PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Chico Alves


Bolsonaro, Moro e o peso eleitoral da Segurança Pública

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) - Carolina Antunes - 18.dez.19/PR
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública) Imagem: Carolina Antunes - 18.dez.19/PR
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

31/01/2020 15h22

De qualquer ponto de vista, não faz o menor sentido o ministro responsável pela segurança pública convocar uma entrevista coletiva para anunciar ao país com pompa e circunstância uma reles galeria de fotos de 26 criminosos procurados. Qualquer delegado do terceiro escalão poderia dar conta da tarefa. Ou simplesmente a assessoria de comunicação. Mas foi o próprio Sergio Moro que ontem atraiu os holofotes para apresentar o álbum de figurinhas do crime.

O que moveu o ex-juiz a protagonizar a apresentação ralé não foi apenas a vaidade (que não é pequena). Até quando puder, Moro vai tentar tirar o máximo proveito da condição de responsável pela segurança pública do Brasil, algo que mantém em alta sua popularidade, alcançada anteriormente com a Lava Jato. Por isso, o ministro tem aparecido com mais frequência em programas de entrevistas. Afinal, sabe-se lá até quando estará no posto...

A popularidade é o passaporte de Moro para uma possível candidatura a presidente, e a bandeira do combate ao crime rende votos. O problema é que ele não foi o único a perceber a importância eleitoral da pasta. O presidente Jair Bolsonaro sabe muito bem disso. É por isso que quer tirar esse assunto da esfera do ex-juiz.

Bolsonaro sabe que enquanto Moro estiver à frente do ministério poderá exibir ao público performances capazes de manter o apoio popular nas alturas. O dilema é que separar a Segurança Pública da Justiça, como planeja, vai provocar a debandada de Moro e a perda de apoio de uma legião de lavajatistas que faz grande barulho nas redes sociais. Até mesmo bolsonaristas de raiz reclamariam.

No ensaio feito nesse sentido, na semana passada, Bolsonaro se deu mal. Protagonizou com os secretários de Segurança Pública de vários estados uma encenação para tirar o tema das mãos de Moro. Em entrevista, chegou a atribuir ao trabalho dos estados a queda do número de homicídios em 2019. Bastou que o ex-juiz ameaçasse pedir o boné para voltar atrás.

A questão não é saber se a pasta da Segurança Pública será tirada de Moro, mas quando. O presidente e seus apoiadores estão fazendo os cálculos para estimar até quando é eleitoralmente prudente esperar para saber se o ex-juiz será ou não candidato a presidente.

Enquanto isso, Moro poderá continuar criando factoides para aumentar sua exposição, como esse da galeria de criminosos que, como a Folha de S. Paulo mostrou, não incluiu o capitão Adriano, acusado de participar do assassinato de Marielle Franco. Até mesmo álbum de figurinhas incompleto está valendo para o ministro se manter visível.

Chico Alves