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Chico Alves


Contra o nazi-fascismo, Moro tem que ir do discurso à prática

Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

17/01/2020 10h02

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, foi ao Twitter no domingo 12 pedir para que seja mantido "o esforço brasileiro contra o nazi-fascismo" em homenagem ao sacrifício dos combatentes que foram à Segunda Guerra Mundial. O alerta foi feito por ocasião da morte de um coronel que integrou a Força Expedicionária Brasileira. Nesses tempos em que ideologias esdrúxulas renascem das tumbas, a mensagem de Moro é oportuna. Por coerência, no entanto, o ministro não deveria se limitar aos tuítes. É preciso fazer o dever de casa.

Para começar, pode acionar o Ministério da Justiça contra episódios de cunho fascista que vêm se tornando frequentes no país. O mais violento deles foi amplamente noticiado: o atentado terrorista à produtora do humorístico Porta dos Fundos, alvo de dois coquetéis molotov, na madrugada de 24 de dezembro. Apesar da grande repercussão do caso, Moro não manifestou repúdio aos terroristas nem solidariedade ao grupo atacado.

Pior que isso, o ministério não cumpriu sua atribuição fundamental no caso. O único suspeito identificado, Eduardo Fauzi, autodeclarado integralista, fugiu para a Rússia antes de ter a prisão decretada. Caberia à pasta pedir a extradição do sujeito. Até agora, nada.

O Integralismo foi criado na década de 30 por Plínio Salgado, depois que o brasileiro teve um encontro em Roma com o ditador Benito Mussolini. O movimento de extrema direita de Salgado tem as mesmas bases do fascismo de Mussolini, adaptadas à realidade daqui. Se o tuite de Moro expressa um sentimento sincero, ele deveria urgentemente providenciar para que Fauzi seja extraditado.

Por enquanto, o acusado pode caminhar tranquilamente pelas ruas de Moscou, gravar vídeos em que faz proselitismo político e lista condições para se entregar às autoridades brasileiras quando lhe der na telha.

Surgiu agora um outro caso em que Moro pode honrar na prática os combatentes brasileiros da Segunda Guerra que exaltou no Twitter. Em vídeo que está causando muita repercussão nas redes sociais, Roberto Alvim, secretário de Cultura do governo Bolsonaro, define como parâmetro para o seu trabalho conceitos de Joseph Goebells, ideológo da propaganda nazista de Hitler: "A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional (...) ou então não será nada". Tudo com trilha sonora de Richard Wagner, o compositor preferido de Hitler.

A não ser que Moro acredite que o caso de Alvim é psiquiátrico (e então não deveria exercer cargo no governo) essa é uma excelente oportunidade para mostrar que a postagem para manter "o esforço brasileiro contra o nazi-fascismo"não é apenas balela para ganhar likes. Afinal, a apologia ao nazismo é considerada crime no Brasil.

O ideal seria a imediata demissão de Alvim por parte do presidente Bolsonaro. Não se sabe se isso vai acontecer ou quando, mas, enquanto isso, a Polícia Federal está aí para isso mesmo.

Caso mantenha a inércia que vem demonstrando até aqui quanto às manifestações antidemocráticas que se multiplicam no país, o titular da Justiça estará incentivando a escalada de ideias autoritárias e perigosas. Espera-se que o fato de Eduardo Fauzi ter sido filiado ao PSL (ainda abrigo dos governistas) e Roberto Alvim pertencer ao mesmo governo integrado por Moro não sejam empecilhos para sua atuação.

Mãos à obra, ministro.

Chico Alves