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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um bando de lóki e o povo cada vez mais down

Criança na escola pandemia coronavírus - iStock
Criança na escola pandemia coronavírus Imagem: iStock
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

04/03/2021 03h43

1.910. Parece um ano longínquo, quase-romântico, em que nasceram o sambista Noel Rosa, o "pai dos burros" Aurélio Buarque de Holanda e o alvinegro Sport Club Corinthians Paulista. O significado do número, no entanto, é outro. Não se trata de um ano, mas do número de mortes por Covid-19 registrado em apenas 24 horas no Brasil, na quarta-feira (3/3), segundo o Conselho Nacional de Secretários de Saúde.

1.840 parece outro ano, ainda mais distante, do tempo em que o arco-íris era preto e branco e o golpe da maioridade garantia o reinado de um mancebo de 14 anos chamado Dom Pedro II. Mas é somente o número de vítimas fatais do novo Coronavírus, registrado nas mesmas 24 horas por outra contagem, feita pelo consórcio de veículos da imprensa.

Seja 1.840 ou 1.910, o número de óbitos é recorde e segue em expansão. Se ontem morria uma pessoa por minuto, hoje a média já baixou para 45 segundos. Isso significa que, desde o início deste texto, pelo menos um brasileiro já morreu.

Enquanto isso, na Terra do Nunca, o presidente que não quer crescer se regozija. "Por que está morrendo menos gente aqui?", perguntou a seus asseclas no início da semana, numa lamentável comparação com os Estados Unidos, único país que supera o Brasil em número de mortes, disposto a colocar o retumbante sucesso na conta da cloroquina. "Tem outros países, com IDH, renda e orçamento melhores que o meu, em que morre mais gente", festejou, após informar a claque que o país era o 20º colocado no triste ranking das mortes por 100 mil habitantes. Pois o gráfico divulgado nesta semana pela Universidade Johns Hopkins, de Baltimore, mostrou que o Brasil está em 11º, e não mais em 20º. Não bastasse, já são duas as pessoas mortas enquanto você lê esta coluna.

E o que Bolsonaro tem feito em relação a isso? Bom, é difícil afirmar. Há quem diga que ele não faça nada, e, justamente por isso, existam precedentes para julgá-lo nos tribunais. Quando faz alguma coisa, costuma ser pior. A primeira reação é reclamar da imprensa. "Para a mídia, o vírus sou eu", queixou-se. Ponto pra mídia. Em seguida, numa cajadada só, proibiu os Estados de promover campanhas regionais de vacinação em caso de inoperância da União e vetou proposta de lei que autorizaria a Anvisa a aprovar em até cinco dias a compra e a distribuição de vacinas já aprovadas por autoridades sanitárias estrangeiras. Para que a pressa, não é mesmo?

Enquanto boicota as campanhas de imunização e mantém o avatar de garoto propaganda de medicamentos, como se a imunidade de rebanho tivesse funcionado por aqui e os tais remedinhos tivessem alguma eficácia comprovada, o governo federal enviou a Israel uma delegação liderada pelo chanceler Ernesto Araújo para conhecer e buscar um tal spray divino, a última tecnologia em combate à Covid-19. "Parece que é milagroso", afirmou o menino maluquinho sobre mais um produto com toda pinta de ser outro elixir tabajara. Por fim, desistiu de discursar em cadeia nacional e se deu por satisfeito ao marcar posição contra o isolamento. "De novo a política do 'fique em casa'", ironizou. "O pessoal vai morrer de fome, de depressão?"

No mesmo dia, a angustiante quarta-feira dos 1.910 casos, o governador de São Paulo anunciou medidas mais restritivas de isolamento no Estado a partir do sábado (6/3). Lockdown? Que nada! João Doria manterá abertas não apenas as escolas, uma reivindicação de muitos paulistas com base no princípio do direito à Educação, mas também as igrejas e, acredite, as academias de ginástica, reeditando a fórmula do "isolamento para inglês ver" testada e reprovada no ano passado.

Já o ministro da Saúde, general Pazuello, falou publicamente em "cuidados individuais" logo após o anúncio do número recorde de óbitos. Ou seja: nada de acelerar a campanha de vacinação ou adotar medidas rigorosas de circulação. Para quê? Cada um que cuide de si, eis a fórmula do sucesso. Loucura, loucura, loucura.

De onde menos se espera, dali é que não vem nada, mesmo. E lá se vão quatro brasileiros mortos enquanto você lia isso aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL