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Chico Alves


Frei explica sentido do presépio: "Após Jesus, que ninguém nascesse pobre"

Frei David Raimundo dos Santos (Educafro) - Educafro
Frei David Raimundo dos Santos (Educafro) Imagem: Educafro
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

24/12/2019 14h06

O frei franciscano David Raimundo dos Santos foi um dos líderes do movimento que na década de 1990 lutou pela adoção da política de cotas no ensino superior brasileiro. Sua luta se mostrou vitoriosa, tanto porque as cotas foram adotadas, quanto porque seu objetivo final foi alcançado: em 2019, os negros passaram a ser maioria nas universidades.

Nessa rápida conversa com a coluna, David discute se o espírito de Natal ainda guarda mensagem significativa para a sociedade, para além dos impulso comerciais e dos clichês:

UOL - O Natal guarda ainda alguma mensagem concreta para o nosso cotidiano?

Frei David Raimundo dos Santos - O nascimento de Jesus, no contexto que se deu, na pobreza, abandono, isolamento, tem dentro desse processo uma forte mensagem: que a humanidade, após Jesus, entendesse como escândalo a indigência, a pobreza e o abandono.

É fundamental guardar em nosso coração que o presépio foi uma forma profunda de denúncia, opção de Deus para dialogar com o povo, querendo atingir o âmago de seu coração. A história do Natal é uma explícita denúncia contra as estruturas. O nascimento de Jesus na pobreza foi uma proposta de pacto: após ele, que ninguém mais viesse a nascer pobre. A dignidade, o reconhecimento dos direitos e a antecipação à necessidade dos irmãos deveria ser a postura das estruturas de serviço de qualquer sociedade.

Passados 2019 anos, essas estruturas de poder ainda não foram cristianizadas. A grande missão de qualquer igreja séria é cristianizar ou evangelizar as estruturas. O grande erro da Igreja Católica, o grande erro das igrejas evangélicas está aí: não estão cristianizando, humanizando as estruturas da sociedade.

Pelo contrário. Algumas igrejas estão usando a máquina do estado para mais e mais explorar. Veja o que acontece a nível nacional com os manicômios, as igrejas evangélicas disputando cuidar dos manicômios para ganhar dinheiro em cima da miséria das pessoas. Isso é gravíssimo. É delicado. Mostra uma total dissonância com a proposta do Evangelho.

Logo, o presépio só vai cumprir sua proposta quando atingir desde o indivíduo até às mais altas estruturas da sociedade.

Acredita que nesses tempos de discurso de ódio as pessoas verdadeiramente assimilem mensagens assim?

Pessoas que querem ser solução para o mundo, como Luther King, Madre Teresa, Mahatma Gandhi e Irmã Dulce não usaram o discurso de ódio frente aos problemas que enfrentaram. Todo indivíduo ou toda aquela estrutura de partido ou grupo organizado que opta pelo discurso de ódio opta imediatamente por ser contra a proposta do presépio. Natal é compreensão, Natal é vivência plena do servir ao outro sem pedir nada em troca.

O que fazer para instaurar o clima de harmonia verdadeiro na sociedade brasileira?

O clima da verdadeira harmonia só é possível com a proposta franciscana de se priorizar o atendimento aos mais quebrados, aos mais humilhados, aos pobres. O pobre foi e é o motivo de existir de qualquer pessoa com verdadeiro e profundo espírito franciscano.

No meu caso, por ser um franciscano, por ser um franciscano, ao me deparar com o problema radical, estrutural, da exclusão do acesso dos negros às universidades, dediquei-me a me aproximar de todas as pessoas que lutavam contra essa afronta ao reino de Deus e ao presépio.

Dediquei 40 anos de minha vida para lutar estruturalmente pelo ingresso do negro às universidades. Em 2019, colhemos um grande fruto: o IBGE divulga que pela primeira vez na história do Brasil, o povo negro atinge mais de 50% da ocupação das universidades brasileiras. Esse é um exemplo do que é possível fazer. Paz e bem, em São Francisco de Assis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves