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Chico Alves


Biólogo denuncia há 20 anos o esgoto na água do Guandu, que abastece o Rio

Biólogo carioca Mário Moscatelli  - Divulgação
Biólogo carioca Mário Moscatelli Imagem: Divulgação
Chico Alves

Chico Alves é jornalista, por duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog. Foi editor-assistente na revista ISTOÉ e editor-chefe do jornal O DIA. É co-autor do livro 'Paraíso Armado', sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho.

Colunista do UOL

06/02/2020 04h03

Foi durante um dos vários sobrevôos diários para observar as condições da bacia hidrográfica do Rio de Janeiro que o biólogo Mário Moscatelli, 54 anos, decidiu aleatoriamente verificar como estava a estação de tratamento de água do Guandu. Pelo que viu nos outros rios, imaginou que as coisas por ali não estariam boas. Quando o helicóptero Robinson 44 passou sobre a área, ele ficou alarmado.

"Constatei que o ponto de captação de água para a população recebia esgoto de três rios", conta Moscatelli, referindo-se à unidade que abastece 9 milhões de pessoas. "Vi uma situação dramática. Aquela é uma estação de tratamento de água, não de esgoto".

Pode-se imaginar que o biólogo esteja falando do grave problema que hoje aflige a população fluminense, mas o sobrevôo relatado aconteceu em 1999.
Há alguns dias, Moscatelli voltou a observar do alto o Guandu e viu os efeitos da falta de providências para resolver o problema nesses mais de 20 anos. "De dramática, a situação passou a ser inconcebível", lamenta.

A péssima qualidade da água captada no local e um problema operacional ainda não identificado na Cedae, empresa que opera o sistema, provocaram uma crise que afeta o abastecimento dos moradores da Região Metropolitana do Rio. Há mais de um mês, a população dessas áreas recebe nas torneiras um líquido com gosto e cheiro semelhante a terra. Em alguns municípios, a água teve cor turva.

Águas turvas da bacia do Guandu, em 1999 - Mário Moscatelli / Divulgação
Águas turvas da bacia do Guandu, em 1999
Imagem: Mário Moscatelli / Divulgação

A causa é um componente químico chamado geosmina, contido em algumas algas, que acabou entrando no reservatório.

Depois de demorar a agir e prometer resolver o problema com adição de carvão ativado, o governador Wilson Witzel (PSC) acabou às voltas com um novo absurdo: no início da semana, a estação recebeu grande quantidade de espuma de detergente e o abastecimento teve que ser interrompido por 14 horas. A origem, ao que tudo indica, é despejo industrial.

Até agora, a Cedae forneceu aos fluminenses 120 milhões de litros de água de péssima qualidade. Ninguém sabe quando a crise será resolvida.

O biólogo Mário Moscatelli nem se preocupa tanto com a geosmina, que aparentemente não faz mal à saúde, mas principalmente com outros componentes do esgoto que uma estação como aquela não é capaz de tratar. "Quero saber se há contaminação de cianobactérias, metais pesados, fármacos e hormônios", questiona.

O sobrevôo de 20 anos atrás rendeu o seu primeiro protesto para alertar as autoridades sobre o problema que ninguém denunciava. De lá para cá, ele nunca deixou de chamar atenção para o problema.

Desde 1997, Moscatelli toca o projeto Olho Verde, no qual sobrevoa mensalmente de helicóptero ou navega os rios, as lagoas e o litoral do estado. Ultimamente os recursos para o projeto escassearam e ele só voa quando aparece alguma carona. Semanalmente, visita por terra áreas afetadas pela poluição e planta vegetação de manguezal. As fotos e vídeos que recolhe nesse trabalho municiam denúncias da imprensa e do Ministério Público. Moscatelli gasta nessa tarefa nove horas diárias.

As águas negras da bacia do Guandu, em 2020 - Mário Moscatelli / Divulgação
As águas negras da bacia do Guandu, em 2020
Imagem: Mário Moscatelli / Divulgação
A primeira denúncia sobre as péssimas condições do sistema Guandu não deram em nada e o biólogo voltou ao local com a imprensa nove anos depois, em 2008, acompanhado de uma equipe de jornalistas. Diante da nova denúncia, o governador Sérgio Cabral disse que tomaria providências e que um projeto de transposição dos três rios poluídos já estava pronto e começaria a ser executado em 90 dias. Como se sabe, nada foi feito.

"Sempre recebi por parte dos diferentes governos do estado a resposta de que não havia motivo de alarde porque a qualidade da água estava sendo monitorada", destaca. O alarde acabou acontecendo.

Moscatelli se diz revoltado com a atual situação dos afluentes do Guandu especialmente porque há poucos anos o estado recebeu um importante volume de dinheiro por conta da Copa do Mundo e da Olimpíada, sem que os governantes tivessem usado ao menos uma parte para resolver o problema.

"Na Copa, gastou-se somente na reforma do Maracanã a fortuna de R$ 1,6 bilhão, dinheiro mais que suficiente para fazer o saneamento de Nova Iguaçu, Japeri, Queimados e outros municípios do entorno daquela bacia hidrográfica. Na Olimpíada, o Rio recebeu R$ 40 bilhões em dinheiro público e privado", contabiliza.

Para ele, os governantes não deixaram de fazer por falta de dinheiro, mas por certeza da impunidade.

A foz poluída do Rio Poços, um dos que deságua no Rio Guandu - Mário Moscatelli/Divulgação
A foz poluída do Rio Poços, um dos que deságua no Rio Guandu
Imagem: Mário Moscatelli/Divulgação

O biólogo sugere que a bacia hidrográfica do Guandu seja transformada em reserva ambiental, com instalação de um quartel militar para isolar a área. Mas apoia outras ideias, desde que se faça alguma coisa. "Com uma crise dessas, se daqui a seis meses estiver tudo do mesmo jeito, então fecha tudo e entrega as chaves, porque não têm mais jeito".

Chamado de ecochato por teimar tanto tempo fazendo denúncias sobre problemas ambientais, o biólogo não liga. Mesmo sem ver o resultado dos alertas que faz, mantém a rotina de monitorar rios e lagoas. Garante que qualquer dia estará de volta com sua canoa nas águas fétidas do Guandu, que ele compara a uma latrina.

Nem pensa em desistir. "Minha mãe morava em Nápoles durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial e ela me ensinou que independente do tamanho do inimigo, se estiver certo você tem que lutar. Se perder, venda a derrota o mais caro possível", recorda. "Eu escolhi meu lado e vou até o fim".

Água continua com cor e sabor diferentes no Rio de Janeiro

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Chico Alves