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Delação de Cabral: noite vai ser de insônia para figurões

Ex-governador Sérgio Cabral está preso desde 2016 - Fábio Motta/Estadão Conteúdo
Ex-governador Sérgio Cabral está preso desde 2016 Imagem: Fábio Motta/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

16/12/2019 20h28

A noite de hoje vai ser de insônia para personagens importantes do Poder Judiciário. O ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, assinou acordo de delação premiada com a Polícia Federal e, apesar de o documento estar sob sigilo, comenta-se que os petardos foram direcionados a figurões de toga. Em abril, Cabral disse em depoimento que fez "tratos" com ministros do Superior Tribunal de Justiça e do Tribunal de Contas da União, sem dar muitos detalhes. Agora, ele teria explicado melhor o mecanismo da corrupção.

No depoimento de oito meses atrás, o ex-governador disse que foi pressionado e até ameaçado pelo ex-secretário Régis Fichtner para garantir a nomeação do ministro Marco Aurélio Belizze ao STJ. Na delação aceita agora pela Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado da PF haveria mais detalhes sobre essa e outras supostas tramoias feitas nos bastidores dos tribunais.

O acordo de delação de Cabral foi fechado com a PF de Brasília. O delegado Igor Romário de Paula, que desde janeiro é o diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado, foi o comandante da equipe policial da força-tarefa da Operação Lava Jato, em Curitiba.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, já se manifestou contrariamente ao acordo de delação. Segundo o jornal O Globo, Aras avaliou que Cabral protegeu algumas pessoas durante a negociação. O procurador-geral também argumentou que ele não pode ter esse benefício já que é considerado o líder da organização criminosa.

Também os procuradores da Operação Lava Jato no Rio já haviam rejeitado a delação. Tudo depende agora do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, que vai decidir se deve ser homologada ou não.

A negociação impressiona também pela cifra envolvida. Se a delação for homologada, Cabral se compromete a devolver a bagatela de R$ 380 milhões da propina que recebeu no seu esquema criminoso. A quantia equivale a mais de dez prêmios da Mega-Sena acumulada, permitiria à Prefeitura do Rio quitar os atrasados de todos os terceirizados da saúde e seria suficiente para a compra de 12 coberturas luxuosas em Ipanema.

Essa dinheirama estratosférica dá a medida de quanto foi desviado dos cofres estaduais pelo esquema criminoso do ex-governador e explica muito do atoleiro em que o estado está metido nos últimos anos. Para que Cabral volte ao lar doce lar, a delação tem mesmo que valer muito a pena.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves