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Chico Alves


Depois de Weintraub, o dilúvio

Ministro da Educação, Abraham Weintraub, - O ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante  apresentação do "Compromisso Nacional pela Educação Básica".
Ministro da Educação, Abraham Weintraub, Imagem: O ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante apresentação do "Compromisso Nacional pela Educação Básica".
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

13/12/2019 12h40

Metido a besta como ele só, Luís XV achava que era um bom rei. Todas as evidências, porém, mostravam o contrário: enquanto estava no trono, em meados do século 18, a França foi derrotada pela Inglaterra na Guerra dos Sete Anos, entrou em bancarrota e perdeu vários territórios na América para os ingleses, incluindo o Canadá. Apesar disso, o monarca ficava uma fera ao ser criticado. Em um acesso de egocentrismo, diante da revolta do povo contra ele, teria dito à amante, Madame Pompadour: "Depois de mim, o dilúvio".

Assim, o rei desejava aos franceses o pior dos destinos depois de sua morte. Verdadeira ou não, a frase atravessou os anos e ainda hoje é usada (cada vez menos, é verdade).

Nosso Luís XV sem a roupa de mestre-sala é o ministro da Educação, Abraham Weintraub. Ele se acha. Na audiência de que participou há poucos dias na Câmara, teve a cara de pau de dizer que está revolucionando a política educacional brasileira. Se a ideia era que o ensino involuisse, então Weintraub está no caminho certo.

Nunca se viu na Câmara um ministro ser tão achincalhado, da direita à esquerda, passando por parlamentares centristas. As exceções foram dois ou três deputados governistas que fizeram puro teatro. Difícil contar quantas vezes Weintrab ouviu a frase: "Renuncie, ministro". Teve até uma versão do deputado cearense Idilvan Alencar (PDT-CE), que usou a forma de falar no seu estado: "Pegue o beco".

De acordo com reportagem do jornal Estado de S. Paulo, a dispensa de vários assessores do ministro indicaria que ele pegará o beco ao fim do recesso de fim de ano. O tuiteiro e deputado Eduardo Bolsonaro desmente a informação e diz que ele fica.

Se Weintraub realmente sair, as comemorações devem ser cautelosas. Sempre há possibilidade de algum pior ser nomeado (no caso do ministro Vélez, imaginou-se que o fundo poço tinha chegado, mas...). Cogita-se que o substituto seria Onyx Lorenzoni.

Seja quem for, a sequela da passagem de Weintraub (e do seu antecessor) pelo Ministério da Educação já é conhecida. Conseguiram levar a gestão educacional a um nível tão baixo que qualquer pessoa com um fio de bom senso que ocupe o cargo já será vista como melhora.

O trágico é que a educação brasileira precisa melhorar muito, mas muito mesmo. Não um pouquinho. A péssima colocação no Pisa (índice internacional que mede a qualidade do ensino) e as próprias avaliações internas que revelam deficiências significativas dos jovens em matemática e interpretação de texto são a prova disso.

Por meses, convivemos com ataques a professores e estudantes universitários, ofensas no Twitter e performances lamentáveis. Nenhum sinal de planejamento ou de propostas minimamente razoáveis. O "dilúvio" deixado por um ministro tão ruim quanto Weintraub é que baixamos demais nosso parâmetro de qualidade em uma área onde o padrão precisa urgentemente ser muito elevado.

Aguardemos o fim do recesso para saber se o nosso Luís XV de guarda-chuva e óculos escuros estará de volta ou terá realmente ido no rumo do beco, acatando a sugestão. Na segunda hipótese, recomenda-se cruzar os dedos até que saibamos quem será o sucessor. Nem é aquela história de "nada é tão ruim que não possa piorar". Do jeito que está a educação brasileira, se melhorar pouco já estaremos aumentando o prejuízo.

Chico Alves