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Chico Alves


Lugar de fala: um conceito que pode ser muito útil

 Coletivos de mulheres realizam um protesto feminista - Nelson Antoine/Estadão Conteúdo
Coletivos de mulheres realizam um protesto feminista Imagem: Nelson Antoine/Estadão Conteúdo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

23/12/2019 04h00

Impossível ficar indiferente à provocação do antropólogo Antonio Risério, que em artigo publicado no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo, espinafra o conceito de lugar de fala, tão caro aos chamados movimentos identitários. Essa não é uma treta das pequenas, é daquelas discussões que, travadas frente a frente, podem terminar em gritos e dedo na cara. Na tela do computador ou celular fica mais suave descascar esse abacaxi. Vamos lá.

O texto de Risério certamente fez a alegria de muita gente, da esquerda e da direita, que está cansada de ter suprimida a participação em debates apenas por não pertencer ao grupo dos oprimidos. Numa perversão do significado original, muitos dividem os interlocutores segundo o grau de opressão a que foram submetidos. Quem não ganhar o rótulo de suficientemente vítima não é ouvido, não tem direito de dar pitaco.

Em certos círculos de ativismo, um homem não pode discutir feminismo, uma branca não pode debater racismo e um hétero não pode tratar de homofobia. Essa lógica primária, além de desperdiçar boas ideias e colaboradores que andam em falta, tem como base a premissa autoritária de que é possível escolher quem pode ou não participar de uma discussão.

A esse cerceamento, o antropólogo dá o nome de "fascismo identitário".

Não há dúvida: evocar o lugar de fala não deveria servir como super-trunfo em uma mórbida competição para saber quem foi mais oprimido, nesta geração ou nas passadas. Mas é preciso não perder de vista o objetivo original, que continua valendo para aqueles que tiverem interesse em contribuir para um debate mais fértil: dar voz a quem até pouco tempo não era ouvido.

É verdade que o conceito foi virado de cabeça para baixo. Risério erra, no entanto, ao julgar a ideia pelo seu desvirtuamento.

Valorizar a voz do oprimido é uma boa iniciativa. Mais que isso: é fundamental para quem quer encarar de frente as grandes questões do nosso tempo.

Por maior sensibilidade que tenha, como homem, Risério não tem a exata noção do medo que passa uma mulher ao atravessar sozinha uma via deserta ou do constrangimento ao ser interrompido por homens a cada frase em uma roda de conversa.

Como branco, sua memória não guarda o sofrimento de ouvir seguidas menções pejorativas à cor da pele e nunca sofreu violência física por conta disso.

Como hétero, nem de longe poderia sentir o desespero de ser rejeitado por amigos e família por assumir sua opção sexual.

Não que as ideias derivem exclusivamente de percepções sensoriais, como citou o antropólogo. Mas essas percepções devem obrigatoriamente ser levadas em conta.

Antes, esses grupos de oprimidos não tinham voz nem mesmo em espaços progressistas. O lugar de fala garante esse reparo: os oprimidos podem falar por si mesmos. Assim, é possível entendê-los melhor e também ter uma visão mais exata do mecanismo que os espreme contra a parede.

O mau uso do lugar de fala não pode apagar seus benefícios.

Ao falar de "fascismo identitário", Risério foi tão sumário quanto os identitaristas radicais que pretendeu criticar.

Equilíbrio é um produto em falta nas prateleiras da contemporaneidade, mas é imprescindível buscá-lo. Não há o que perder se prestarmos atenção redobrada ao relato de quem sofre na pele os variados tipos de discriminação. Isso não quer dizer, claro, que essa voz pode se sobrepor às outras. Igualdade é o objetivo a ser alcançado.

Que cada um reflita, opine e participe das lutas que sua consciência mandar — não há nada que impeça um homem branco hétero de debater e apoiar os esforços contra o machismo, o racismo e a homofobia.

Risério, no entanto, há de concordar: ouvir mais os grupos que são alvos de opressão é providência útil para traçar as estratégias de superação da segregação.

Em suma, é recomendável seguir nessa discussão o conselho dos antigos: nem oito, nem oitenta.

Chico Alves