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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Larga essa máscara e vem celebrar a Revolução!

Oficial faz vigília durante a ditadura militar  - © DR
Oficial faz vigília durante a ditadura militar Imagem: © DR
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

01/04/2021 00h01

— Puxa, 57 anos já?

— Pois é. Passa rápido.

— Parece que foi ontem.

— Você é moço, não deve se lembrar, mas eu me lembro como se fosse ontem. Quis pular no pescoço do Mourão, o outro. Precipitou tudo e nem pra contar...

— Mas ele sempre foi assim. Come quieto. Combinou só com a turma dele.

— Só sei que aquele dia foi demais. A UNE já amanheceu destruída. Quando os tanques cercaram a Cinelândia, parecia cortejo de trio elétrico com a seleção trazendo a taça. As pessoas iam até a janela, se aproximavam para ver.

— Eu lembro de ouvir no rádio. E de ver nos jornais. O pessoal todo comemorando. "Ressurge a democracia" foi o título do editorial do Globo. Grande dia.

— Você queria o quê? O maricas do João Goulart deu no pé.

— Foi aquele fuzuê no Congresso. Disso eu me lembro bem. O pessoal do PTB e os comunistas pareciam barata tonta.

— Eram os reis do mimimi. Que nem os petistas hoje. E essa galera do Psol, que não para de encher o saco por causa da Marielle. Porra, a moça foi se meter com o que não devia e morreu, pronto, acabou. Vai ficar fuçando, revirando, remexendo?

— Um deles, como era mesmo o nome? Um deles tentou agitar na Rádio Nacional, dizer que a Presidência não estava vaga coisa nenhum, que era preciso defender a legalidade.

— Ih, teve um monte. Essa turma não aprende nunca. É a mesma esquerda que hoje fala em lawfare, em estado democrático de direito, em suspeição do Moro e em direitos humanos.

— Mas esse que eu tô dizendo ganhou até busto na Câmara e o escambau. Tem filho escritor.

— Eu sei quem é. É Rubens sei lá do quê. Um desqualificado, um subversivo. Tinha uma ficha extensa. Movimento estudantil, "o petróleo é nosso" e o cacete. Se fodeu.

— Antes ele do que eu.

— A verdade é que o nosso pessoal não brincava em serviço, talquei? Aquele era um governo de macho.

— Mas tinha que ser assim. O Brasil ia virar o quê, uma república soviética?

— Uma Cuba, aquela merdinha. Se o Exército não fizesse nada, dali a pouco vinha reforma agrária, nacionalização das refinarias... Estatizavam tudo, até a Sears!

— Vixe.

— O pior é que, se aquelas reformas do Jango acontecessem, logo ia ter pobre nas universidades, boia fria cultivando nas próprias terras. Empregada doméstica ia querer hora extra, décimo-terceiro. Imagina se resolvem fazer um sistema público de saúde, com atendimento hospitalar e vacinas pra todo mundo, já pensou?

— Deus me livre.

— Ainda bem que nossa gente resolveu agir. E em pouco tempo pôs ordem na casa. Essa mania de querer mudar as coisas, transformar, isso não dá certo. Deixa a política, os empresários e o Brasil do jeito que está. Em time que está ganhando, não se mexe.

— Brasil, ame-o ou deixe-o, lembra?

— E tá errado? Não fosse assim, sabe-se lá o que seria de nós.

— É, mesmo. Sabe-se lá o que seria do país.

— Eu me referia a nós.

— Também.

— Não é nada, não é nada, você sabe o quanto aqueles anos foram valiosos para as nossas famílias.

— Ô, se sei. Foi um milagre econômico.

— Era um país que ia pra frente. Os patriotas sabiam o que precisava ser feito. Arregaçavam os braços, queriam fazer parte do novo Brasil. Lembra do Boilesen?

— O presidente da Ultragrás?

— Esse. Sabia que ele ajudou a equipar a Oban, patrocinou nossos esforços? Um santo.

— Estive com ele diversas vezes lá. Ele gostava de ir ver a gente trabalhar.

— Bons tempos. Depois o Regime perdeu a mão.

— Exagerou, você acha?

— Tá maluco? Ao contrário! Perdeu o pulso. Ficou muito molenga. Até o Médici, estava indo muito bem. Depois, dispersou demais, ficou sem foco. Aquele jornalista, por exemplo.

— Aquele da TV, o judeu?

— Aquilo foi um erro.

— O suicídio?

— Foi um erro ter ficado só nele, porra. Foi um erro não ter matado uns 30 mil!

— Calma, fala mais baixo...

— Ah, tenha dó. O cala-boca tinha que ser geral, pra pacificar o país. Onde já se viu jornalista publicar o que bem entende? E artista, então? Música de protesto, roupa de protesto... Bando de filho da puta. Ora, não está satisfeito, cai fora. Cai fora! Porra, os incomodados que se mudem, não é assim?

— Deveria.

— No Brasil, não. Nego fala o que quer, escreve o que quer, canta o que quer, ensina o que quer. Uma putaria. Depois acha ruim quando vai parar na ponta da praia. Ou quando bate o carro na saída do túnel de São Conrado.

— Mas, olha, tem vez que eu penso nos estudantes. Parte deles tinha 19, 20 anos.

— São os piores! Tudo aliciado pelo alto comando da subversão. Rostinho de criança só pra despistar. Ninguém dorme em serviço, não. Melhor cortar o mal pela raiz. Não pode dar liberdade para essa gente. Sem ordem não tem progresso. Não dá pra fazer vista grossa. Tem que partir pra cima!

— Você apoia a censura?

— Porra, é fundamental. Sempre foi. Mas não é censura, é ordem, limite, vergonha na cara. Se não, vira esculhambação. Um arrombado chega, faz um filme sobre o Marighella e ganha prêmio em festival. A outra grava sei lá o quê em vertigem e vira finalista no Oscar. Vai pro inferno!

— É um absurdo.

— Quer ver? Me responde com sinceridade: você acha que um governo sério teria deixado aquele jornalista inglês publicar aquelas conversas pessoais da Lava Jato? Sem falar que ele ainda por cima é... bom, deixa pra lá. Sinceramente, tem que dar uma sova nesses caras. Extraditar, prender, sei lá. E aquela outra, que queria dar o furo? Além de denunciar o esquema das fake news ela ainda acabou ganhando uma indenização! Vê se pode, um presidente da República indenizar uma jornalista. Isso aqui é uma várzea.

— No nosso tempo não era assim.

— Ah, mas não tem nem comparação. As concessões de TV e de rádio, tudo distribuído do jeito certo, para empresário nacionalista, cidadão de bem. Não tinha essa baixaria.

— Pois é.

— Agora me diz: não é pra celebrar a Gloriosa? Tem mais é que celebrar, sim!

— Ôpa!

— E celebrar gostoso. Aglomerar geral, sem essa merda de máscara, de isolamento, essa porra toda. E preparar a volta.

— Que volta?

— Ué, assim que pintar uma chance, tem que correr atrás do prejuízo. Imagina se fosse o Médici agora. DOI-Codi funcionando, Ustra...

— Fleury...

— É isso. Aquele tempo tem que voltar. Espera só passar a pandemia.

— Demorô.

*

Esta é uma crônica de ficção.

Mas poderia não ser.

Se você conhece alguém que pense desse jeito e diga essas coisas, fique longe. É cilada.

É preciso estar atento e forte.

Ditadura, nunca mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL