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Chico Alves


Pedro Bial e José de Abreu: o machismo que ataca a esquerda e a direita

Pedro Bial - Reprodução/Globo
Pedro Bial Imagem: Reprodução/Globo
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

05/02/2020 04h00

Sabe aquele homenzarrão musculoso, suarento, que cospe no chão e coça as partes íntimas em público? Pois bem, temos mais uma confirmação de que os machistas escaparam desse estereótipo.

Agora eles podem ter um jeitão menos tosco, uma pinta de ativista político ou poeta, de ator ou jornalista. Mas, claro, sempre querendo botar a mulher no seu devido lugar, como fizeram Pedro Bial e José de Abreu nos últimos dias.

O alvo do ator foi a direitista Regina Duarte, que aceitou o cargo de secretária de Cultura do governo Bolsonaro. Ninguém é obrigado a apoiar a ideologia da atriz, nem pode ser criticado por fazer oposição a ela. Abreu, porém, usou contra Regina argumentos que não têm nada a ver com política.

Partiu para a ignorância: "Lembra de quantos gays lhe tiraram as rugas? Coloriram seus cabelos brancos? Criaram figurinos para esconder suas banhas?" Depois dessa saraivada de grosserias, ainda discordou de quem o acusou de machista.

O ator devia se perguntar se lançaria mão desses mesmos argumentos estéticos se o alvo escolhido fosse um homem. Certamente não. Ou alguém imagina um bate-boca em que Abreu atacasse o ministro Paulo Guedes dizendo que ele tem rugas, cabelo branco e é banhudo?

Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, ele disse que está tentando se "mulherar" cada vez mais. Se esse é realmente o objetivo, deve continuar se esforçando.

Do lado da esquerda, o alvo foi a cineasta Petra Costa, diretora do documentário "Democracia em Vertigem". Desde que o filme foi indicado ao Oscar, surgiu nas redes sociais um movimento de ataque à obra, orquestrado pela turma do discurso de ódio.

Surpreendente foi ver o apresentador Pedro Bial, normalmente tão cordato, usar o mesmo tom desrespeitoso das tais milícias digitais para se referir a Petra. Desrespeitoso e machista.

Depois de dizer que deu "muita risada" no filme, que se pretende dramático, Bial criticou a diretora pela narração, que para ele é "miada", e por fazer um filme que seria um "pé com bunda danado". Em certo momento, repetiu a mesma forma de crítica usada pelo presidente Bolsonaro, que chamou o documentário de ficção.

A seguir, enfiou o pé na jaca do machismo. "É um filme de uma menina dizendo para a mamãe dela que fez tudo direitinho, que ela está ali cumprindo as ordens, é a inspiração da mamãe ", diz o apresentador.

Coloca-se questão parecida à de José de Abreu: Bial usaria essa imagem de fragilidade para se referir a um homem? Imagina-se ele dizendo que Lula parece um menino que está cumprindo ordens do papai?

Convicto, o apresentador disse mais à frente que não reconhece o feminismo marxista. Mas desde quando o feminismo precisa de aval dos homens?

Além disso, Bial parece desconhecer que são constantes os conflitos entre movimentos identitários, como o feminismo, e os seguidores de Marx. Bola fora total.

Nada contra as críticas de quem quer que seja ao documentário. Mas o tom debochado com que Bial as fez provou que, nesses tempos, até mesmo o sorridente apresentador que dava lições de moral ao Brasil a cada eliminação do BBB perdeu o pudor de se mostrar machista.

Regina Duarte e Petra Costa estão em lados opostos na política, mas na condição de mulheres por vezes têm que enfrentar o mesmo adversário. O machismo, como se vê, é democrático — ataca suas vítimas sem olhar ideologia.

Chico Alves