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Chico Alves


Radicais na política brasileira, só os Bolsonaros

Deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) - Eduardo Bolsonaro
Deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) Imagem: Eduardo Bolsonaro
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

01/11/2019 04h00

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) voltou a causar celeuma ao verbalizar as intenções autoritárias que demonstra desde o ano passado, quando comentou que bastavam "um soldado e um cabo para fechar o STF". Na ocasião, Jair Bolsonaro pediu desculpas pelo filho, disse que repreendeu o "garoto" e deu o caso por encerrado. De lá para cá, o próprio presidente, seus filhos (Eduardo e Carlos) e alguns integrantes do governo têm soltado absurdos semelhantes.

Em entrevista à jornalista Leda Nagle, Eduardo voltou a atacar. Dessa vez, com uma fala mais extensa e cheia de detalhes, cogita que cheguemos a um ponto em que seja necessária a edição de um novo AI-5.

Quando, exatamente? " Se a esquerda radicalizar (...), a gente vai precisar ter uma resposta".

É preciso que alguém diga a Eduardo uma verdade cartesiana: os únicos a radicalizar atualmente na política brasileira são os Bolsonaros e sua equipe.

Mesmo com 12,5 milhões de pessoas desempregadas, desigualdade de renda cada vez maior e número enorme de empresas que mergulham na bancarrota a cada dia, os brasileiros continuam tocando sua vida em paz.

Volta e meia vão às ruas para protestos de esquerda ou direita, que estão cada vez mais minguados. Nessas ocasiões, o registro mais problemático ocorre quando alguns exaltados quebram meia dúzia de vidraças, no máximo ateiam fogo a uma lixeira ou tábuas de caixote. Nada que o próprio presidente e seus apoiadores não tenham aprovado quando ocorreram os protestos de 2013 e 2014, contra a presidente Dilma Rousseff. Tanto naquele momento quanto na greve dos caminhoneiros, os Bolsonaros não demonstraram qualquer preocupação com as manifestações.

Difícil lembrar uma época da política nacional em que a esquerda tenha encontrado tantas dificuldades para fazer oposição. Diante do desencanto de parte dos eleitores com o PT, muita gente se entregou à apatia e raramente embarca em mobilizações políticas. Uma grande parcela se satisfaz com memes nas redes sociais. Opções ao PT, como o PSOL, ainda estão em construção e longe de ter o tamanho da legenda de Lula.

Com muito esforço, os políticos de esquerda conseguem, no máximo, reagir às propostas do governo.

Falar em radicalização em um cenário desses é devaneio. Ao levantar a possibilidade de repetição dos protestos "radicais" do Chile ou Equador, Eduardo (e também o general Augusto Heleno, que não refutou tamanha sandice) quer arranjar pretexto para justificar os propósitos ditatoriais de seu grupo.

Ouvir o deputado falar em execução e sequestro de autoridades nesse momento em que as manifestações de esquerda têm sido tão pacíficas é motivo para que, nos próximos protestos, os oposicionistas redobrem o cuidado com os infiltrados.

Mesmo com o pedido de desculpas a que foi obrigado pelo pai, agora todos sabem que, por essas bandas, o maior radical chama-se Eduardo Bolsonaro.

Chico Alves