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Camilo Vannuchi

Tudo que você precisa saber sobre as milícias (antes que seja tarde)

Ato na Câmara dos Deputados em memória de Marielle Franco - Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Ato na Câmara dos Deputados em memória de Marielle Franco Imagem: Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

09/10/2020 02h00

Você precisa conhecer o Lobo. Lobo mora na Baixada Fluminense e tem duas caveiras tatuadas no braço. Duas caveiras e o número 121, referência ao artigo que tipifica o crime de homicídio no Código Penal. Quando fez a primeira tatuagem, seu desejo era riscar uma caveira para cada pessoa que tivesse matado ou que viesse a matar. Depois, desistiu. Lobo passou três anos na cadeia, acusado de matar mais de vinte pessoas e de ocultar seus corpos num cemitério clandestino. Acabou absolvido por falta de provas.

Lobo queria ser policial quando era moleque. Como não teve êxito nos concursos públicos para ingressar na corporação, passou algum tempo fazendo bico de segurança particular e, nos anos 2000, entrou para a milícia. Hoje, Lobo está fora de combate, como um soldado na reserva, um miliciano reformado.

Lobo não se chama Lobo. O nome lhe foi atribuído pelo jornalista e cientista social Bruno Paes Manso, autor do recém-lançado "A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro" (Todavia, 304 págs., R$ 64,90). O nome é inventado, mas não a história. A história de Lobo é real.

Enquanto lia o fascinante livro-reportagem de Bruno Paes Manso, um dos mais bem informados pesquisadores sobre segurança pública no Brasil - coautor, com Camila Nunes Dias, de "A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil", lançado em 2018 pela mesma editora - tentei situar no tempo a primeira vez que ouvi falar em milícia. Não consegui. Lembro que tinha algo a ver com disputa de território na Baixada Fluminense. E que havia uma guerra entre milicianos e traficantes do Comando Vermelho. Uma rixa, um conflito de morte, tipo Cobra Kai X Miyagi-Do.

Na época, tentando acompanhar as notícias que chegavam do Rio de Janeiro, entendi que as milícias exerciam uma espécie de poder paralelo nos morros e favelas. E que, embora agissem à margem da lei, tinham como sócios policiais e políticos, o que remetia aos grupos de extermínio dos anos 1970 e a figuras repulsivas como as do policial militar José Guilherme Godinho, o Sivuca, chefe da Scuderie Le Cocq eleito deputado estadual com o slogan "bandido bom é bandido morto", e o delegado do Dops Sérgio Paranhos Fleury, torturador de presos políticos e líder do Esquadrão da Morte em São Paulo.

Foi numa reportagem de Vera Araújo publicada no jornal O Globo em 2005 que a expressão milícia foi usada pela primeira vez para definir esses grupos paramilitares que atuavam nas comunidades cobrando mensalidades dos moradores e comerciantes em troca de segurança. Baniam os pontos de drogas, afastavam os traficantes e executavam os ladrões de modo a atrair o reconhecimento, o respeito e, por extensão, a obediência da população local. Os milicianos exerciam, assim, um poder baseado na força, na coerção e na violência. Quem os traísse provavelmente amanheceria com a boca cheia de formiga. Quem ousasse enfrentá-los iria para debaixo da terra, ocultado num dos muitos cemitérios clandestinos mantidos pelas milícias.

Pouco tempo depois, os filmes "Tropa de Elite" e as notícias sobre as ameaças de morte recebidas por um tal de Marcelo Freixo, hoje deputado federal, jogaram alguma luz sobre o assunto. Mesmo assim, pelo menos para quem não estava habituado à cena política-policial do Rio de Janeiro, o submundo de gente como Lobo ainda parecia um tanto nebuloso.

Estava em Salvador, na Bahia, jantando num restaurante após lançar um livro numa das tendas do Fórum Social Mundial, no campus da UFBA, quando a ex-ministra Eleonora Menicucci, sentada ao meu lado, perguntou se eu tinha visto o que acontecera no Rio. "Parece que mataram uma vereadora", ela disse. Deslizei o dedo na tela do celular e entrei imediatamente em contato com uma avalanche de zaps, tuítes e cards que lamentavam aquela morte e denunciavam a um só tempo o genocídio da juventude negra e os crimes praticados pela polícia militar e pelas milícias (antes mesmo de qualquer inquérito ou investigação, havia a convicção de que aquela morte era obra de uma dessas duas instituições de alta voltagem).

As pistas chegavam como se fossem peças de um grande quebra-cabeça. Jovem. Negra. Vereadora. Quatro tiros. Estácio. PSOL. Direitos Humanos. Marielle. Acari. Milícia.

Quem matou Marielle? Quem mandou matar Marielle?

Naquele mesmo ano, sete meses após o assassinato de Marielle Franco e de seu assessor Anderson Gomes, o país elegeria como presidente da República um deputado federal inexpressivo, no sétimo mandato parlamentar consecutivo (28 anos no cargo), que se apresentava como anti-político e agia, na vida pessoal e na vida pública, segundo a ética das milícias. "Nunca dissimulou sua visão bélica, seu desprezo pelas leis e pelo Estado de direito", escreveu Bruno Paes Manso no livro. "Depois do Massacre do Carandiru, em que 111 presos foram mortos por policiais em São Paulo, episódio ocorrido em 1992, Bolsonaro afirmou: 'Morreram poucos, a PM tinha que ter matado mil'".

Não demoraria até que as milícias se instalassem no seio do clã Bolsonaro. Ou, talvez, não demoraria até que muitos soubessem que a família Bolsonaro havia se instalado no seio das milícias.

Tudo isso e mais um tanto está no livro de Bruno Paes Manso, repórter do Estadão nos anos 2000, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP nos anos 2010 e hoje meu colega no Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados da USP. Além de ler o livro, você pode conferir esta entrevista do Bruno aos jornalistas Maria Carolina Trevisan e Flávio Costa, no UOL, e também a coluna do Mário Sérgio Conti na Folha. Para saber mais sobre o livro, leia a sinopse no site da Todavia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.