupa o Palácio do Planalto?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.