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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

No caminho com Alípio Freire

Alípio Freire participa de audiência pública da Comissão da Verdade Rubens Paiva, em 2013 - José Antonio Teixeira/ALESP
Alípio Freire participa de audiência pública da Comissão da Verdade Rubens Paiva, em 2013 Imagem: José Antonio Teixeira/ALESP
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

22/04/2021 16h59

— Liga pro Alípio.

Foi Alice quem me pautou, sem explicar direito. Minha professora, Alice Mitika Koshiyama era assim, talvez ainda seja - faz muitos anos que não a encontro. Capaz de ficar horas em torno de um assunto quase banal, um detalhe, e outras vezes passar batido, economizando palavras que fariam toda a diferença. Ou, talvez, dialogasse comigo como se estivéssemos na mesma página, no mesmo ponto da caminhada. Como se eu, bolsista do Boletim da Cidadania, o órgão de divulgação científica do núcleo que ela coordenava, tivesse mais do que meus 17 anos ou, por motivos aparentemente óbvios, tivesse a obrigação de saber mais do que eu sabia, conhecer mais gente, dominar mais assuntos. Foi assim quando ela me falou do Alípio, naquela tarde de 1997. E do livro sobre o Tiradentes.

— Fala com o Alípio. Você tem o telefone dele?

— Não.

— Eu te passo.

— Beleza. Ele escreveu sobre o Tiradentes, é isso?

— Está lançando um livro lindo, organizado por ele junto com o Izaías e o Granville.

Aluno do primeiro ano de Jornalismo, eu não conhecia nenhum dos três. Nem de ouvir falar. Sabendo de quem sou filho, Alice ficaria surpresa. Meu pai certamente os conhecia, e bem. Havia tanta intimidade em sua fala que os nomes eram todos citados assim, sem os complementos. Precisei olhar a capa do livro para saber nomes e sobrenomes: Alípio Freire, Izaías Almada, José Adolfo de Granville Ponce. Eu tateava no escuro.

Não bastasse meu desconhecimento em relação ao Alípio, tinha certeza de que o tal livro abordaria as lutas e o legado de Joaquim José da Silva Xavier, o cara da Inconfidência Mineira, o alferes enforcado em praça pública, libertas quae sera tamen. Natural. Que outro Tiradentes poderia haver? Ainda assim, havia algo suspeito, uma força estranha no ar. Será que estamos falando a mesma língua? Adotei a única estratégia de autodefesa que eu conhecia: fiquei mudo e dei um jeito para que Alice desenvolvesse um pouco mais aquela pauta.

— Ótimo, eu ligo pra ele — respondi. — E o que você acha mais importante de destacar?

Pronto. Bastou para a querida Alice engatar meia hora de prosa sobre o Tiradentes, que, afinal, não era o mártir da Independência, mas um presídio, talvez o mais emblemático presídio político dentre todos os que foram ocupados por aqueles que resistiram à ditadura militar no Brasil. Aliás, que baita sacanagem dar o nome de Tiradentes a um presídio. Olhando em perspectiva, parece uma forma de trollar os condenados. "Tu pode lutar à vontade por liberdade, seu meliante, igualzinho o xará mineiro do xadrez, mas não vai adiantar porra nenhuma".

Alípio passara uma temporada no Tiradentes. Nascido num dia 4 de novembro, ele estava lá, enjaulado numa das celas, na noite de seu aniversário de 24 anos, em 1969, quando o delegado se aproximou comemorando a execução de Carlos Marighella, o "inimigo público número 1", numa emboscada na Alameda Casa Branca. "Olê, olá, o Marighella se fodeu foi no jantar", o policial cantarolava. Abriu uma Bíblia e tirou de dentro dela fotografias recém-ampliadas que mostravam o corpo do guerrilheiro alvejado, inerte dentro de um fusca. Frades dominicanos, em resposta, entoaram a Internacional.

No Tiradentes, entre 1968 e 1972, estiveram presos Frei Tito, Frei Betto e outros religiosos. No Tiradentes, Dilma Rousseff, Eleonora Menicucci, Rose Nogueira, Rioco Kaiano, Rita Sipahi, Dulce Maia e outras presas ocuparam uma ala que ficou conhecida como Torre das Donzelas. No Tiradentes, meu pai passou parte da sua juventude, talvez a metade dos cinco anos que permaneceu preso, entre 1971 e 1976, dos 20 aos 25 anos. O Tiradentes foi desativado e demolido em 1973. Em 1997, quando saiu o livro Tiradentes, um presídio da ditadura, tudo o que restava dele era um pórtico de entrada, tombado pelo patrimônio histórico municipal, e as memórias, doloridas e inspiradoras, dos quase quarenta autores que participaram com um capítulo.

Entrevistei Alípio por telefone naquela semana. Escrevi sobre o livro. Aprendi muito com ele. Tenho até hoje o exemplar que Alice deixou comigo. Putalivro.

*

A sala do Cine Belas Artes ficou cheia de gente naquela noite. Na tela, o filme Trago Comigo, da Tata Amaral. Por iniciativa do deputado federal Paulo Teixeira, ajudei a organizar uma exibição seguida de bate-papo com a cineasta e meia dúzia de ex-presos políticos em julho de 2016. Para o evento, numa quarta-feira às 20h, havia sido reservada a sala Carmen Miranda, com 96 lugares. Às 19h30, todos os ingressos haviam sido vendidos e havia trinta pessoas na fila de espera, torcendo por alguma desistência. Papo vai, papo vem, conseguimos transferir a sessão para a sala Cândido Portinari, com 274 lugares. Pelo menos 150 pessoas assistiram ao filme e a maioria ficou para o debate.

Terminado o filme, os convidados se acomodaram num banco comprido em frente à tela. Amelinha e Janaína Teles, Rita Sipahi, Rose Nogueira, Anivaldo Padilha e Alípio Freire. Outros companheiros de cárcere e militância permaneceram na plateia. Dois que soube reconhecer foram a Crimeia Schmidt de Almeida e o Aytan Sipahi.

Escutar Alípio era sempre uma experiência inspiradora. Aos 70 anos, barbudo e grisalho, ele parecia um sábio, um profeta. E era. Jamais deixou de ser. Não era somente a aparência física que lhe conferia o aspecto de um mago, com seu porte esguio e os cabelos longos, a marcha cadenciada e tranquila, uma bengala que parecia um báculo, um cajado. Alípio falava num ritmo e num timbre que ajudavam a compor a efígie de guru: um monge tibetano, um xeque do Irã, um druida, um ancião.

Alípio falou do filme da Tata, da sua participação, das experiências na militância e na prisão. Falou, enfim, do Brasil, do mundo, do futuro. Mestres como Alípio sempre falam do mundo e do futuro. Putafilme.

*

Estive com Alípio outras vezes, mas poucas, pouquíssimas. Nos encontramos na Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura e estivemos novamente juntos no lançamento do livro A repressão militar-policial no Brasil: o livro chamado João, também em 2016, numa época em que podíamos chegar perto, abraçar, ouvir samba e tomar cerveja na hospitalidade apertada do Armazém do Campo, na Barra Funda.

Não sei quando estive pela última vez com Alípio. Penso tê-lo visto no velório do Raphael Martinelli, no Hospital Premier, em fevereiro de 2020, três semanas antes de começar o genocídio, mas posso estar enganado. Talvez tenha estado com ele somente dois anos antes, maio de 2018, em outro velório, do Audálio Dantas, nosso companheiro de armas e de profissão, mas posso estar enganado. Provavelmente trocamos algumas palavras em alguma cerimônia de entrega do Prêmio Vladimir Herzog, mas não consigo decidir qual ou quando.

Além de jornalista, Alípio era um contador de histórias. Além de contador de histórias, Alípio era poeta. E os poetas são assim. Eles se aproximam da gente e nos falam ao pé do ouvido mesmo quando não estão aqui de verdade. Os magos também são assim. Como os cegos, sabem ver na escuridão.

Obrigado, Alípio. Continue por perto. Vamos sair dessa por você. Vamos, de mãos dadas, construir uma nova aurora. Putabraço.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL