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Camilo Vannuchi

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Morte de Dom Cláudio Hummes nos lembra que a Igreja no Brasil já foi melhor

Dom Cláudio Hummes - Lalo de Almeida/Folha Imagem
Dom Cláudio Hummes Imagem: Lalo de Almeida/Folha Imagem
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Camilo Vannuchi

Camilo Vannuchi é jornalista e escritor com ênfase nos direitos humanos. É mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela USP, onde integra o Grupo de Pesquisa Jornalismo, Direito e Liberdade, filiado à Escola de Comunicações e Artes e ao Instituto de Estudos Avançados. Foi membro da Comissão da Memória e Verdade da Prefeitura de São Paulo (2014-2016). Atuou como repórter e editor nas revistas IstoÉ e Época São Paulo e foi colunista no site da Carta Capital. É autor da biografia "Marisa Letícia Lula da Silva" (Alameda, 2020).

Colunista do UOL

07/07/2022 04h00

A palavra pelego é bastante conhecida por cavaleiros e sindicalistas. Os primeiros consagraram seu sentido literal: pelego é o couro de cordeiro não tosado, disposto sobre a sela tal qual uma manta a fim de aumentar o conforto durante a cavalgada. Os segundos atribuíram a ele um sentido figurado: pelego é o líder sindical mais interessado em defender os interesses do patrão do que em representar sua classe. Seu papel é "amaciar", como um intermediário empenhado em convencer os peões a aceitar a pior proposta, a furar a greve, a voltar ao trabalho o mais rapidamente possível.

A Igreja Católica também tem seus pelegos - e eles são muitos. É nas horas dos enfrentamentos mais urgentes que aprendemos a identificá-los.

Dom Cláudio Hummes nunca teve vocação para pelego. Conta-se que, certa vez, durante a grande greve organizada pelos metalúrgicos do ABC Paulista em 1980, empresários ligados à Fiesp pediram a Dom Cláudio que mediasse as negociações entre os grevistas e o Ministério do Trabalho, convencidos de que o religioso ajudaria a desatar os pontos de dissenso e desenrolaria a pendenga conforme seus interesses (dos industriais, é claro). Dom Cláudio, então à frente da pastoral operária e bispo de Santo André (diocese que engloba as cidades de São Bernardo, São Caetano e Diadema), declinou, dizendo que os trabalhadores já tinham quem os representasse.

Mesmo que não os tivessem, aquele convite carecia de sentido. Diante de quem fosse, Dom Cláudio não hesitava em afirmar que ele não era um bispo isento: ele tinha lado, o lado dos trabalhadores.

Fundo de greve

Aos 44 anos, Dom Cláudio fez mais. Abriu a igreja matriz de São Bernardo para as assembleias dos metalúrgicos quando os militares intervieram no Sindicato. Participou da criação do fundo de greve, instrumento que permitiu a distribuição de alimentos para que as famílias dos grevistas pudessem viver com dignidade enquanto estivessem sem receber salários. Celebrou missa para 100 mil pessoas no Estádio da Vila Euclides. Ajudou a denunciar o despropósito da prisão do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, enquadrado na Lei de Segurança Nacional em abril de 1980, e outros doze sindicalistas.

Dias depois, ainda emprestou seu nome para que se encontrasse uma saída honrosa para a insólita greve de fome que os metalúrgicos decidiram deflagrar na cadeia a fim de radicalizar o movimento grevista quando tudo parecia degringolar. Não é o caso de revelar aqui a estratégia utilizada, mas o fato é que os presos voltaram a se alimentar atendendo a um apelo oficial do bispo. Romeu Tuma, então chefe do Dops, ficou tão aliviado com a notícia que encomendou lula a dorê num restaurante próximo e mandou servir para todo o grupo. Contei este episódio em detalhes na biografia que escrevi da ex-primeira-dama Marisa Letícia e qualquer dia volto a tratar do tema por aqui.

Opção preferencial pelos pobres

Dom Cláudio não estava sozinho em sua missão evangelizadora e em sua opção preferencial pelos pobres. Se olhasse para o lado, viria Dom Paulo Evaristo Arns à frente da Arquidiocese de São Paulo, regendo uma orquestra de bispos auxiliares que incluíam virtuosos como Dom Angélico Sândalo Bernardino, Dom Mauro Morelli e outros. Do Rio Araguaia chegavam os versos inspiradores de Dom Pedro Casaldáliga, o testemunho solidário de Dom Tomás Balduíno. Precursor de todos esses e quatro vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz, Dom Hélder Câmara organizava conferências, publicava seus livros e espalhava sua mensagem de defesa dos direitos humanos diretamente de Olinda e Recife.

Havia entrega naquela Igreja. Havia uma consciência coletiva, um propósito de coragem e esperança, um compromisso verdadeiro de defesa dos mais frágeis, de promoção social dos mais vulneráveis. Ser bispo era sobretudo palmilhar as periferias, os sertões, morros e aldeias. A mitra não valia mais do que o chapéu de palha, o báculo não sobrepujava o cajado. O anel, de ouro ou de tucum, não era apenas símbolo de uma aliança entre Deus e seu povo: a aliança era vivida de fato, no pão partilhado, na terra carpida, na casa construída em sistema de mutirão. Fermento na massa.

Reunião do povo

A palavra Igreja, de etimologia grega, quer dizer "assembleia de cidadãos", "reunião do povo". Onde foi parar aquela Igreja?

Ora, está aí o Padre Júlio Lancellotti, incansável, honrando a tradição dessa Igreja dos pobres, dirá a leitora, lembrará o leitor. Sim, Padre Júlio, jamais nomeado bispo, mais tolerado do que exaltado nos corredores do Clero. E quantos mais? Daqueles padres que somaram forças a Dom Paulo e Dom Cláudio em sua missão emancipatória, quantos chegaram ao episcopado? Nem Jaime Crowe, nem Ticão, nem Roberto Grandmaison ou Oscar Beozzo... Se alguém nos mandar reclamar com o bispo, a qual poderemos recorrer?

Depois de servir como bispo de Santo André por duas décadas, Dom Cláudio Hummes foi arcebispo de Fortaleza por dois anos, entre 1996 e 1998, e arcebispo de São Paulo a partir de 1998, substituindo o Cardeal Arns - aquele que se despedia de todos com votos de "coragem!" e que tinha como lema "de esperança em esperança".

Farinata

Obrigado a renunciar à condução da Arquidiocese ao completar a idade limite de 70 anos, Dom Cláudio tornou-se emérito em 2006 e foi substituído no ano seguinte por Dom Odilo Scherer, atual ocupante do cargo. De perfil discreto, muito mais discreto do que seria recomendável a um religioso que lidera a maior arquidiocese da América Latina, Dom Odilo viveu dois momentos de maior protagonismo nos últimos cinco anos. A natureza desses episódios talvez nos diga algo sobre o buraco em que se encontra a Igreja Católica brasileira.

No primeiro deles, em 2017, apoiou o então governador João Doria quando o político apresentou a "farinata", um granulado produzido com sobras de comida próximas ao vencimento e que Doria tentou introduzir na merenda escolar e em equipamentos da assistência social. No segundo episódio, em 2018, reagiu à participação do colega Dom Angélico em ato ecumênico em memória de Dona Marisa realizado em São Bernardo do Campo no dia em que ela completaria 68 anos. Tal celebração antecedeu a apresentação de Lula à Polícia Federal e o início da pena de prisão. No dia seguinte, Dom Odilo esmerou-se em explicar, em nota, que não tinha nada a ver com aquilo e que lamentava o que chamou de "instrumentalização política do ato religioso".

Esqueceu, talvez, que o livre exercício de cultos religiosos é um direito constitucional, garantido inclusive a criminosos que cumprem pena em presídios de segurança máxima. E que há um versículo do Sermão da Montanha que diz o seguinte: "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus."

Dom Cláudio Hummes, que até recentemente estava engajado na defesa da Amazônia e dos povos originários, faz uma falta danada.