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Camilo Vannuchi

Adelaide e Dora estão vivas na Mostra de Tiradentes

A guerrilheira Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, da VAR-Palmares, em cena do curta "De Dora, por Sara", de Sara Antunes. - Reprodução
A guerrilheira Maria Auxiliadora Lara Barcelos, a Dora, da VAR-Palmares, em cena do curta "De Dora, por Sara", de Sara Antunes. Imagem: Reprodução
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

28/01/2021 01h00

"É duro mexer nas feridas da humanidade. Mas, às vezes, é preciso. Dizem que só o que arde cura".

Não sou eu quem está dizendo. Quem disse isso foi Adelaide Carraro.

Quem viveu a juventude no final dos anos 1960 ou ao longo dos anos 1970 deve se lembrar dos livros de Adelaide. Por muitos anos, e em amplos setores da sociedade, eles corriam de mão em mão, feito Playboy em presídio ou cigarro clandestino. "A adúltera", "Os padres também amam", "Orgia na TV", "O estudante", "Eu e o governador"... Adelaide disputava com Cassandra Rios as vendas para o indistinto público e, em certos períodos, produzia em ritmo industrial. Publicou cinco livros em 1977. Sete em 1980. No total, foram mais de 40 títulos, alguns deles transformados em filmes na Boca do Lixo.

Mais do que o erotismo, seus livros exploravam o escândalo moral e político, o que vestia feito luva em tempos marcados por marchas com Deus, Brasil acima de tudo e hipocrisia de alta intensidade. Quase sempre, sua obra deflagrava protestos dos literatos e dos autoproclamados cidadãos de bem: Escritora maldita, pornográfica, subversiva, diziam alguns. Subliteratura, diziam muitos.

Para o também escritor Marcelino Freire, pernambucano de Sertânia, todo o Nordeste consumiu intensamente as obras de Adelaide. Seu depoimento, assim como um breve panorama da vida e da obra dessa controvertida escritora, que morreu aos 55 anos em 1992, podem ser conferidos em Adelaide, aqui não há segunda vez para o erro (2020, 20 minutos), instigante curta metragem de Anna Zêpa que fica em cartaz até sábado na Mostra de Cinema de Tiradentes. No vídeo, entrevistadas e entrevistados se dirigem à câmera como se falassem com a personagem. Falam de Adelaide como se falassem para ela, auxiliando numa espécie de busca da escritora por conhecer a si mesma, entender a si mesma. Uma redescoberta póstuma.

Outra mulher para encontrar na Mostra de Tiradentes é Dora. Dodora.

"Me colocaram nua numa sala. Cerca de quinze homens da polícia. Depois me colocaram no chão, jogaram um balde de água e continuaram com os choques. Depois um deles pegou uma tesoura, pegou a ponta de um seio e disse que ia cortar o seio".

Não sou eu quem está dizendo. Quem disse isso foi Dora.

Maria Auxiliadora Lara Barcelos, militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), foi presa em 1969, torturada e banida para o Chile em janeiro de 1971. Ela era um dos setenta presos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, sequestrado por membros da Vanguarda Popular Revolucionária (a VPR, de Carlos Lamarca), em dezembro do ano anterior. O golpe no Chile a obrigou a migrar para a Europa, onde se estabeleceu na Berlim Oriental e, tragicamente, se suicidou em 1976, lançando-se sobre os trilhos do metrô no exato momento da chegada da passagem do trem.

Conhecemos Dora pelas mãos de Sara. Mãos, lábios, voz, gestos, lágrimas e entranhas. Sara Antunes, atriz, embarcou na história de Dora há quase cinco anos. Em 2018, deu voz à guerrilheira no longa Alma clandestina, de José Barahona. Não desgrudou mais da personagem. No curta De Dora, por Sara (2020, 14 minutos), ela nos brinda com um delicado ensaio fílmico, poético, íntimo e, em muitos aspectos, dilacerante, criado a partir das cartas que Dora enviou para sua mãe, do presídio de Bangu, no Rio, e também de Santiago e de Berlim. Fortemente psíquico. E estético.

Está tudo ali. O sorriso franco da bela guerrilheira, capturado num vídeo caseiro dos anos 1960. Os ideais. A tortura por afogamento. As situações limítrofes. A tristeza que, na Alemanha, roubou-lhe a vida que a tortura deixara escapar. Dora transborda.

Sara, a atriz e diretora, é filha da geração de meia-oito. Sua mãe nasceu no mesmo ano de 1945 e na mesma Minas Gerais de Dora. Seu pai, ex-padre progressista, viveu no exílio na Europa e na África e só retornou ao Brasil após a lei da anistia. No curta, Sara percorre um caminho que é de descoberta e também de homenagem a Dora. Conhecer para contar. Contar para não esquecer.

Em março, a Dora de Sara chegará ao teatro. Teatro remoto, em tempos pandêmicos. Maravilhoso resgate de uma personagem que integrou os movimentos de resistência contra a tirania e o arbítrio e, sobretudo, tratou de registrar as memórias do cárcere e da violência de Estado em depoimentos, vídeos, entrevistas e textos. Mulheres como Dora e Adelaide, rebeldes e revolucionárias, nos permitem lembrar que é necessário ir além. Que bom encontrá-las, vivas, na paisagem sempre inspiradora de Tiradentes, mesmo que, desta vez, pela tela do computador.

Tanto o filme de Anna Zêpa quanto o filme de Sara Antunes ficam disponíveis, gratuitamente, até este sábado (30) no portal oficial da Mostra de Cinema de Tiradentes.