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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Novo filme sobre o impeachment da Dilma estreia em festival politizado

Dilma Rousseff em cena do filme "Alvorada", de Anna Muylaert e Lô Politi  - Divulgação
Dilma Rousseff em cena do filme "Alvorada", de Anna Muylaert e Lô Politi Imagem: Divulgação
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

08/04/2021 11h15

Além do documentário "Alvorada", de Anna Muylaert e Lô Politi, a coluna assistiu em primeira mão ao longa "Paul Singer: uma utopia militante", de Ugo Giorgetti

A 26ª edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade começa nesta quinta-feira (8/4) nas plataformas digitais com acesso gratuito, muito conteúdo político e um profundo compromisso com o registro da verdade histórica. A programação inclui uma retrospectiva da obra do cineasta Ruy Guerra, que também fará uma master class; uma série de filmes sobre Caetano Veloso e a Tropicália, incluindo o recente Narciso em férias, de Ricardo Calil e Renato Terra, que aborda a prisão e o exílio do cantor em Londres; uma homenagem ao inventor (ou decodificador) dos filmes-ensaios, o francês Chris Marker, no ano de seu centenário; e uma boa coleção de documentários comprometidos com o enfrentamento das grandes questões atuais: dos atentados à democracia à distopia em tempos pandêmicos, passando pela questão ambiental.

Outro escaninho especialmente relevante na programação deste ano é integrado por filmes que dialogam com a ditadura militar no Brasil. Um dos filmes trata da campanha "ouro para o bem do Brasil". Outro narra a fundação do jornal "O Sol" - aquele que, segundo a canção, enchia Caetano de alegria e preguiça (quem lê tanta notícia?). Há ainda um documentário sobre o compositor Paulo César Pinheiro - "você corta um verso, eu escrevo outro / você me prende vivo, eu escapo morto" - e outro sobre a trajetória do Teatro Oficina, de Zé Celso, além do ousado Os arrependidos, que relata a sina dos militantes de esquerda que foram presos e torturados até se declararem arrependidos e virarem armas de propaganda ideológica dos mesmos ditadores que buscavam derrotar.

Assisti a dois filmes na tarde de ontem, ambos com exibição prevista para a próxima semana. Anna Muylaert, de Que horas ela volta?, dirigiu com Lô Politi o filme Alvorada, em que acompanha os últimos dias de Dilma Rousseff no Palácio. Ugo Giorgetti, de Boleiros, é o diretor de Paul Singer: uma utopia militante, espécie de autobiografia em vídeo, baseada em longas entrevistas com amigos, amigas, familiares, e com o próprio protagonista, o renomado professor de Economia, um dos pais do orçamento participativo e da economia solidária.

Alvorada é mais sensorial. Paul Singer: uma utopia militante é mais verbal. Alvorada é mais intimista, emocional, reunindo flagrantes prosaicos num ambiente nada prosaico. Paul Singer é explanação didática, racional e engajada, sempre de olho na construção do futuro, exatamente como seu protagonista.

Dilma Rousseff, para quem a expressão "que horas ela volta?" cairia muito bem nestes tempos em que o resultado de sua cassação está aí para todos verem, resume o papel dos documentários, e desse em especial, numa de suas primeiras falas exibidas no filme: "Nós temos bastante clareza do que é deixar marcado para a história este momento", ela diz, referindo-se aos seus pronunciamentos e, por extensão, à permissão de se deixar filmar em momentos extraordinários como aqueles. "Tudo que nós fazemos tem uma parte que é o presente e tem uma parte que é o registro e a memória histórica desse período".

Alvorada é um filme que provoca desconforto. Virtualmente, em qualquer espectador. Em quem apoiou o impeachment, o desconforto se dá por ver desnudada a fortaleza ética de uma presidente nitidamente golpeada e, exatamente por isso, muito convicta de sua honestidade, sua seriedade e do absurdo da narrativa criada contra ela e seu governo. Para aqueles que denunciavam o golpe, o desconforto adquire outros matizes: um esforço constrangedor em manter o humor no ambiente do palácio, em sorrir, em aplaudir a defesa do ex-ministro José Eduardo Cardozo quando se sabia totalmente inócua, em brindar entre companheiros após a fatídica sabatina no Senado que selou seu afastamento definitivo. Os muitos silêncios que se sucedem ao longo do filme potencializam essa sensação. Enquanto a história transcorria pelas frestas, a rotina do palácio se impunha, como quem revela que estará sempre ali, não importa o nome ou o pedigree de seu inquilino. Cozinheiros preparam refeições, jardineiros regam canteiros, empregados carregam cadeiras, lustram corrimãos e resolvem um problema no espelho d'água.

O filme é todo circunscrito ao Palácio da Alvorada, e este é, conceitualmente, um detalhe que influencia sobremaneira o tom que se buscou conferir ao vídeo. Dilma vive numa espécie de ilha. Ela está cercada. O palácio é transformado num bunker modernista de amplas janelas. A equipe montada para defendê-la, ali representada pelo ministro José Eduardo Cardozo e um casal de assessores, o advogado Gabriel Sampaio e a economista Esther Dweck, reúne-se numa das salas do palácio para elaborar o texto da sustentação, tarefa que se estende pela madrugada. Quando Dilma deixa o palácio para ir falar no Senado, as câmeras permanecem naquele microcosmos, gravando a reação dos funcionários que assistem à defesa de Dilma pela televisão. "Hoje eu só temo a morte da democracia", ela diz. Ansiosa e aflita, sua gente leva as mãos à boca, abaixa a cabeça, emudece, lacrimeja. "Não tenho dúvida de que seremos todos julgados pela história", a presidente decreta, amaldiçoa, vaticina.

Paul Singer é, em todos os sentidos, um filme mais discreto e sereno. Não há ansiedade, tampouco a iminência da queda. São muitos os traços que aproximam um filme e outro, aliás. Tanto Paul quanto Dilma são economistas, ambos militantes, ambos sobreviventes. A propósito, Paul integrava o governo Dilma, como secretário nacional de Economia Solidária, secretaria extinta por Michel Temer logo após o impeachment, em 2016. Morreu em abril de 2018.

Judeu nascido na Áustria, em 1932, Paul Singer descobriu o Brasil quando atracou em São Paulo com a mãe, em 1940, fugindo do nazismo. Foram 23 dias no mar, a última viagem feita por um navio europeu trazendo exilados ao Brasil antes de ser deflagrada a Segunda Guerra. Numa das saborosas histórias narradas por Singer no filme, ele revela sua lembrança mais íntima do dia em que as tropas de Hitler marcharam pela primeira vez sobre as ruas de Viena, em 1938. Conta que viu os amigos agitando bandeirinhas para saudar os invasores, como numa grande recepção de boas-vindas, e foi pedir à mãe uma bandeirinha para fazer o mesmo. "Você não vai saudar ninguém", ela respondeu. E como ele insistisse em saber o motivo, ela explicou: "Porque você é judeu". Aos 6 anos de idade, Paul Singer soube pela primeira vez o que aquilo significava.

Na adolescência, já em São Paulo, integraria um grupo de judeus socialistas, começando assim a ler O Capital e a se aprofundar no conhecimento do marxismo e do socialismo científico, ao mesmo tempo em que se formava como eletrotécnico e flertava com o sindicalismo, no comecinho dos anos 1950. Só mais tarde, em 1958, ele ingressou no curso de Economia da USP e, por obra do destino, formou um grupo de estudos do Capital junto com professores que divergiriam de seus ideais pouco tempo depois, como Fernando Henrique Cardoso e José Arthur Giannotti. Giannotti é um dos entrevistados do documentário. Delfim Netto também está lá, bem como o bispo Dom Angélico Sândalo Bernardino, os deputados Eduardo Suplicy e Luiza Erundina, professores da USP e outros profissionais que aderiram ao grande projeto da economia solidária, catadores e catadoras, e seus três filhos: o cientista político André Singer, a socióloga especializada em Educação Helena Singer, e a jornalista Suzana Singer.

Rever Dilma Rousseff e Paul Singer em pleno 2021 é reencontrar a coerência e a utopia. Uma utopia militante, como diz o título do filme sobre Paul, emprestado de um de seus livros. Um bom começo para mergulhar nesta edição do festival É Tudo Verdade.

Alvorada será exibido na terça-feira, dia 13, às 21h, com reprise na quarta, 14, às 15h, na plataforma Looke.

Paul Singer: uma utopia militante ficará disponível do dia 11 ao dia 18 na plataforma Sesc Digital.

A programação completa você encontra aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL