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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lembre-se de que Jesus foi um militante dos Direitos Humanos

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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

23/12/2021 00h01

Jesus foi um militante dos Direitos Humanos. A frase está estampada numa camiseta que chegou pelo correio na semana passada. Lembro-me de ter visto esta mesma estampa um ano atrás, vestida por Chico Paiva, neto de Rubens Paiva, numa foto com Padre Júlio Lancellotti. Católico frouxo, com ascendente em Oxalá e a Lua em Kardec, devoto de Dom Helder, Dom Paulo e Dom Pedro, usarei a camiseta com muito gosto. Às vésperas do Natal, penso que, se existe um Jesus que deveria nos inspirar a todos, é este Jesus engajado, terrivelmente ativista, defensor da justiça social e da solidariedade.

É curioso observar como o Natal se transformou em qualquer coisa, menos na celebração do natalício do moleque palestino que, impetuoso e perseguido, acabou transformando o mundo. Virou Dia do Noel. Se alguém é lembrado ou homenageado nesta data, esse alguém é o velhinho nórdico, gorducho e bem agasalhado, de barbas brancas e bochechas rosadas: um simpático isentão que deve sua insuperável popularidade à distribuição indiscriminada de presentes e sorrisos.

Natal é tempo de contrastes. Comemora-se com fartura de carnes e abundância de frutas o aniversário de um parto aflito, pouquíssimo humanizado, que se deu - segundo Lucas - numa manjedoura. Distribuem-se presentes, não mais a mirra e o incenso trazidos por três reis magos - de acordo com Mateus -, mas tablets, headphones, havaianas, kunais do Naruto, air fryers, biografias do Lula e kits de pop it multicoloridos.

Jesus também não é mais o mesmo de dois séculos atrás. Ao longo de toda a Era Cristã, sua imagem foi moldada de modo a emular o colonizador europeu, um príncipe branco de cabelos lisos e olhos azuis, à semelhança de Robert Powell no blockbuster de Zeffirelli ou de Willem Dafoe no clássico profano de Scorcese. Quem assiste a esses filmes ou observa Cristo em sua vasta iconografia - crucificado em altares, coroado em murais renascentistas ou com o sagrado coração para fora do peito em pôsteres fixados em colégios e santas casas - até esquece que o "rei dos Judeus" nasceu no Oriente Médio, viveu na Galiléia, falava aramaico e auxiliava José em sua carpintaria.

Jesus, homem e mito, não tinha nada de príncipe. Tampouco de Papai Noel. Trabalhador sem terra, operário da construção civil, peregrino, jurado de morte, Jesus colecionou privações e ousou divergir dos poderosos enquanto elaborava sua teologia do amor e da fraternidade. Foi, antes, um militante dos Direitos Humanos.

Jesus foi um militante dos Direitos Humanos ao nascer pobre, em condições insalubres, e vingar, perseverar, contrariando as estatísticas.

Jesus foi um militante dos Direitos Humanos ao ser eternizado como refugiado. Segundo Mateus, foi preciso que José e Maria fugissem com ele para o Egito a fim de escapar da fúria do rei Herodes. Preposto do imperador romano na Judéia, Herodes ordenara a seus soldados que corressem o país e sacrificassem todas as crianças de até 2 anos, porque os reis magos, na volta de Belém, lhe informaram, com entusiasmo, que havia nascido o futuro "rei dos judeus" - ou seja, aquele que, um dia, iria destroná-lo. Assim que souberam das intenções do genocida, José, Maria e Jesus pegaram a estrada rumo a Sudoeste e cruzaram a fronteira com o Egito. Se tivessem encontrado um muro na divisa, ou uma polícia alfandegária disposta a extraditá-los em vez de acolhê-los, Jesus teria encerrado sua carreira antes mesmo de realizar o primeiro milagre.

Jesus foi um militante dos Direitos Humanos ao denunciar a corrupção, os falsos profetas, os vendilhões do tempo, a usura praticada por aqueles que utilizavam o espaço da igreja para fazer negócio e roubar a população.

Jesus foi um militante dos Direitos Humanos ao acolher a diferença. Estendia a mão aos hansenianos, era amigo das prostitutas, acolhia os aflitos, os adoecidos, os desajustados.

Jesus foi um militante dos Direitos Humanos ao perpetrar o maior dos mandamentos, o amar uns aos outros, que precedeu a opção preferencial pelos pobres, a teologia da libertação, a economia solidária de que fala Papa Francisco.

Jesus foi um militante dos Direitos Humanos ao multiplicar os peixes e reparti-los, ao combater a fome e promover a vida - o mais fundamental dos direitos.

Neste Natal, vale a pena espalhar essa boa-nova. Principalmente para quem anda por aí com ódio no coração e nariz arrebitado - certamente para fora da máscara - destilando preconceitos e adorando um outro Deus, um outro Jesus, que nada tem a ver com o Jesus dos oprimidos, da igualdade, da justiça e dos Direitos Humanos.

Este colunista entra em férias na próxima semana e voltará a publicar em fevereiro. A todas e todos, um 2022 melhor que 2021.