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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um novo globo para meus filhos

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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

03/03/2022 00h07

O planeta dos meus filhos estragou. Desbotou. Quebrou a haste que o sustenta e o faz girar. Já não se percebem as fronteiras dos países nem se decifram os nomes da maioria das capitais. Parece que o mundo, conforme eles conheceram, já deu o que tinha que dar.

Lembro-me do dia em que ele chegou, trazido pelo Jerônimo, meu quase-primo, na primeira visita dele ao Daniel. Não sei se meu filho já tinha completado 1 ano ou nem isso. Ecólogo, atento aos cuidados que devemos ter com nossa "casa" comum, Jerônimo, hoje um dos maiores especialistas em mel de abelhas do país, acertou em cheio no mimo. Conforme o Dani crescia, o globo manteve-se sobre a escrivaninha de seu quarto - onde permanece até hoje - e foi nosso companheiro em muitas aventuras.

Naquele globo, aprendemos que a Terra é esférica - o que deveria ser ponto pacífico desde Aristóteles, no século IV a. C. - e fomos além. Observamos que do outro lado do Atlântico está a África, que África não é um país, mas um continente (país é a África do Sul, onde viveu um cara chamado Mandela, que aparece naquela camiseta do papai). Reparamos que o Brasil é quase tão extenso quanto toda a Europa. Desenhamos com o dedo e a imaginação o caminho percorrido por Pedro Álvares Cabral e também a rota do Marco Polo, aquele italiano que foi às Índias. Descobrimos que a casa do tio Chico, no Sul da Bahia, está a três dedos de distância de São Paulo (e talvez por isso demore três dias de viagem), e que faz noite no Japão quando está claro no Brasil porque o Japão está do outro lado do mundo (aproximei uma bola de basquete para fazer o papel do Sol nessa hora).

De uns tempos para cá, minha filha também anda investigando as dimensões do globo. Tem tanta água no mundo, a Bruna reparou, que talvez não devêssemos chamá-lo de Terra. Achou engraçado quando eu contei que, na casa do tio Chico, na Bahia, o Sol nasce mais cedo do que em São Paulo - e mostrei como a rotação funciona. Mas, em geral, é o Dani quem mais frequentemente aparece com alguma dúvida ou alguma descoberta sobre o planeta-água. Mesmo desbotado, puído, manchado e com a haste quebrada.

Nas últimas semanas, suas observações foram se tornando mais instigantes, detalhistas e capciosas. Os países do Norte são mais "famosos" do que os do Sul. O aquecimento solar faz o nível do mar subir porque o gelo dos polos derrete (será que algumas cidades vão desaparecer como aconteceu com a Atlântida, papai?). Os Estados Unidos têm uma parte separada, lá em cima, que parece outro país, o Alasca. E o Alasca, ele me contou, era da Rússia antes de ser dos Estados Unidos, então a Rússia estaria ao mesmo tempo em três continentes, não é louco? Sim, filho, é louco.

Nossa, como a Rússia é grande, papai! Pensei com meus botões que ele não sabe da missa a metade, nascido muitos anos depois do fim da União Soviética. Que coisa mais cringe lembrar-se do Gorbachev e de quando o noticiário da TV explicava a Perestroika.

A Rússia virou assunto lá em casa, assim como na escola. Rússia e Ucrânia. Na semana passando, assistindo ao jornal, Dani fez alguns cálculos de cabeça e anunciou: sei os nomes de dezoito capitais. Declinou todas, recitando os nomes dos países e das respectivas capitais. Kiev era uma delas.

Kiev. Confesso que passei dos 40 sem saber o que era Kiev. Tampouco saberia indicar no globo desbotado a localização da Ucrânia. Meu filho, aos 10 anos, sabe onde fica e até a distância que separa Kiev de Moscou. Penso que tinha exatamente a idade dele quando aprendi, forçosamente, o nome e a localização de um país sobre o qual jamais havia ouvido falar, o Kweit. E por razões muito parecidas. No ano seguinte, descobri Bagdá e aprendi o que significava golfo - mais extensa do que uma baía, mais fechada do que uma enseada. Levaria mais alguns anos até juntar os fragmentos de três décadas de História, associar a Guerra Fria com as crises do petróleo e a formação da OTAN, me habituar a nomes de xás e aiatolás, coisa que eu aprenderia somente em meados dos anos 1990, com o auxílio do Jorge, meu professor de Geografia do terceiro ano. Cabra bom, o Jorge. Paraninfo da nossa formatura.

Tem algo de muito errado no globo dos meus filhos. Eles precisam de um globo novo, uma esfera mais nítida, mais agradável, mais colorida. Um outro mundo é possível. Que a gente consiga substituir o planeta encardido que eles decifram hoje por uma bola mais atraente, vibrante, alvissareira. E que esse novo globo, ora revigorado, encontre guarida e afeto nas mãos zelosas dos adultos de amanhã. Antes que eles se acostumem. Antes que seja tarde.