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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro tem razão: jornalista inglês cometeu 'aventura não recomendável'

16.nov.2019 - O jornalista Dom Phillips conversa com indígenas da aldeia Maloca Papiú, em Roraima - JOAO LAET/AFP
16.nov.2019 - O jornalista Dom Phillips conversa com indígenas da aldeia Maloca Papiú, em Roraima Imagem: JOAO LAET/AFP
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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

09/06/2022 17h06Atualizada em 09/06/2022 17h15

Enquanto escrevo esta coluna, tem um jornalista inglês desaparecido na Amazônia.

Dom Phillips vive no Brasil desde 2007, é casado com uma brasileira, escreve para o Guardian e prepara um livro sobre a Amazônia. Como repórter, já colaborou para os jornais norte-americanos Washington Post, The New York Times e Financial Times. Seu último contato com a esposa aconteceu na quinta-feira (2), a caminho de uma área sem sinal de celular. Phillips prometeu que telefonaria no domingo, o que não aconteceu.

Phillips não estava só. Adentrava a terra indígena Vale do Javari, onde o Amazonas se aproxima do Peru, junto com o indigenista Bruno Pereira, servidor da Funai e exímio conhecedor da região. Por mais de uma década e até recentemente, Bruno foi o coordenador regional da unidade da Funai que abrange a área que a dupla iria visitar. Em 2018, assumiu a coordenação-geral de Índios Isolados e Recém Contatados. Após a eleição de Bolsonaro e mudanças ocorridas no órgão, Bruno seria exonerado da coordenação, em outubro de 2019. Seu remanejamento para a sede da Funai, em Brasília, teria atendido a interesses de madeireiros e garimpeiros da Amazônia.

No último domingo (5), a esposa de Phillips não recebeu o telefonema prometido. No mesmo dia, a dupla teve os últimos movimentos rastreados via satélite, quando navegavam pelo Rio Itaquaí. Desde então, e até a tarde desta quinta-feira (9), nenhuma comunicação foi feita.

Ativistas acusam as autoridades (supostamente) competentes de resistir à intensificação dos trabalhos de busca - e atribuem o envio de lanchas e helicópteros à pressão exercida pela imprensa internacional e por movimentos como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil.

"Aventura não recomendável"

Na terça-feira (7), quando a notícia finalmente ganhou repercussão, Jair Bolsonaro comentou o desaparecimento de Dom Phillips e Bruno Pereira em entrevista ao SBT. "Duas pessoas num barco numa região daquela, completamente selvagem, é uma aventura que não é recomendável que se faça", disse o presidente. "Tudo pode acontecer. Pode ser um acidente, pode ser que eles tenham sido executados."

O vídeo está disponível no UOL.

Dois aspectos chamam atenção na declaração presidencial. Um deles é o tom resignado, de absoluto conformismo, com o qual Bolsonaro sugere a hipótese de execução. É como se dissesse: faz parte do jogo. Faz lembrar declarações anteriores da mesma lavra, igualmente jocosas, que demonstram reiteradamente seu já notório desprezo pela vida. "E daí? Quer que eu faça o quê?" "Não sou coveiro." "Todos nós vamos morrer um dia." Nenhuma indignação, nenhuma revolta. Nenhuma capacidade de se comover ou se solidarizar. Nem mesmo um protocolar "não pouparemos esforços".

O outro aspecto é a teimosa, reincidente e covarde capacidade que Bolsonaro tem de responsabilizar a vítima. Na entrevista ao SBT, ele reage quase de forma automática no sentido de atribuir culpa à dupla desaparecida. Quem mandou se meter onde não devia? Por que estavam apenas os dois? Suas acusações são irmãs siamesas do inaceitável "quem mandou se vestir desse jeito?", do perverso "isso são horas de uma moça direita andar sozinha na rua?"

Existe lógica nessa argumentação. Uma lógica igualmente perversa. O que o presidente da República diz, sem dizer, é basicamente o seguinte: não se metam com madeireiros, garimpeiros, caçadores, desmatadores e ninguém que esteja cometendo qualquer tipo de crime na Amazônia, porque vocês vão se dar mal.

Duas semanas atrás, um homem negro foi assassinado em Sergipe após ter sido torturado por agentes da Polícia Rodoviária Federal. Os policiais prenderam Genivaldo de Jesus Santos no porta-malas da viatura e borrifaram gás de pimenta até matá-lo por asfixia. "Não podemos generalizar tudo o que acontece no Brasil", disse o presidente. "A PRF faz um trabalho excepcional. Com toda certeza será feita Justiça, sem exageros, e sem pressão por parte da mídia, que sempre tem lado: o lado da bandidagem".

A analogia é evidente. Ao responder a um jornalista que lhe perguntou sobre Genivaldo, Bolsonaro fez uma curva e terminou por associando-o à bandidagem. A resposta poderia ser assim resumida: "parem de defender bandidos, jornalistas inconvenientes". Agora, mais uma vez, o presidente repete o mesmo tipo de pensamento. "Parem de se meter onde não são chamados, jornalistas desagradáveis".

Profissão de risco

Dou razão ao presidente quando ele afirma que Dom Phillips e Bruno Pereira cometeram "uma aventura que não é recomendável que se faça". Exercer a profissão de jornalista no Brasil de Bolsonaro tem se mostrado cada vez mais a maior das aventuras. E nosso governante é um dos responsáveis por esse cenário.

Quis o destino que, no mesmo dia em que Bolsonaro respondeu com o habitual desprezo à vida sobre o desaparecimento do jornalista inglês e seu parceiro de aventura, a juíza Tamara Hochgreb Matos, da 24ª Vara Cível de São Paulo, condenou o presidente por dano moral coletivo à categoria dos jornalistas. É provável, aliás, que ela esteja sofrendo ameaças e ouvindo impropérios desde então.

Uma sentença dessa natureza é inédita no Brasil e sua publicação se deu em 7 de junho, que é considerado o Dia Nacional da Liberdade de Imprensa.

A Ação Civil Pública que desaguou na condenação foi ajuizada pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo em abril de 2021. Nela, a entidade detalhou numerosas declarações ofensivas feitas por Bolsonaro contra jornais e jornalistas desde a posse, muitas delas com a intenção de deslegitimar ou desqualificar a profissão ou constranger e intimidar os profissionais de imprensa.

"Tais agressões e ameaças vindas do réu, que é nada menos do que o Chefe do Estado, encontram enorme repercussão em seus apoiadores", destacou a juíza na sentença, "e contribuíram para os ataques virtuais e até mesmo físicos que passaram a sofrer jornalistas em todo o Brasil, constrangendo-os no exercício da liberdade de imprensa, que é um dos pilares da democracia."

Bolsonaro terá de pagar R$ 100 mil ao Fundo Estadual de Defesa dos Direitos Difusos. Quanto à aventura do jornalismo, a profissão continua sendo "não recomendável". Mas alguns de nós somos teimosos. Entendemos que a investigação precisa, o fato noticioso, a denúncia das violações de direitos e a informação verdadeira são imperativos éticos, em São Paulo ou em Sergipe, no Vivendas da Barra ou no Vale do Javari. Acima de tudo e de todos. Bem-aventurados os que se aventuram. Seguiremos.