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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Somam-se-me dias

Nome de Paulo Gustavo é projetado em prédio de São Paulo - Reprodução/Instagram
Nome de Paulo Gustavo é projetado em prédio de São Paulo Imagem: Reprodução/Instagram
Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

06/05/2021 00h01

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto

Álvaro de Campos

Não faz tanto tempo assim, coisa de um ano e meio atrás. A revolta era menor e a paciência, muito maior. Havia medo, é claro. Sempre houve. Medo é companheiro fiel. Mesmo a coragem, essa mãezona, não deve ser entendida como ausência de medo, mas como a disposição para agir apesar do medo. Havia o medo do assalto, da queda, da perda, do diagnóstico, havia o medo da tropa que sobe morro atirando. Mas havia ânimo, motivação, projetos e sonhos. Construção.

Hoje, o tempo se acumula. "Já não faço anos. Duro", dizem os versos de Álvaro de Campos. Não é somente a distância, a saudade interminável, essa quarentena que já virou quatrocentena e segue imprevisível. O que aflige, de fato, é esse futuro suspenso, a falta de perspectiva. Para que fazemos o que fazemos? De que serve tudo isso?

Semana passada teve seminário do grupo de pesquisa. Fechamos mais um boletim. Meu próximo livro vai para a gráfica este mês. Ontem a editora de uma revista acadêmica da área de comunicação me pediu para avaliar um artigo. As aulas das crianças continuam remotas, mas amanhã tem sarau. Sarau por videoconferência, vê se pode. Ainda não comprei presente para minha mãe. Hoje tem live, amanhã não tem. Cadê o filme sobre o Marighella, que não estreia nunca no Brasil? Viva Juliette!

Fingimos naturalidade. Uma forma de evitar a tristeza, provavelmente. "Somam-se-me dias", escreveu Álvaro de Campos, quando nem sequer havia pandemia.

Digitando esta coluna, procrastinando o próximo parágrafo, corro os olhos na timeline de uma rede social, coisa que Felipe Neto recomenda evitar, e me deparo com um post de outro Felipe, o professor de ciências políticas da UnB Luis Felipe Miguel. Estamos alinhados. "O mais difícil", ele diz, "é sustentar a illusio, no sentido de Bourdieu: a crença na importância intrínseca daquilo que estamos fazendo". Ele acrescenta, à guisa de ilustração: "Para que serve publicar artigos, orientar teses, discutir teoria política, num país que caminha alegremente para a barbárie?"

Sua aflição é minha aflição. Para que serve tudo isso? Troco a rede social pela home do UOL e confirmo o estágio calamitoso em que nos encontramos. Lá fora, o presidente dos Estados Unidos propõe a quebra de patente de vacinas, o que permitiria aumentar e acelerar a produção de imunizantes contra o novo Coronavírus. Enfim uma boa notícia. Quem sabe não consigo me vacinar antes do Carnaval? O esboço de sorriso se esvai dois minutos depois. O governo brasileiro - adivinha? - é contra. Sabe por quê? Segundo meu colega Jamil Chade, porque a quebra de patente "minaria a inovação e o interesse das grandes multinacionais".

É impressionante. O time que nos governa é invicto às avessas: não dá uma bola dentro. Aliás, sabe o que Jair Bolsonaro tem feito muito bem? Somar dias.

Ontem foi um dia como tantos outros em Brasília. Mais um repúdio ao lockdown, mais uma ofensa à China, mais uma ameaça ao STF, mais um micropoder exercido com a inteligência e a abnegação que somente os mitos são capazes de demonstrar (contém ironia). Com a altivez que lhe é característica, Bolsonaro tratou, por exemplo, de vetar novos adiamentos para a entrega da declaração do Imposto de Renda. Não se poderia esperar outra coisa dele após o Congresso Nacional sugerir o adiamento até 31 de julho. É preciso ser do contra, contestar. "O Estado sou eu", teria dito o Rei Luís XIV, da França, na virada do século XVIII. "Eu sou a Constituição", emendou Bolsonaro no mês passado.

O adiamento do Leão, que não é o tema desta coluna, faria pouca ou nenhuma diferença à União, mas evitaria, por exemplo, que pessoas saíssem de casa na próxima semana para buscar informes de rendimentos e recibos. A decisão do presidente também obriga os contribuintes a pagar imediatamente aquilo que não foi descontado na fonte, no auge do desemprego e da perda de poder aquisitivo. Para quê?

No dia em que a Covid nos levou Paulo Gustavo, um dos melhores humoristas de sua geração, milhares de internautas, talvez milhões, exercem seu direito inalienável de proferir besteiras, acusando o ator pelo "crime" imprescritível de ter um marido. Autodeclarados cristãos, embora surdos à palavra de Cristo, atacam a orientação sexual do ator, amaldiçoam seus filhos e chegam ao requinte de atribuir sua morte a um hipotético castigo divino. Semeiam a morte e maldizem aquele que só plantou o bem.

A Covid-19 matou aproximadamente 415 mil Paulos Gustavos no Brasil até o momento. São 412 mil Alípios, 412 mil Nicettes. Agnaldo, João Acaiabe, Aldir, o pai da Meire, o tio da Aline. Pessoas que, em suas famílias, em seus trabalhos, em seus grupos de amigos, cuidavam, faziam rir, apoiavam. Eram guerreiros, professores, humoristas, amados e queridos. Não sei se escaparemos nem se, ao escaparmos, terá sobrado muita coisa em meio aos escombros desse país. Ainda assim, seguimos com nossas lives, nossos artigos, alguns de nós trocam de carro, outros fazem planos para as próximas férias.

Na primeira vez que ouvi falar em Greta Thunberg, a jovem ativista ambiental sueca que ficou famosa aos 15 anos por matar aula para se manifestar contra o aquecimento global em frente ao parlamento de seu país, lembro-me de ter lido que sua maior indignação era saber que as pessoas estavam tocando suas vidas, naturalmente, diante de um iminente colapso ambiental. Sua cidade poderia deixar de existir dali a 50 ou 100 anos em razão das mudanças climáticas e a maioria das pessoas continuava tocando o barco como aquilo não fosse o fim da picada, a mais urgente de todas as notícias. Como aquilo podia estar acontecendo sem que os adultos tivessem simplesmente parado de perder tempo com todo o resto para se debruçar exclusivamente sobre aquela pauta, aquele assunto, aquele problema, era o que ela se perguntava - e também a todas as autoridades que ela pôde encontrar.

O que estamos fazendo neste momento, todos nós, em vez de unir forças para afastar quem nos boicota, condenar quem é contra a vida (pelo menos ao ostracismo), quebrar as patentes que houver, produzir todas as vacinas possíveis, usar reservas cambiais e distribuir alimentos que possam aplacar a fome de quem está morrendo, superar, enfim, uma crise humanitária sem precedentes? "Serei velho quando o for", cravou Álvaro de Campos. Serei, mesmo? Seremos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL