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Chico Alves


Responsável por uma das ações que libertou Lula diz ser contra o petista

Adilson Barroso, presidente do Patriota - Facebook
Adilson Barroso, presidente do Patriota Imagem: Facebook
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

11/11/2019 15h29

Quando o ex-presidente Lula apareceu na porta da sede da Polícia Federal, em Curitiba, a caminho da liberdade, na última sexta-feira, Adilson Barroso assistiu a cena pela TV. Fundador e presidente do partido Patriota, identificado com a centro-direita e admirador de Jair Bolsonaro, Barroso teve participação direta na soltura do petista.

Foi de autoria do Partido Ecológico Nacional (antigo nome do Patriota) uma das Ações Declaratórias de Constitucionalidade (ADC) que levou o Supremo a definir como ilegal o cumprimento da pena antes de serem esgotadas todas as possibilidades de recurso (o chamado trânsito em julgado). As outras duas ações foram do PCdoB e da OAB.

"Sou contra Lula, Dilma e o PT", disse Barroso à coluna. "Se mostraram frouxos com a corrupção, emprestaram milhões de reais para Venezuela, Cuba, Bolívia". Diante dessas críticas, difícil entender como ele, no papel de presidente da legenda, foi um dos responsáveis por levar o STF a tomar a decisão que resultou na liberdade do ex-presidente.

O criador do Patriota diz que foi surpreendido pelos ministros: "Como ia adivinhar que Gilmar Mendes e outros iam mudar os votos?" A intenção, segundo ele, seria definir de uma vez por todas a questão, que era motivo de dúvida generalizada.

Barroso diz que pensava em ajudar as pessoas mais pobres, que não têm recursos para se defender. Classificou como "azar" que o processo acabasse por ajudar Lula. Mas o fato de ser representado na ADC pelo advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, que defende vários acusados na Lava Jato, é visto por muitos como indício de que o presidente do Patriota sabia muito bem o que estava fazendo.

Em abril do ano passado, quando ainda negociava para abrigar no Patriota a candidatura de Jair Bolsonaro a presidente da República, Barroso declarou que estava arrependido por ter ajuizado a ação. Disse, inclusive, que tentou encerrar o processo, sem conseguir. Comenta-se que esse foi um dos motivos de Bolsonaro ter batido em retirada e optado por concorrer pelo PSL.

Acabou tendo Cabo Daciolo como candidato a presidente da legenda. Por suas contas, o partido que preside tem hoje 1.100 vereadores, 30 prefeitos, 70 vices, 28 deputados estaduais e nove deputados federais. "Isso é mais que muitas legendas consideradas grandes como PPS, PROS ou PSC", diz.

Barroso teme ser visto como apoiador do presidente Lula, quando, segundo diz, sua intenção era apenas esclarecer a aplicação das leis. "Por mim, a prisão já deveria começar depois da condenação em segunda instância", opina. "Mas sei também que o texto da Constituição é claro e determina que o acusado seja preso só depois do trânsito em julgado".

Ele é contra qualquer virada de mesa. "O Brasil deve obedecer à lei, se o Supremo decidiu, devemos cumprir. Pelo menos agora o Congresso está se articulando para fazer uma lei que garanta a prisão em segunda instância", diz Barroso. "Para isso, a ação serviu".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves